Capítulo 02

A cronologia de uma tragédia

Difícil não se emocionar com o desespero das famílias de Brumadinho que choram seus desaparecidos

Bia Reis, O Estado de S. Paulo

02 de fevereiro de 2019 | 19h08

Eram 12h28 de 25 de janeiro quando a barragem da mineradora Vale no Córrego do Feijão, em Brumadinho, Minas Gerais, se rompeu. A enxurrada de lama levou morro abaixo o que encontrou pela frente: parte da comunidade da Vila Ferteco, a pousada Nova Estância e a parte administrativa da Vale, onde estava o refeitório dos funcionários, lotado na hora do almoço. Uma semana depois, os bombeiros continuam a procurar os corpos. A tragédia deixou centenas de mortos e desaparecidos e um prejuízo ainda inestimado a Brumadinho e ao Rio Paraopeba, cuja nascente também foi inundada pela onda de rejeitos da barragem. As imagens do desastre ­– um dos maiores do Brasil, como mostra levantamento do Acervo Estadão – rodaram o País e o mundo.

O Estado enviou equipes de São Paulo, do Rio e de Brasília para acompanhar a tragédia. Difícil não se emocionar com o desespero das famílias de Brumadinho que choram seus desaparecidos, como mostrou esta reportagem. São pais, mães, maridos, mulheres e filhos que esperam por notícias – qualquer uma, de vida ou de morte. Ou com as histórias de quem foi resgatado dos escombros e sobreviveu, mas perdeu familiares. Ou ainda com quem perdeu tudo no desastre e procura forças para seguir adiante.

O desastre mobilizou o governo federal e suas agências de fiscalização, o governo de Minas Gerais e suas secretarias, senadores, deputados federais e mineiros, os Ministérios Públicos Federal e de Minas Gerais, as Polícias Militar e Civil, especialistas em barragens e ambientalistas. Se em 2015 a então presidente Dilma Rousseff foi criticada pela demora em visitar a área atingida pelo desastre em Mariana, como aponta este texto, desta vez o governo foi mais rápido. No dia seguinte, o presidente Jair Bolsonaro sobrevoou Brumadinho e informou que Israel havia oferecido soldados para ajudar no resgate de sobreviventes, medida cujo resultado foi questionado.

O rompimento da estrutura fez Minas e o Brasil reviverem outra tragédia, a ocorrida em Mariana, em 5 de novembro de 2015, quando uma barragem da mineradora Samarco, subsidiária da Vale, se rompeu. O desastre matou 19 pessoas, deixou submerso o distrito de Bento Rodrigues, destruiu as localidades de Paracatu de Baixo e Gesteira, e provocou a maior tragédia ambiental da história do Brasil. Os rejeitos de minério percorreram os Rios Gualaxo do Norte, Carmo e Doce até desembocarem no Oceano Atlântico. O sofrimento de quem ficou desabrigado perdura há anos. Esta reportagem mostra o preconceito e a desconfiança que as vítimas do desastre sofrem.

Além de fazer os brasileiros e o mundo reviverem a tragédia em Mariana, o novo desastre levantou uma série de questões. Por que o Brasil e o governo de Minas não tomaram as medidas necessárias para evitar uma nova tragédia? O que poderia ter sido feito? O problema está na lei ou na sua fiscalização?

Medidas para tornar a segurança das barragens mais rígida, aumentando a punição contra infratores e beneficiando vítimas, pararam na Câmara dos Deputados. O Estado contabilizou 22 propostas apresentadas após o desastre em Mariana – parte delas ficou meses e até anos na gaveta e outra parcela tramitou de forma muito lenta. Com a troca da legislatura, este ano, os projetos serão arquivados. A omissão do Congresso impediu, por exemplo, o aumento do valor das multas aplicadas a mineradoras pela Agência Nacional de Mineração (ANM) dos atuais R$ 3 mil para R$ 30 milhões. Em entrevista exclusiva, o procurador regional e coordenador da Força-Tarefa Rio Doce do Ministério Público Federal em Minas, José Adércio Leite Sampaio, alertou: "Se o Estado continuar fazendo vista grossa, muitas outras tragédias virão".

Após a nova tragédia, ganhou repercussão declarações do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, de que é preciso simplificar a legislação ambiental de modo a dar mais agilidade ao processo. “É uma legislação tão complexa e irracional que não funciona”, defendeu Salles, em entrevista à Rádio Eldorado. Segundo o ministro, sua proposta engloba apenas projetos considerados de baixo impacto. No mesmo programa, o promotor Guilherme de Sá Meneguim, que atuou na defesa das vítimas do desastre de Mariana, rebateu e defendeu leis mais rígidas e o fortalecimento de órgãos de fiscalização.

Ainda não há explicações claras para a causa do rompimento. Nesta sexta-feira, 1, o subsecretário de Regularização Ambiental, da Secretaria do Meio Ambiente de Minas, Hidelbrando Neto, e especialistas ouvidos pelo Estado após a divulgação do rompimento da barragem disseram que o desastre pode ter sido causado por liquefação – fenômeno caracterizado pela redução da rigidez do solo. Se isso for confirmado, será a mesma razão que provocou o rompimento da barragem em Mariana. A Vale tem afirmado que a investigação está em curso e que divulgará os resultados de forma transparente. Também destaca que acelerará acordos de indenização às vítimas.

Para o colunista José Nêumanne, a tragédia em Brumadinho mostra que “o Brasil virou lixeira do mundo, no qual grandes empresas adotam práticas obsoletas por complacência e cumplicidade do Estado estroina e voraz”. Em editorial, o Estado apontou que as soluções para as barragens dependerão do Congresso e dos órgãos fiscalizadores. Resta saber se os parlamentares e os órgãos, além dos governos, agirão com firmeza para, desta vez, agir para evitar novas tragédias.

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