Mariana Yamada
Mariana Yamada

A covid-19 levou a uma pandemia de poluição plástica

Conforme o mundo produz mais equipamento de proteção — e se alimenta de comida para viagem —, quem sofre é o oceano

The Economist, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2020 | 14h00

O Tâmisa sempre foi um espelho dos tempos, diz Lara Maiklem, uma “catadora de lama” de Londres. Lara passa os dias na praia do rio vasculhando em busca de detritos da história, de vasos romanos a tubos de argila da era vitoriana. Ela sabe dizer em que época do ano estamos simplesmente olhando para o tipo de lixo que encontra: garrafas de champagne na primeira semana de janeiro; bolas de futebol no verão. O ano de 2020 deixou sua marca particular. Depois que o coronavírus chegou à Grã-Bretanha, a lama ficou repleta de luvas de borracha.

Em fevereiro, a meio mundo de distância, Gary Stokes atracou seu barco na isolada Ilha Soko, em Hong Kong. É nas praias de Soko que a OceansAsia, organização de preservação dos oceanos administrada por ele, registra esporadicamente os níveis de poluição plástica no mar. Stokes diz que já se acostumou a encontrar as porcarias descartadas pelo mundo moderno, como garrafas plásticas de bebida e sacolas plásticas de supermercado. Mas o que ele documentou naquele dia ganhou as manchetes em toda Hong Kong: 70 máscaras cirúrgicas em um trecho de 100 metros de praia. Depois de recolhê-las, ele fez nova visita ao local quatro dias depois. Como uma teimosa erva daninha, as máscaras tinham voltado.

Seja nas praias do Tâmisa ou nas praias desertas da Ilha Soko, o planeta está repleto de lixo plástico da pandemia. É difícil encontrar dados concretos, mas é possível que o consumo de plástico descartável tenha aumentado entre 250 e 300% nos Estados Unidos desde a disseminação do coronavírus, diz Antonis Mavropoulos, da Associação Internacional de Resíduos Sólidos (ISWA), que representa órgãos recicladores de 102 países. Boa parte desse aumento decorre da demanda por produtos pensados para manter a covid-19 afastada, incluindo máscaras, visores e luvas. De acordo com previsão da Grand View Research, o mercado global de máscaras descartáveis vai crescer de estimados US$ 800 milhões em 2019 para US$ 166 bilhões em 2020.

Por mais impressionantes que pareçam tais números, a proteção pessoal é apenas parte da novidade. As quarentenas também levaram a uma explosão no comércio eletrônico. Em março, com o fechamento de parte dos EUA e da Europa, cerca de 2,5 bilhões de clientes devem ter visitado o site da Amazon, aumento de 65% no movimento em relação ao ano passado. Na China, mais de 25% das mercadorias físicas foram compradas na internet durante o primeiro trimestre do ano, de acordo com o Instituto Peterson de Economia Internacional, um centro de estudos estratégicos de Washington, DC.

Boa parte daquilo que é comprado na internet vem embrulhada em plástico - de um tipo péssimo de plástico, por sinal. As mercadorias costumam ser embaladas em diferentes camadas de plásticos. Isso mantém o conteúdo em segurança ao longo do transporte, seja aéreo ou terrestre. Mas torna também quase impossível a reciclagem desse plástico. Ao mesmo tempo, as massas confinadas em quarentena têm consumido mais pedidos de restaurantes para viagem, alcançando números recordes. As vendas do primeiro trimestre do Uber Eats, por exemplo, um dos maiores aplicativos de entrega de restaurantes dos EUA, tiveram alta de 54% ante o ano anterior. Cada porção extra de curry, cada embalagem de maionese gourmet significa mais resíduo plástico.

Se o crescente apetite do público pelo plástico descartável preocupa os ambientalistas, o mesmo vale para a queda no ímpeto de reciclar materiais que podem ser reutilizados. Em Atenas, por exemplo, houve um aumento de 150% na quantidade de plástico encontrada no lixo comum, diz Mavropoulos. Evidências coletadas por membros da ISWA indicam que esta é uma tendência global. A menor adesão à reciclagem pode ser explicada pelo nervosismo das pessoas em saírem para levar o lixo aos latões de reciclagem. Ou talvez a quarentena tenha distraído todos com preocupações mais urgentes, levando a uma queda na disciplina.

A covid-19 levou a outros tipos de aumento no acúmulo de resíduos plásticos. Para começar, a pandemia levou a uma implosão do preço do petróleo. Como o petróleo é um importante ingrediente da maioria dos plásticos, a produção destes se tornou mais barata, diz David Xi, da Universidade de Warwick. Por sua vez, isso reduziu o incentivo às empresas para que usassem o material reciclado. Mas o crescimento dos resíduos plásticos é causado principalmente pelo fato de municípios em todo o mundo terem limitado o cronograma de reciclagem. A coleta foi reduzida e usinas foram fechadas por medo da disseminação da doença. Preocupações com o lixo contaminado também deixaram coletores e separadores nervosos com a volta ao trabalho (o vírus é capaz de sobreviver por cerca de 72 horas no plástico).

Tudo isso significa que boa parte do plástico produzido este ano está chegando aos aterros sanitários ou aos incineradores. Ambos os desfechos podem levar a problemas no futuro. Os aterros sanitários frequentemente nada mais são do que lixões a céu aberto, principalmente nos países pobres. São responsáveis por alguns dos maiores vazamentos de plásticos para os oceanos, diz Mavropoulos. Como é leve, o material pode ser facilmente arrastado pela chuva ou pelo vento até as vias aquáticas.

A incineração não é muito melhor. Mais uma vez, em especial nos países em desenvolvimento onde as instalações costumam ser pobres, o plástico incendiado pode criar toxinas e, com frequência, o processo não elimina totalmente o material, deixando níveis consideráveis de micropartículas plásticas como resultado. Essas podem chegar à atmosfera, onde provocam câncer, ou contaminar lençóis freáticos e, finalmente, os oceanos.

Não há consenso acadêmico em relação ao risco que o plástico representa para os animais depois de decomposto em micropartículas pela ação do sal e do sol. Os polímeros, nos quais os plásticos se baseiam, são quimicamente inertes, mas alguns aditivos podem ser tóxicos. Mas, dado o imenso experimento natural atualmente em andamento, é provável que os pesquisadores logo tenham uma ideia mais clara desse efeito. “Estamos apenas começando a compreender os potenciais impactos das nanopartículas e sua capacidade de penetrar nas células vivas de organismos marinhos”, diz Dan Parsons, diretor do Instituto de Energia e Meio Ambiente da Universidade de Hull. “Nanomateriais plásticos lançados no ambiente podem ser como o amianto para os mares.”

De fato, como o próprio vírus, a poluição plástica da era da pandemia está atingindo sobretudo os mais pobres, diz Inger Andersen, diretora executiva do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Nos países de baixa renda, 93% do resíduo é destinado a lixões a céu aberto, diz ela. E, quando são usados incineradores, esses tendem a ser de baixa qualidade. Mesmo nos países ricos, são os mais pobres que costumam viver perto das instalações de gestão do lixo, diz Inger.

Há bons motivos pelos quais o público se voltou para os plásticos, diz Parsons: “As pessoas sabem que isso as protege” do coronavírus. Inger aponta que, além disso, não é justo culpar os fabricantes por produzirem equipamento de proteção danoso ao meio ambiente — e os consumidores por comprarem esse material — diante da corrida global para obter os materiais necessários para fazer as máscaras e visores que mantêm a segurança dos funcionários de saúde, entre outros. E um mundo com menos plástico produzido não seria necessariamente um mundo mais limpo. Como o material é leve, seu transporte resulta em menos emissões de gases-estufa do que as alternativas.

Mas o que preocupa Parsons é a possibilidade de perder o trabalho de anos tentando mudar a atitude do público em relação ao plástico descartável. Conclusões preliminares de pesquisas realizadas pela equipe dele indicam que o público voltou à atitude despreocupada em relação aos resíduos plásticos. A pandemia já incentivou a abolição de leis contra o plástico, como impostos sobre sacolas descartáveis em alguns estados americanos, ou a proibição aos canudos plásticos na Grã-Bretanha. Ironicamente, isso pode até ajudar o clima. Mas, com a covid-19 deixando sua marca nas famílias e no sustento de milhões de pessoas em todo o mundo, seu efeito no planeta também será sentido por anos nos aterros sanitários e oceanos. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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