A Copenhague que vale a pena

A Dinamarca vem investindo há 30 anos em fontes alternativas de energia e em redução de emissões

Thomas L. Friedman, The New York Times

23 Dezembro 2009 | 14h57

Enquanto ouvia a Ministra da Economia e Negócios da Dinamarca descrever como os impostos são mais elevados para o uso de energia em seu país, maneira encontrada para estimular a inovação em energia verde, e como as receitas fiscais são recicladas e voltam para a indústria e os consumidores dinamarqueses, para tornar mais fácil para eles a utilização de novas tecnologias limpas, tudo soou tão... inteligente.

 

Soou como se os dinamarqueses olhassem para si após a o embargo do petróleo árabe em 1973, descobrissem que eram totalmente dependentes do petróleo do Oriente Médio e colocassem em prática uma estratégia de longo prazo para tornar a Dinamarca menos susceptível em termos de energia e, ao mesmo tempo, para iniciar uma nova indústria, com outras bases energéticas.

 

Quanto mais eu ouvia a ministra dinamarquesa, Lene Espersen, mais pensava no meu próprio país, onde eu tenho escutado alguns políticos dizerem que a proposta de um aumento de 10% de impostos sobre o litro da gasolina  - para tornar a América mais independente de energia e estimular a eficiência energética - é “fora da questão,'' um ato de suicídio político certo.

Não na Dinamarca. Então eu perguntei à ministra dinamarquesa: “Diga-me, de que planeta são as pessoas daqui?''

 

Espersen riu. Mas eu não. Por quanto tempo os americanos continuarão a pensar que nós podemos prosperar no século 21 passando ao largo de fazer coisas básicas, se para a energia, saúde e educação os investimentos são sempre “fora da questão”?   Essas prioridades foram banidas por uma coalizão de grupos de pressão ad hoc, carregados com dinheiro, gritando e passando por cima de quem ousasse cruzar os seus caminhos, consultores políticos que advertem que obrigar os americanos a fazer alguma coisa importante, mas sacrificante, torna qualquer um inelegível, e que o cidadão nem sequer deve sonhar com o “ótimo”, porque deve acreditar que melhor do que já está é impossível.

 

Desculpe, mas não podemos nos dar ao luxo de dizer que está “fora de questão” qualquer boa idéia que comprovadamente deu certo em outras sociedades democráticas capitalistas - não quando precisamos construir uma economia do conhecimento com bons empregos e quando todo mundo está tentando fazer o mesmo.

 

“Os impostos verdes aqui já são bastante elevados,'' disse Espersen. “E, embora saibamos que isso não é popular com as empresas e com a indústria, fez toda a diferença para nós. Obrigou nossas empresas se tornem mais eficientes e inovadoras, e isso significa que, de repente, fomos inventando coisas que ninguém mais estava inventando, porque as nossas empresas tinham essas necessidades para serem competitivas.''

 

O  Instituto de Estudos do Meio Ambiente e da Energia e a embaixada da Dinamarca realizaram recentemente um relatório sobre como a Dinamarca está trabalhando para se tornar uma economia de baixo carbono. Aqui estão alguns destaques:

 

 

Embora ainda gere a maior parte da sua electricidade a partir de carvão, “desde 1990, a Dinamarca reduziu as suas emissões de gases de efeito de estufa 14%. Durante o mesmo período, o consumo de energia permaneceu constante e o PIB doméstico da Dinamarca cresceu mais de 40%.

 

A Dinamarca é o país mais eficiente em uso de energia na UE, devido ao preço do carbono, através de impostos sobre a energia, de impostos sobre o carbono, do uso do sistema "cap and trade " (licença de emissão), e da utilização de códigos e selos rigorosos para  programas de energia. Os recursos renováveis fornecem atualmente cerca de 30% da eletricidade da Dinamarca. A energia eólica é a maior fonte de energia renovável provedora de eletricidade, seguida pela biomassa. Hoje, Copenhague coloca apenas 3% dos seus resíduos em aterros e incinera 39% para gerar eletricidade para milhares de famílias.''

 

 

 “O governo dinamarquês canaliza receitas fiscais de energia de volta para a indústria, que usa grande parte dela para subsidiar inovações ambientais”, escreveu a colega Monica Prasad, do Instituto Universitário Northwestern para Pesquisas Políticas, no dia 25 de março de 2008 em um ensaio neste mesmo jornal. Assim, “empresas dinamarquesas são desestimuladas a emitir o carbono e atraídas para a inovação ambiental, e a economia do país não está em desvantagem competitiva.'' 

 

 

É por isso que a Dinamarca, com apenas 5 milhões de pessoas, possui algumas das empresas líderes nas áreas de energia eólica, biocombustíveis, aquecimento e refrigeração do mundo. As tecnologias energéticas são agora 11% das exportações da Dinamarca. As exportações de petróleo e os impostos sobre a energia também subsidiam o transporte de matéria e a eficiência energética, mantendo as contas baixas para os consumidores dinamarqueses.

 

Onde é que os políticos dinamarqueses obtêm a coragem para fazer as coisas certas - mesmo que dolorosas?

 

“Nós não temos um monte de recursos,''disse Ida Auken, um porta-voz para o Partido Verde Socialista Dinamarquês. “Temos um estado de bem-estar que temos de manter, por isso temos de pensar para a frente todo o tempo. Não podemos ficar presos no passado. É daí que tiramos a coragem. E nós temos visto isso funcionar por 30 anos. É um bom negócio. Os construtores dinamarqueses estão implorando por normas rigorosas em matéria de imóveis e construções, porque eles sabem que, se puderem se tornar eficientes aqui, eles podem competir em qualquer lugar do mundo inteiro''.

 

Meus compatriotas americanos, o fato de da Conferência do Clima de Copenhague tenha sido um fracasso em termos de resolver as questões de energia/problemas climáticos não significa que podemos ignorar os problemas ou - que podemos ignorar como diferentes países, como a Dinamarca, tratam dele de forma eficaz. Com o desemprego na Dinamarca em cerca de 4%, em comparação com os nossos 10%, talvez nós devêssemos pelo menos considerar a possibilidade de algumas das idéias dinamarquesas em nossa mesa.

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