Eduardo Carvalho
Eduardo Carvalho
Imagem João Gabriel de Lima
Colunista
João Gabriel de Lima
Conteúdo Exclusivo para Assinante

A COP que eu vi

Os jovens que protestam em Glasgow são da geração que converte a ira em voto

João Gabriel de Lima, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2021 | 05h00

A COP que eu vi não foi a dos líderes mundiais reunidos a portas fechadas para escrever o “livro de regras” do Acordo de Paris. Vim a Glasgow em busca dos outros – de nós, a sociedade. Os que terão de enfrentar no mundo real o desafio de uma geração: combater a mudança climática para que o planeta siga habitável.

Encontrei quem eu procurava nas ruas. Os protagonistas dos protestos que tomaram Glasgow foram os jovens, os que serão mais afetados caso um futuro de filme de terror se concretize sobre a Terra. A “geração Greta” sabe, no entanto, que não basta gritar palavras de ordem. Para mudar o mundo, é preciso cobrar os políticos e rejeitar nas urnas os que não se comprometem com a causa ambiental – como já vem ocorrendo em alguns países. Os jovens que protestam em Glasgow são da geração que converte a ira em voto.

Vim também para ver qual seria a voz dos brasileiros na COP-26. Minha surpresa, mais uma vez, não veio dos gabinetes fechados onde os líderes se reúnem. O grande feito dos brasileiros na conferência de Glasgow foi criar um pavilhão da sociedade civil, o Brazil Climate Action Hub. Por lá passaram políticos e ambientalistas; representantes dos movimentos indígena, negro e de jovens; CEOs de empresas e líderes do agronegócio, lado a lado com ativistas de organizações como o Greenpeace.

A manchete dos sites internacionais quando tomei o avião em Lisboa, onde moro, era de envergonhar qualquer brasileiro, embora recorrente: mais um recorde de desmatamento. Foi bom estar em Glasgow e ver que há motivos para sentir orgulho de nosso país – e muitos deles estavam no Brazil Climate Action Hub. Cientistas de alto nível comprometidos em evitar a mudança climática. Ativistas de perfil multicultural, engajados na resolução de nossos problemas. E alguns políticos da nova geração – a velha, que está aí, parece não ter entendido o risco que o planeta corre – tentando ao menos ouvir o que a sociedade tem a dizer.

O centro de convenções que abrigou a COP-26 fica à beira do rio Clyde, que corta Glasgow. Na praça central da cidade há uma estátua de bronze de James Watt, o inventor da máquina a vapor, nascido num povoado às margens do mesmo rio. A reunião dos líderes, à beira do Clyde, definiu o “livro de regras”, o passo que faltava para concluir o ciclo iniciado com o Acordo de Paris, em 2015. Com isso, segue viva a meta de manter a temperatura a 1,5 graus dos índices anteriores à Revolução Industrial – que teve entre seus propulsores a máquina a vapor de James Watt. Na COP que eu vi há muita gente disposta a lutar por esse objetivo – que é, também, nossa condição de sobrevivência.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.