'A China foi a única responsável pelo fracasso da COP'

Acusação é de autor britânico que participou da negociação final em Copenhague

22 Dezembro 2009 | 20h43

O autor e jornalista britânico Mark Lynas escreveu nesta terça-feira um artigo para o jornal The Guardian, no qual acusa a China de ser a grande responsável pelo fracasso das COP-15. Ele conta detalhes da negociação final, da qual participou como membro de uma delegação. No texto, ele não especifica qual, mas ele atuou como conselheiro do governo das ilhas Maldivas. Veja abaixo trechos do artigo, cujo original, em inglês, pode ser lido aqui.  

 

"Copenhague foi um desastre -- disso ninguém duvida. Isso é muito acordado. Mas a verdade sobre o que realmente aconteceu corre o risco de se perder entre as acusações mútuas que tomam conta da discussão. A verdade é: a China minou todas as negociações, humilhou intencionalmente Barack Obama e insistiu em um tratato péssimo, para os líderes ocientais levassem a culpa. Como eu sei de tudo isso? Eu estava na sala e vi o que aconteceu.

 

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A estratégia da China era simples: bloquear as negociações por duas semanas e, em seguida garantir que a discussão final, a portas fechadas, desse a impressão de que o Ocidente, uma vez mais, falhou com os países pobres. E é claro que agências humanitárias, ONGs e ambientalistas morderam a isca. "Os países ricos intimidaram as nações em desenvolvimento", irritou a ONG Amigos da Terra Internacional.

 

 

Tudo muito previsível, mas o oposto do que realmente aconteceu.

 

 

O Sudão (cujo delegado, Lumumba DI-Aping, qualificou o acordo como "um pacto suicida para manter o domínio econômico de alguns países") se comproutou como um fantoche da China. Era apenas um de uma série de países que trabalhou, na surdina, para apoiar as negociações dos chineses. Foi um teatro perfeito. A China lacerou o pacto nos bastidores e deixou seus aliados para criticá-lo em público.

Mas foi isso o que realmente aconteceu na reunião de sexta-feira, da qual participaram chefes de Estado de 20 países. Obama ficou horas na mesa de negociação, 

sentado entre o premiê britânico, Gordon Brown, e do primeiro-ministro etíope, Meles Zenawi. A reunião foi presidida pelo premiê dinamarquês, que estava ao lado do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon. Provavelmente, só cerca de 50 ou 60 pessoas, incluindo os chefes de Estado, estavam na sala. Eu estava acompanhando uma das delegações, cujo chefe de Estado também esteve presente na maior parte do tempo.

O que vi foi chocante. O premier chinês, Wen Jinbao, não se dignou a participar nas reuniões pessoalmente e enviou um diplomata do Ministério das Relações Exteriores do país para se sentar em frente de Obama. O desprezo diplomático era óbvio e brutal, assim como sua implicação prática: várias vezes durante a sessão, os chefes de Estado mais poderosos do mundo foram obrigadas a esperar enquanto o delegado chinês saía para telefonar para seus "superiores".

Para aqueles que culpam Obama e os países, fiquem cientes: foi o representante da China que insistiu que as metas dos países industrializados, previamente acordada de reduzir as emissões em  80% até 2050 fossem tiradas da pauta. "Por que não podemos sequer menciona os nossos próprios objetivos?", demandou, furiosa, a chanceler alemã, Angela Merkel.O premiê australiano, Kevin Rudd, ficou tão irritado que bateu em seu microfone. O representanto deo Brasil também criticou a incoerência da posição da China. 

 

 

Por que países ricos não deveriam nem anunciar unilateralmente seus cortes? O delegado chinês disse que não, e eu assisti, horrorizado, quando Merkel jogou suas mãos em desespero e acabou concordando. Agora sabemos por que: a China apostou, corretamente, que Obama seria culpado pela falta de ambição do acordo de Copenhague.

 

 

Apoiada eventualmente pela Índia, a China começou a retirar todos os números que importava, como a meta de restringir o aumento de temperatura em 2 graus e o corte de 50% nas emissões até 2050. Ninguém, talvez com exceção da Índia e da Arábia Saudita, queria que isso acontecesse. Estou certo de que se a China não estivesse na sala, teríamos deixado Copenhague com um acordo que fizesse ambientalistas do mundo todo abrir suas champanhes. 

 

 

Posição sólida

Então como é que a China conseguiu dar esse golpe? Primeiro, ela estava em uma posição extremamente forte, pois não precisava negociar. "Os atenienses não tinham nada a oferecer para os espartanos", comparou um diplomata. Por outro lado, líderes ocidentais e também os presidentes Lula, do Brasil, Zuma, da África do Sul, Calderón, do México e muitos outros estavam desesperados por um resultado positivo. Obama era o que mais precisava de um acordo forte. Os EUA haviam confirmado a oferta de US$ 100 bilhões aos países em desenvolvimento para lidarem com o aquecimento e a propor, pela primeira vez, ambiciosos cortes (17% abaixo dos níveis de 2005 até 2020).

Acima de tudo, Obama precisava demonstrar ao Senado americano que ele podia convencer a China sobre uma regulamentação básica, para que senadores conservadores não pudessem argumentar que os cortes das emissões de carbono dos EUA dessem vantagens à indústria chinesa.  Com as eleições de meio de mandato se se aproximando, Obama e sua equipe também sabiam que Copenhague seria provavelmente a única oportunidade para ir para negociar com propostas ousadas. Isso também reforçou o poder de negociação da China, assim como a completa falta de pressão da sociedade civil na política, quer a China ou a Índia.

Com o negócio dilacerado, a sessão foi concluída com uma batalha final, quando o delegado chinês insistiu em retirar a meta 1.5 graus, tão cara às ilhas, que já estão sofrendo com a elevação dos mares. O presidente Nasheed, das Maldivas, demandou: "Como 

você pode pedir ao meu país para permitir que sejamos extintos?" O delegado chinês fingiu grande ofensa.

 

 

O jogo da China

Tudo isto levanta a questão: qual é o jogo da China?  Por que a China, nas palavras de um analista britânico  "não só rejeitaram metas para si, mas também se recusaram a permitir que qualquer outro país a assumisse metas obrigatórias?"  Ele conclui que a China quer enfraquecer o regime de regulamentação do clima agora "para evitar o risco de ser impedida de ser mais ambiciosa em alguns anos".

 

 

Isso não significa que a China não está preocupada com o aquecimento global. Ela tem indústrias eólicas e solar fortes. Mas o crescimento da China  baseia-se em grande medida no carvão barato.  A China sabe que está se tornando uma superpotência e sua confiança recém-conquistada estava em foco em Copenhague. Sua economia baseada no carvão dobra a cada década, e aumenta seu poder de forma proporcional. Sua liderança não irá alterar essa fórmula mágica, a menos que seja absolutamente necessário.

 

 

Copenhague foi muito pior do que apenas um mau negócio, porque ilustra uma profunda mudança na geopolítica global. Esse século está se tornando rapidamento o século da China, mas ela mostrou que sua governança ambiental não só não é uma prioridade, mas é visto como um empecilho para as ações dessa superpotência. Deixei Copenhague desapontado, como não me sentia há tempos. Depois de toda a esperança e de todo o hype, da mobilização de milhares de pessoas, a onda de otimismo bateu contra a rocha do poder político mundial e recuou.

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