Werther Santana
Werther Santana

A casa sustentável

O cômodo, feito em madeira, todo parafusado, pode ser desmontado e montado em outro local, pois utiliza componentes modulares e pré-fabricados

Érika Motoda e Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2020 | 05h00

A casa circular é um edifício baseado no design Cradle to Cradle (C2C em inglês, que quer dizer “do berço ao berço”). Os recursos seguem uma lógica circular de criaçãoreutilização, em que cada passagem de ciclo se torna um novo “berço” para determinado material. É o contrário da  expressão “do berço ao túmulo”, que descreve o processo de extração, produção e descarte dos produtos. A base da economia circular é pensar os dois ciclos. No ciclo biológico, os materiais orgânicos vêm da terra e voltam para ela. No ciclo técnico, os materiais não renováveis, como metais e plásticos, devem circular indefinidamente. 

O protótipo é um ateliê de 30 m² montado em Pinheiros, zona oeste de São Paulo. A pergunta principal que orientou o projeto foi: e depois? Ele foi construído com materiais que podem ser reaproveitados nos próximos ciclos de uso, seja em construções (montagem e desmontagem), em ampliações ou reduções ou transformados em novos produtos. Foram três meses de desenho e planejamento, 15 de pré-produção da construção e 10 dias de montagem in-loco. Não houve produção de lixo e, portanto, não foram usadas caçambas para entulhos. 

O cômodo, feito em madeira, todo parafusado, pode ser desmontado e montado em outro local, pois utiliza componentes modulares e pré-fabricados. Outra preocupação dos donos do projeto foi a origem dos materiais – descobrir onde e como foi extraída a madeira – e a composição dos materiais. Saber da composição química é importante para conhecer o grau de toxicidade de cada material. 

O aproveitamento da iluminação natural e do ar fresco são pontos fortes do projeto. Portas, janelas  e tubos de luz no teto proporcionam luz indireta e também funcionam como um sistema de chaminé para o ar quente subir pela construção. Isso cria uma espécie de ar condicionado natural. A luz artificial só é usada à noite. A água que abastece o ateliê é captada pela chuva. Os efluentes são tratados por um sistema chamado de círculo de bananeira. A própria planta filtra novamente a água, que pode retornar de forma segura ao sistema. A fundação da casa foi feita com pneus usados e brita. 

O protótipo da casa circular foi criado pelas arquitetas Léa Gejer e Katia Sartorelli Veríssimo dos escritórios Flock design arquitetura e cidades + Okna arquitetura. “A casa é uma maneira para a gente começar a discutir como a gente pode construir melhor e como habitar o planeta.

É uma proposta para trocar a forma convencional de construir, com tijolo, cimento e geração de resíduos, para um formato circular e inteligente”, explica Léa Gejer, uma das fundadoras do movimento Ideia Circular, iniciativa de educação e comunicação sobre design circular e economia circular no Brasil. Mais do que gerenciamento de resíduos, o foco é em otimizar materiais, produtos e sistemas, buscando reduzir – e até acabar – com o lixo. 

Uma casa tradicional em Pinheiros, bairro de classe média alta de São Paulo, custa em média de R$ 3,5 mil o metro quadrado. Para uma casa circular, o morador vai gastar entre 15% a 30% a mais de acordo com as tecnologias utilizadas. Por outro lado, os arquitetos argumentam que os materiais se pagam no decorrer dos anos.

No caso dos paineis fotovoltaicos, usados para captação da energia solar, por exemplo, o alto investimento no início, de R$ 5 mil a R$ 15 mil aproximadamente de acordo com valores do mercado, tem retorno com a economia da conta de luz ao longo dos anos. 

Agnaldo Solato, diretor da Franquia Solar Prime em São Paulo, explica que, quanto mais alta a tarifa, menor o tempo de retorno do investimento. “Os projetos são individuais, pois variam de acordo com a tarifa de energia, localização e posicionamento em relação ao sol. O custo, com a documentação técnica e aprovação do projeto nas distribuidoras, muda de acordo com o projeto”, explica. “Nós tentamos fazer com que o retorno fique entre 3 e 4 anos”, avalia.

O mesmo raciocínio se aplica à construção de cisternas, reservatórios para captação da água da chuva e armazenamento para uso doméstico geral. No ateliê, a cisterna, feita de modo quase artesanal custou em média R$ 2 mil. “Esse é meu projeto predileto. Eu vejo diversas vantagens. Uma delas é a economia a médio prazo por conta da inovação, ventilação e conforto maior da edificação. Ele evita a toxicidade dos materiais. Outro ponto é a biodiversidade e o contato com a natureza”, explica Léa. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.