'A cada dez segundos área de campo de futebol é desmatada'

Afirmação foi feita pelo diretor do Inpeapós divulgação de números da destruição da Amazônia Legal

Simone Menocchi, Agência Estado

02 Junho 2008 | 20h51

"A cada dez segundos uma área semelhante a um campo de futebol é desmatada na Amazônia". A constatação, do diretor do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), Gilberto Câmara, mostra que a destruição na Amazônia Legal cresce a passos largos. "Nos últimos três anos havia caído, mas neste ano deve voltar a crescer. Ainda não sabemos quanto, mas o desmatamento continua crescente", completou. Os dados do Deter, sistema que utiliza satélites para monitorar a devastação a cada quinze dias, foi divulgado nesta segunda-feira, 2, com relação ao mês de abril. As informações foram transmitidas com uma semana de atraso. O Inpe, que divulgaria os dados no dia 26 de maio, mas aguardou a posse do novo ministro Carlos Minc, para apresentar as informações.   Veja também: Governo apreenderá terras desmatadas e gado ilegal, diz Minc Desmatamento na Amazônia aumenta 8 vezes em um mês Desmatamento da Mata Atlântica caiu 69% até 2005 Inpe suspende divulgação de dados sobre desmatamento  Desmatamento na Amazônia aumenta 8 vezes entre março e abril  Especial: Amazônia - Grandes reportagens    Em abril deste ano foram desmatados 1.123 quilômetros quadrados contra 145 quilômetros quadrados em março. A diferença está na visibilidade. Em março os Estados que formam a Amazônia Legal estavam cobertos por 78% de nuvens. Já em abril os dados foram detectados com 53% de nebulosidade. "Não podemos dizer que houve aumento de março para abril, porque as condições de detecção foram diferentes. O que podemos afirmar é que há um processo de degradação crescente e isso nos preocupa muito".   Nos últimos 20 anos o desmatamento detectado pelo Inpe chega a 17% da área de floresta da Amazônia, que é de 4 milhões de quilômetros quadrados. Para se ter uma idéia, em doze meses - de agosto de 2006 a julho de 2007 - foram destruídos 4.974 quilômetros quadrados de floresta. Já entre agosto de 2007 e abril de 2008 - 9 meses - foram 5.850 quilômetros quadrados, um aumento de quase 15%.   Como em todas as avaliações anteriores foram mapeadas tanto áreas de corte raso da vegetação como terras em processo de desmatamento por degradação das florestas. No mês de março, devido ao tempo fechado, com muita nebulosidade, não foi possível verificar a realidade, principalmente por que o sistema Deter identifica áreas maiores que 25 hectares. Já o Prodes (Programa de Monitoramento da Amazônia Legal) faz o levantamento de áreas menores que 25 hectares e divulga os números a cada um ano. Em março deste ano 78% da Amazônia estava coberta de nuvens, sendo que Mato Grosso, Pará e Roraima tiveram 69%, 95% e 96%, respectivamente, de seus territórios cobertos de nuvens.   O relatório apresentado ontem mostra que o Mato Grosso foi o Estado com maior volume de devastação. Foram 794,1 quilômetros quadrados, com uma visibilidade de 86%. Em seguida, vem Roraima, com 284,8 quilômetros quadrados e 82% de área observada, graças as boas condições de tempo. "Não temos acesso ao que está ocorrendo em campo, se é o agronegócio ou outra atividade. Não cabe ao Inpe saber se é esse ou aquele setor, não temos como medir isso", disse Câmara. Ainda de acordo com o cientista, em áreas de reserva indígena e parques, o desmatamento é bem menor.   "As áreas indígenas ajudam a reduzir o desmatamento. Um exemplo, que pode ser visto nitidamente, é o Parque Estadual do Xingu. Está estatisticamente provado que as reservas indígenas não sofrem tanto a destruição".   Os dados foram apresentados na presença de outros especialistas como o coordenador geral de Observação da Terra do Inpe, João Vianei Soares e o coordenador do Programa Amazônia, Dalton Valeriano. Foram eles que também analisaram os dados enviados pela Secretaria de Estado do Meio-Ambiente do Mato Grosso, referente ao mês de fevereiro. É que o governador do Mato Grosso, Blairo Maggi (PR) duvidou dos dados apresentados pelo Inpe anteriormente e em nota chegou a dizer que apresentavam "distorção".   O secretário adjunto da pasta do Mato Grosso, Luiz Henrique Daldegan acompanhou a apresentação dos dados e não foi tão efusivo em sua contestação. "Estamos agora fazendo uma parceria com o Inpe. Vamos comparar os dados apresentados. "Quatorze por cento apenas do Estado do Mato Grosso não pode ser observado por causa da nebulosidade. Isso quer dizer que o que era para ser visto, já foi visto. Acima de tudo, acreditamos que o Prodes, que é quem divulga o desmatamento anual, vai trazer uma grande surpresa". Daldegan chegou a dizer que o Inpe não qualificou quando houve o desmatamento. "Tem áreas lá que foram desmatadas em 2001 e essa degradação é progressiva". Ele informou ainda que o Mato Grosso vai continuar investindo em fiscalização e também no monitoramento próprio. "So neste ano foram mais de 700 autuações", disse Daldegan.   Os dados apresentados pela Secretaria de Estado do Mato Grosso, feitos com 353 fotos, sobrevôos e dias a pé, mostraram que houve 57% de degradação progressiva e 39,4% de corte raso (queimadas). Os especialistas do Inpe compararam as informações com os dados do Deter e puderam detectar que o sistema acertou em pouco mais de 90%. "Mora da história. O Deter acerta na ordem de 93 a 94%. Os dados ajudaram a confirmar a eficiência do Deter", disse Câmara. O diretor do Inpe disse que o questionamento do governador Maggi foi positivo. "Não é a primeira vez que os cientistas são questionados. Toda ciência está sujeita a questionamentos e cabe a nós esclarecer. Aprendemos muito com os dados passados pela Secretaria. O relatório do Mato Grosso também foi muito útil para nós."

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