A Antártida está esfriando

A Península Antártida é um dos ícones do aquecimento global. Desde 1950, os cientistas medem o seu gradual aquecimento, que modificou os ecossistemas da região, pondo em risco grande número de pinguins. Isso culminou com a desintegração de enormes blocos de gelo, no final do século 20. Mas, agora, surgiu uma novidade. Nos últimos 20 anos, a península vem esfriando de maneira consistente. Como isso influencia na nossa crença no aquecimento global?

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

30 Julho 2016 | 03h00

Se você olhar um mapa da Antártida, vai saltar aos olhos uma longa península curva, que se estende em direção ao Sul da Argentina. É a Península Antártida. Ali foram montadas as primeiras estações científicas na região, e onde até hoje se concentram os centros de pesquisa. É a área mais investigada do continente.

A obsessão de quem habita essas estações gélidas é a temperatura ambiente. Por esse motivo, existem dados detalhados da variação da temperatura nessa região desde 1951. Coletados em diversas estações científicas, registram a variação diária da temperatura, e sua variação ao longo das estações do ano. Um gráfico dessas temperaturas ao longo do tempo mostra um aquecimento e resfriamento ao longo de cada dia, combinados com uma variação ao longo do ano, esfriando no inverno e esquentando no verão. Mas, se você colocar todos esses dados em um gráfico que represente isso ao longo de décadas, é possível demonstrar que, apesar do sobe e desce diário e do sobe e desce anual, a temperatura média do ar na região vem subindo gradativamente ao longo das décadas.

Feitas todas as contas, o resultado é que a temperatura do ar perto do solo aumentou. Na Estação de Vernadsky, na costa oeste da península, foi registrado o maior aumento, de 2,8°C por década entre 1951 e o ano 2000. Nas outras estações o aumento foi menor, mas os cientistas podem afirmar com grande segurança que a temperatura vinha aumentado 0,32ºC por década. 

Esse aumento, apesar de aparentemente pequeno, teve grande efeito sobre o ecossistema da região. Grandes placas de gelo, do tamanho de um pequeno Estado brasileiro, se soltaram do continente e foram derretendo aos poucos. O maior desses eventos aconteceu em 2002, quando parte da camada de gelo chamada Larsen B se soltou.

Essas mudanças climáticas também levaram à diminuição da população de pinguins Adélie. Tudo isso transformou essa região em um ícone do aquecimento global, e era natural concluir que todos esses fenômenos eram causados pela chegada das mudanças climáticas causadas pelo homem.

Mas agora tudo mudou. Analisando os dados de temperatura das últimas duas décadas, os cientistas descobriram que, a partir de 1998, a temperatura da região começou a cair. A temperatura do ar vem diminuindo com a mesma velocidade com que vinha aumentando no final do século 20. Agora, com 20 anos de dados, todos concordam que isso é uma realidade. A Península Antártida vem esfriando. E, se isso continuar, o aquecimento que aconteceu de 1950 a 2000 pode ser revertido.

Essa descoberta levou os cientistas a analisar as causas dessa reversão. Eles concluíram que, tanto o grande aumento no passado quanto essa diminuição recente, se devem a variações climáticas cujos ciclos se medem em décadas e que, portanto, nem o aquecimento anterior nem o resfriamento recente se devem às mudanças globais do clima, mas a fenômenos locais da península, que nem sequer se estendem para todo o continente da Antártida.

É claro que essa descoberta vai ser usada pelos detratores do aquecimento global, mas isso ainda não tem suporte científico. A verdade é que o aquecimento nessa região sempre foi mais rápido que o esperado pelos modelos de aquecimento do planeta, e a península se tornou um ícone exatamente por causa dessa rapidez. Era um dos poucos locais onde os efeitos práticos do aquecimento podiam ser vistos claramente, gelo derretendo, pinguins morrendo, boa propaganda. O aquecimento global, que é um consenso na comunidade científica, é um fenômeno mais lento. É difícil de medir porque tem de ser detectado na presença de muitas outras variações grandes de temperatura, diárias, anuais e multianuais, como essa que acontece na Península Antártida.

Por outro lado, muitas verdades aceitas pela maioria dos cientistas, como a de que o Sol girava em torno da Terra, se mostraram equivocadas. E o processo que levou à descoberta desses erros sempre começa com o aparecimento de anomalias ou exceções que põem em dúvida a teoria vigente. E é o acúmulo dessas anomalias que acaba levando os cientistas a rever suas ideias.

O atual resfriamento da Península Antártida pode ser um fenômeno local, mas também pode vir a ser uma dessas anomalias que nos levarão no futuro a entender melhor o que chamamos hoje de aquecimento global. Só o tempo dirá.

MAIS INFORMAÇÕES: ABSENCE OF 21ST CENTURY WARMING ON ANTARCTIC PENINSULA CONSISTENTE WITH NATURAL VARIABILITY. NATURE VOL. 535 PAG. 411 2016

FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

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