Antonio Milena/AE
Antonio Milena/AE

A ameaça que vem da água

Marsilac convive com surtos de hepatite e outras doenças; água contaminada mata 7 crianças por dia no País

Bruno Versolato, especial para o Estado,

21 Março 2009 | 18h20

Quando tinha 16 anos, Alan Cirillo costumava brincar no Ribeirão Claro, afluente do Rio Capivari, próximo de sua casa, em Engenheiro Marsilac, sem saber do perigo que a água contaminada trazia. "Minha mãe não gostava, mas era ela sair para trabalhar que a gente se picava para lá", diz o rapaz de 21 anos, hoje estudante de Veterinária. Dias depois ele passou a ter náuseas e vômitos. Foi diagnosticado com hepatite tipo A.

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"Volta e meia a região tem um surto de hepatite. Em 2007 foram 73 casos", diz Maria Lúcia Cirillo, mãe de Alan e presidente da associação de moradores da área central do distrito de Marsilac. Ela afirma que, na mesma época em que Alan contraiu hepatite, um menino de 6 anos morreu de febre tifoide no bairro Evangelista de Souza.

A hepatite foi apenas uma das doenças transmitidas a Alan pela água. "Já tive malária, vários tipos de verminoses e diarreia não sei quantas vezes. Agora melhorou. Mas faz uns quatro anos que só tomo água mineral." Apesar disso, o rim de Alan acusou o golpe. Há cerca de um ano, o rapaz faz tratamento contra uma doença autoimune. "É como se o rim dele se ‘suicidasse’", diz a mãe. "Não sabemos o que é, mas os médicos têm quase certeza de que foi algo que eu ingeri", diz Alan.

Um folheto distribuído pela Sabesp na região alerta que, além da hepatite A, da diarreia e da febre tifoide, doenças como cólera, giárdia e salmonelose podem ser transmitidas pela água sem tratamento. A maioria delas é causada por micro-organismos eliminados pelo intestino. O corpo, como defesa, expulsa boa parte dos agentes causadores de doenças pelas fezes. Se o esgoto não é recolhido e tratado, volta ao ambiente e contamina outra pessoa, perpetuando o ciclo da doença.

As doenças causadas pela falta de saneamento básico são responsáveis por 65% das internações no Sistema Único de Saúde (SUS), afirma o infectologista Arthur Timerman, do Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. A diarreia provocada por saneamento inadequado mata sete crianças com idades de 1 a 5 anos por dia no Brasil, segundo dados da Fundação Nacional de Saúde (Funasa). Por ano, são mais de 2,5 mil.

"O elo fraco da falta de saneamento é a criança", diz Timerman. A ausência de saneamento interfere até na aprendizagem. "Problemas relacionados a doenças transmitidas pela água são responsáveis por 34% das faltas de crianças a creches e salas de aula."

"As crianças sofrem mais, mas o problema não escolhe idade, raça ou condição social", diz Timerman. Segundo ele, Ilhabela, refúgio de paulistanos abastados no litoral norte, tem só 3% do esgoto tratado. "Costumo brincar que o camarão e a lagosta, pratos associados a pessoas de alto nível social, são um grande democratizador da falta de saneamento do País. Quando pescados numa praia onde há despejo de esgoto in natura, o risco de eles serem o vetor de um vírus ou bactéria é grande."

Fossas

Em Marsilac, riscos como os descritos por Timerman tornam-se mais graves por causa das fossas negras e poços rasos e bicas de onde os moradores tiram água para beber. A fossa negra é um buraco, normalmente de 3 a 5 metros de profundidade, onde são despejados os dejetos da cozinha e do banheiro. Ela raramente tem algum revestimento, o que faz o material sólido e líquido penetrar diretamente no solo.

Uma saída para regiões distantes da rede coletora, como Marsilac, é recorrer a fossas sépticas com sumidouro. Nesse sistema, há uma decantação do material sólido e o líquido é vazado para outro recipiente com fundo vedado e furos laterais. Assim, o líquido é absorvido pelo solo de maneira horizontal, facilitando a filtragem natural.

Segundo a associação presidida por Maria Lucia, das cerca de 3 mil pessoas da área central do distrito, 97,55% usam a fossa negra. As 2,45% restantes não têm nem fossa, deixam seu esgoto correr a céu aberto.

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