Leo Correa/AP
Leo Correa/AP

'A Amazônia está completamente sem lei': a floresta tropical após o primeiro ano de Bolsonaro

Foi a maior perda na floresta tropical brasileira em uma década, uma forte evidência de como a Amazônia foi prejudicada no primeiro ano do Brasil sob o presidente Jair Bolsonaro

Matt Sandy/The New York Times, O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2019 | 21h24

RIO DE JANEIRO - Quando a fumaça se dissipou, a Amazônia pôde respirar novamente. Durante meses, nuvens negras pairaram sobre a floresta tropical, enquanto equipes de trabalho a queimavam e derrubavam com motosserras. Agora chegou a estação das chuvas, o que deu um descanso à selva e uma visão mais clara dos danos ao mundo.

A imagem que surgiu foi tudo menos tranquilizadora: a agência espacial do Brasil informou que, em um ano, foram destruídos quase 10 mil quilômetros quadrados da Amazônia – uma faixa de selva quase do tamanho do Líbano arrancada da maior floresta tropical do mundo.

Foi a maior perda na floresta tropical brasileira em uma década, uma forte evidência de como a Amazônia – uma importante proteção contra o aquecimento global – foi prejudicada no primeiro ano do Brasil sob o presidente Jair Bolsonaro.

Ele prometeu abrir a floresta tropical para a indústria e reduzir suas proteções, e seu governo cumpriu a promessa, cortando fundos e funcionários para enfraquecer a aplicação das leis ambientais. Na ausência de agentes federais, hordas de madeireiros, fazendeiros e mineiros invadiram a floresta, encorajados pelo presidente e ávidos para satisfazer a demanda global.

O desmatamento disparou, cresceu quase 30% em relação ao ano anterior.

“Isso confirma que a Amazônia está completamente sem lei”, disse Carlos Nobre, cientista climático da Universidade de São Paulo. “Os criminosos ambientais se sentem cada vez mais fortalecidos”.

Ele alertou que a Amazônia em breve poderá ultrapassar um ponto crítico e entrar em um processo irreversível de destruição. “A aplicação da lei chegou ao nível mais baixo da década”, disse ele. “É um aviso preocupante para o futuro”.

O governo de Bolsonaro fez alguns acenos para combater o desmatamento ilegal, mas o presidente reafirmou sua antiga posição de desdém pelo trabalho de conservação. Ele já disse que a política ambiental do Brasil estava “sufocando o país”; prometeu que “nem um centímetro quadrado” de terra seria destinado aos povos indígenas; e, no mês passado, menosprezou os dados oficiais sobre o desmatamento.

Os reflexos de suas posições são visíveis na fronteira da Amazônia, onde a floresta tropical é transformada em terra para gado, soja e outras culturas, em um processo sombrio, às vezes ilegal e, muitas vezes, violento.

“O desmatamento e os incêndios sempre foram um problema, mas esta é a primeira vez que acontecem por causa do discurso e das ações do governo federal”, disse Marina Silva, que, como ministra do Meio Ambiente em meados dos anos 2000, reprimiu atividades ilegais na região amazônica, contribuindo para uma queda de 83% no desmatamento de 2004 a 2012.

Por volta de 2014, o Brasil começou a entrar em profunda recessão, e o desmatamento começou a aumentar conforme fazendeiros e madeireiros procuraram novas terras para explorar. A Amazônia, repleta de seringueiras, minerais e terras férteis, era o destino mais óbvio.

O agronegócio, sempre uma força no Brasil, ganhou ainda mais poder político e econômico: agora representa quase um quarto do PIB do país, e a região amazônica foi tomada por plantações de soja, minas de ouro e minério de ferro e fazendas com mais de 50 milhões de bovinos.

Essas indústrias encontraram um aliado em Bolsonaro, que foi parlamentar de extrema direita até ser eleito para a presidência no ano passado. Seu governo, disse Silva, “não está fazendo nada para preservar a governança ambiental”.

O desmatamento começou a aumentar antes de Bolsonaro assumir o cargo em janeiro. No auge da estação seca, em julho e agosto, alguns especialistas temeram que madeireiros e fazendeiros criminosos, que usam fogo para transformar as terras em plantações e pastagens, estivessem limpando a Amazônia impunemente.

Seus incêndios chamaram atenção internacional, especialmente quando se espalharam pela internet imagens de chamas na selva, árvores carbonizadas e o céu escurecido pela fumaça sobre a maior cidade do Brasil, São Paulo, 3 mil quilômetros a sudeste da floresta tropical. Foram detectados mais de 80 mil focos de incêndio desde o início do ano, de acordo com dados do governo.

Os incêndios se transformaram em uma grande crise diplomática para Bolsonaro, colocando-o contra uma reação global de políticos, celebridades e opinião pública. A França ameaçou bloquear um grande acordo comercial, Noruega e Alemanha interromperam doações para proteger a floresta.

Depois de insistir em uma postura de confrontação, Bolsonaro mobilizou militares para combater as chamas e emitiu um decreto proibindo incêndios na Amazônia por 60 dias.

O furor chegou a tal ponto que as empresas brasileiras ficaram preocupadas com o possível impacto comercial. “Nossa imagem ficou prejudicada? Sim. Podemos recuperá-la? Sim. O governo precisa alinhar seu discurso com aquilo que o mundo quer”, disse Blairo Maggi, produtor de soja bilionário e ex-ministro da Agricultura, conhecido como o Rei da Soja.

“Os fazendeiros, as empresas e a indústria terão que refazer o que foi perdido”, disse ele. “Voltamos dez casas no tabuleiro. Teremos que trabalhar para voltar ao ponto onde estávamos”.

As pessoas que trabalham na terra expressaram sentimentos conflitantes sobre o desmatamento. Para alguns, os incêndios são uma ameaça dupla, por causa da fumaça perigosa e da destruição de uma floresta que sempre proporcionou seu meio de subsistência. Para outros, os incêndios criam empregos necessários, ainda mais valiosos em tempos de economia estagnada.

A pressão sobre a Amazônia também foi impulsionada pela demanda do exterior. Todos os anos, o Brasil exporta quase 15 milhões de toneladas de soja, grande parte para a China, e mais de US$ 6 bilhões em carne bovina – mais do que qualquer outro país na história. As fazendas de gado respondem por até 80% das terras desmatadas na Amazônia, de acordo com a Escola de Estudos Florestais e Ambientais de Yale.

Algumas das principais empresas de carne bovina e soja já foram multadas em milhões por comprar commodities provenientes de terras desmatadas ilegalmente, mas essas leis são difíceis de aplicar. / Tradução de Renato Prelorentzou

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