'A Alemanha não deveria financiar a tecnologia nuclear em parte alguma', diz ativista

Representante de ONG alemã destaca que o Brasil não possui plano exato para o lixo radioativo

Karina Ninni, estadao.com.br

28 de abril de 2011 | 15h41

Aliada ao Greenpeace, a ONG alemã Urgewald e mais dez organizações da sociedade civil organizam um abaixo-assinado pedindo o cancelamento do crédito de exportação conferido pelo governo à empresa Areva, responsável por fornecer à Eletronuclear os equipamentos necessários à construção de Angra 3. Uma carta já foi entregue à chanceler alemã Angela Merkel, e a três ministros. Por e-mail, o estadao.com entrevistou Barbara Happe, da Urgewald, sobre a questão. Leia abaixo:

 

1 – Quantas organizações assinaram a carta enviada a Chanceler Angela Merkel  e seus Ministros e qual a representatividade delas junto à sociedade alemã?

 

Não tínhamos muito tempo para juntar assinaturas, porque queríamos mandar a carta antes do debates no parlamento. Juntamos assinaturas de 10 ONGs. Os partidos social-democrata, verde e socialista também estão tentando cancelar este crédito de exportacão. Houve um pedido deles no parlamento.

 

2 – O que vocês alegam?

 

O nosso argumento central é: já que Fukushima serve como exemplo de que está na hora de reavaliar a segurança de usinas nucleares aqui na Alemanha, o governo alemão também deveria reavaliar os planos de exportar equipamentos para usinas nucleares em outros cantos do mundo. Além da carta, começamos a juntar assinaturas online de pessoas pedindo também o cancelamento do crédito de exportação. Até agora 120 mil pessoas mandaram este email para os ministérios responsáveis. (http://bit.ly/akw-angra3)

 

3 – Os créditos de exportação para Angra 3 fazem parte de um acordo que envolve a cifra de 1,3 bilhão de euros (cerca de R$ 3 bilhões). O que vocês pedem exatamente ao governo alemão?

 

A empresa Areva pediu um crédito de exportação do governo alemão para fornecer os equipamentos para Angra 3. Pedimos o cancelamento desse crédito. O valor deste equipamento é mais ou menos 1,3 bilhão de euros. Isso funciona assim: caso a Eletronuclear não possa pagar a conta, existe uma contra-garantia do governo brasileiro de que vai pagar. Caso o governo brasileiro não possa pagar, o governo alemão fica incumbido de pagar a conta, pois concedeu o crédito de exportação. Quer dizer: o risco deste financiamento não fica mais nas mãos da empresa, mas nas mãos da sociedade. Estes créditos de exportação então servem como garantia para as empresas que querem exportar equipamentos para "negócios de alto risco". E usinas nucleares são tais negócios desse tipo, já que ficam muitas vezes bem mais caras que no início do planejamento.

 

4 – O governo Merkel prometeu discutir as condições da construção de Angra 3 com o governo brasileiro. Isso já aconteceu?

 

Não, disseram que vão discutir, mas nos não sabemos se isso já aconteceu.

 

5 - Você provavelmente conhece Angra e as usinas. Em sua opinião, por ordem de importância, quais os principais problemas da construção das usinas em Angra?

 

No ano passado já houve muitas discussões sobre Angra 3 aqui na Alemanha. Até há um estudo encomendado pela empresa Areva que deveria analisar a qualidade da usina. O estudo não é de alta qualidade, mas mesmo assim dizia que "deve-se repensar os planos de emergência”. O estudo também diz que a usina não está  protegida eficientemente contra queda de aviões ou outros impactos externos segundo os critérios alemães. E há um problema anterior a tudo isso: o Brasil quer construir agora uma usina que foi planejada nos anos 80. Também existe a questão do lixo: o governo brasileiro não tem planos exatos para disposição do lixo radioativo. Além e tudo isso, vocês também têm uma fiscalização que não é feita de forma independente: o mesmo órgão que incentiva o uso da energia nuclear é responsável por fiscalizar os padrões de segurança (a CNEN - Comissão Nacional de Energia Nuclear). Consideramos que, já que a Alemanha esta repensando a energia nuclear no próprio país, deveria fazer isso no que se refere a negócios nucleares com outros países, como o Brasil.

 

6 - Temos visto notícias dando conta de que a chanceler Angela Merkel decidiu voltar atrás em sua decisão de estender a vida útil das usinas alemãs após protestos populares contra o uso da energia nuclear. Quantas usinas nucleares operam ainda na Alemanha e até quando elas continuarão a operar?

 

A Alemanha está fazendo uma revisão da segurança das nossas usinas nucleares. As sete usinas mais velhas foram desligadas e provavelmente não vão ser ligadas de novo depois da revisão, que vai durar mais ou menos três meses (isso ainda não esta definido). Temos, atualmente, mais 10 usinas nucleares em funcionamento.

 

7 – Em sua opinião, atualmente interessa para a Alemanha garantir a instalação de plantas nucleares em outros países ou isso mudou depois de Fukushima?

 

No caso brasileiro, por meio do crédito de exportação, o governo alemão quer apoiar a Areva para que esta exporte a sua tecnologia e assim ajude a assegurar empregos na área nuclear aqui na Alemanha. Nós vivemos de exportações. Agora, existem países desenvolvidos que até há pouco planejavam instalar mais usinas nucleares, como EUA ou a França. Talvez mudem de postura, mas antes de Fukushima estavam defendendo a energia nuclear, como o próprio Japão estava.

 

8 – Aqui no Brasil as ONGs que se dedicam a contestar as opções energéticas do País (e outras) são tachadas de intervencionistas e de ter interesses contrários ao desenvolvimento do País. Um bom exemplo são aquelas que vêm batendo no pré-sal. Vocês não temem ser rotulados da mesma maneira em países ávidos pela "modernidade" representada pelas usinas nucleares?

 

Não, definitivamente não! Depois de Fukushima todo o mundo deveria repensar os riscos da energia nuclear. Até alguns políticos nossos disseram que o "risco residual" deveria ser reavaliado, porque ficou óbvio que não é possível controlar esses riscos. Achamos que o governo alemão não deveria subsidiar esta tecnologia - nem aqui nem em outras partes do mundo.

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