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60% das espécies de grandes herbívoros estão ameaçadas

Lista inclui rinocerontes, antas, entre outros; declínio dos animais poderá diminuir populações de carnívoros e multiplicar roedores

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

05 Maio 2015 | 16h38


Populações de grandes herbívoros da América do Sul, da África e da Ásia estão entrando em colapso e 60% delas estão ameaçadas de extinção, de acordo com um novo estudo internacional realizado com participação brasileira. A lista inclui animais como rinocerontes, zebras, camelos, gorilas, elefantes e antas.

O estudo, publicado no sábado, 1, na revista Science Advances, baseou-se em uma análise abrangente sobre o estado de ameaça de extinção de 74 espécies de grandes herbívoros - aquelas com mais de 100 quilos - em todo o mundo. Pelo menos 44 delas estão em extinção. O trabalho também avaliou as consequências ecológicas do declínio das populações.


De acordo com os cientistas, o crescimento de populações humanas, a caça insustentável e a perda de habitat foram fatores que contribuíram para a devastação de populações de diversos grandes herbívoros, que estão ameaçadas de extinção em cerrados, savanas, desertos e florestas. Até agora, os cientistas usavam o conceito de "floresta vazia" para descrever o resultado das extinções. O novo estudo apresenta uma situação tão grave que os cientistas agora consideram o conceito superado e já falam de "paisagem vazia", pois o colapso ecológico dos herbívoros já se generaliza em todo tipo de bioma.

Um dos autores do estudo, Mauro Galetti, professor de Ecologia da Unesp, em Rio Claro (SP), alerta que muitos desses animais têm papel fundamental em serviços ambientais que são úteis para o homem.  A anta, por exemplo, é a principal presa da onça pintada - que por sua vez controla animais que podem ser daninhos ao homem -, compete com roedores e dispersa sementes que recompõem a floresta. 

Mas, de acordo com Galetti, o estudo aponta que as quatro espécies de antas existentes na América do Sul estão cada vez mais ameaçadas. "No ano passado foi descoberta uma nova espécie de anta e ela já se encontra ameaçada por causa do garimpo, caça e as construções de hidrelétricas", afirmou.

Segundo os autores do estudo, a extinção de grandes herbívoros tem reflexos em outras partes de ecossistemas selvagens. Além da redução da comida disponível para grandes carnívoros e da dispersão de sementes, há outras consequências: sem os herbívoros, a biomassa produzida pelas plantas se acumula, gerando incêndios mais frequentes e intensos. O ciclo dos nutrientes no solo também fica mais lento, já que há menos animais para digerir a vegetação.  

"O Brasil possui muitas áreas protegidas que poderiam assegurar a conservação de grandes animais, mas nenhuma delas possui proteção real e a caça e a destruição do habitat continuam" declarou Galetti. 

Os cientistas afirmam que ainda existe tempo para que esse quadro de extinções seja revertido - mas é preciso políticas ousadas. "Sem intervenção radical, grandes herbívoros continuarão a desaparecer no mundo com enormes custos ecológicos, sociais e econômicos", disse outro dos autores do estudo, William Ripple, da Universidade do Oregon (Estados Unidos). 

"Nós esperávamos que a destruição do habitat seria o principal fator que causa o comprometimento de grandes herbívoros, mas surpreendentemente, os resultados mostram que os dois principais fatores na redução são a caça por seres humanos e mudança de habitat. Elas são ameaças gêmeas", declarou Ripple.

"As sociedades organizadas devem pressionar os governos a inibirem a caça e retirada de produtos animais dos ambientes naturais ou fomentarem seu uso sustentável", disse Galetti.

Segundo o estudo, os países em desenvolvimento concentram o maior número de grandes herbívoros ameaçados: 71 das 74 espécies estudadas. Nos países desenvolvidos, eles já haviam sido dizimados em outras ondas de extinção. De acordo com os autores, 25 das maiores espécies selvagens de herbívoros têm uma média de ocorrência que corresponde a apenas 19% da média histórica. A competição pela produção pecuária, que triplicou no mundo desde 1980, reduziu o acesso dos herbívoros à terra e comida, elevando os riscos de transmissão de doenças, segundo o artigo.

Atualmente, segundo os cientistas, a caça de herbívoro é motivada pelo consumo de carne. De acordo com eles, estima-se que um bilhão de pessoas subsistam com carne de caça.

Para compreender melhor as consequências do declínio de herbívoros, os autores recomendam um esforço coordenado de pesquisa sobre espécies ameaçadas nos países em desenvolvimento. Eles afirmam também que é preciso envolver comunidades locais na gestão de áreas protegidas. 

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