TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

50% do desmate no País está em pequenas áreas

Estudo da PUC-Rio mostra que, após reduzir desmatamento em grande escala, Brasil registra avanço da devastação feita de forma pulverizada

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

17 Agosto 2015 | 03h00

Depois de reduzir o desmatamento na Amazônia em cerca de 80% entre 2004 e 2012, o País tem um novo desafio: conter a devastação que ocorre em pequena escala. Um estudo inédito mostra que, em 2004, o desmate realizado em clareiras de até 25 hectares correspondia a aproximadamente 25% da área total devastada no bioma. Em 2012, o desmatamento em pequena escala já era responsável por mais da metade da destruição no Brasil.

O estudo, realizado por pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio), em parceria com o think tank internacional Climate Policy Initiative, foi o primeiro a cruzar dados oficiais de monitoramento de desmatamento por satélite com informações do Cadastro Ambiental Rural (CAR) – o registro eletrônico do governo federal, obrigatório para todos os imóveis rurais.

De acordo com Juliano Assunção, professor da PUC-Rio, um dos autores do estudo e diretor do núcleo de avaliação de políticas climáticas da universidade, os resultados mostram que houve uma mudança na natureza do fenômeno do desmatamento da Amazônia. “O monitoramento do desmatamento feito pelo sistema Deter, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), ajudou a reduzir drasticamente a devastação a partir de 2004. Mas, quando olhamos em detalhe, vemos que o que caiu foi o desmatamento de larga escala, em áreas acima de 25 hectares. O desmatamento em áreas menores permanece em alta, com flutuações.”

Segundo Assunção, os dados indicam também que há realidades distintas por trás desse desmatamento “pulverizado”. A situação nos dois estados com desmate mais intenso – Pará e Mato Grosso – é completamente diferente. “Isso tem implicações importantes para as políticas públicas de conservação. As políticas atuais foram um sucesso, mas são muito centralizadas. Para combater esses remanescentes de desmatamento em pequena escala será preciso ter políticas mais regionalizadas”, afirmou.

Mudança. No Mato Grosso, de acordo com o pesquisador, mesmo nas propriedades consideradas pequenas – abaixo de 400 hectares –, o desmate era feito em áreas superiores a 25 hectares. O estudo indica que houve uma mudança de comportamento no período estudado e a devastação passou a acontecer em áreas menores, inferiores a 25 hectares.

No Pará, por outro lado, o desmate já era em áreas inferiores a 25 hectares – e a tendência continuou. “O sistema de monitoramento foi montado de forma muito eficaz para lidar com o desmate em larga escala, acima de 25 hectares. Com isso, o sistema afetou o desmatamento de forma distinta nos Estados”.

Além da questão regional, a destruição também foi específica para o porte de cada produtor. Enquanto no Mato Grosso tanto o pequeno como o grande produtor reduziram a escala do desmatamento, no Pará, o grande produtor desmatava em áreas maiores – e parou de devastar –, ao passo que o pequeno produtor devastava pequenas áreas e continuou a fazê- lo. 

Segundo ele, o estudo, que mostra que o CAR tem uma importância fundamental para o combate ao desmatamento em pequena escala, foi estendido para o próximo ano. 

“Damos nesse trabalho um exemplo de como esse tipo de informação sobre o produtor rural nos permite entender um pouco melhor essas dinâmicas que constituem o alvo de nossas políticas públicas. Sem essa informação, nunca conseguiríamos entender o que está por trás desse desmatamento remanescente.”

No dia 14, o governo federal divulgou que a taxa de desmatamento legal caiu 15% entre agosto de 2013 e julho de 2014.

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