28% do esgoto industrial é jogado ilegalmente em rios de SP

Estudo feito pela FGV estimou que quase 10 milhões de litros de efluentes são despejados por hora na região metropolitana

Giovana Girardi, O Estado de S. Paulo

27 Fevereiro 2014 | 20h16

Despejo irregular de indústria em córrego que deságua no Rio Tietê. Crédito: Sergio Castro (31.08.2006)

SÃO PAULO - Quase 10 milhões de litros de esgoto industrial são despejado por hora, irregularmente, em rios e córregos da Região Metropolitana de São Paulo. A estimativa, inédita, foi divulgada nesta quinta-feira, 27, por pesquisadores do Grupo de Economia da Infraestrutura e Soluções Ambientais, da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Segundo eles, “é o mesmo que lançar dois lagos do Ibirapuera cheios de resíduos tóxicos na natureza”. O volume, de acordo com o cálculo, equivale a 28% do total de efluentes produzidos pelas 58.373 indústrias espalhadas em 39 municípios da RMSP.

“O problema é grave, ainda mais quando consideramos que vivemos em uma região com escassez hídrica. Esse despejo traz prejuízo aos mananciais, tornando ainda mais caro o tratamento da água ou obrigando a buscar água cada vez mais longe”, explica Gesner Oliveira, coordenador do trabalho.

Na comparação com os efluentes domésticos, que tem tratamento de 69% da quantidade gerada, de acordo com a Sabesp, o volume industrial é menor, mas considerando seu potencial poluidor, o impacto ao ambiente e à saúde é maior, de acordo com os autores.

“Pelas características do esgoto industrial, calculamos que ele, em média, é 7 vezes mais poluidor que o doméstico”, explicou Fernando Marcato, professor de Direito da FGV, durante seminário de apresentação do estudo nesta terça. Por essa relação, eles comparam que o total despejado ilegalmente pelas indústrias seria o equivalente a todo o esgoto doméstico produzido por uma cidade de 11,9 milhões de habitantes – mais do que a capital paulista.

“Ainda que a gente consiga universalizar o tratamento de esgoto na cidade, ainda teríamos uma outra São Paulo inteira para tratar que sai das indústrias”, alerta Marcato.

Metodologia. Para fazer a estimativa, os pesquisadores contaram com dados públicos das empresas e dos órgãos de água e saneamento, como Sabesp, Daee e Cetesb, e com entrevistas com especialistas do setor. A conta foi feita em três partes: quanto é o consumo industrial de água, quanto é descartado e depois quanto desse descarte é impróprio.

O consumo foi estabelecido em 11,08 metros cúbicos / segundo (1 m³ = mil litros), o descarte, em 9,42 m³/s. Para chegar no valor impróprio, eles consideraram que parte dos efluentes (0,60 m³/s) é coletada pela rede de esgoto. Um pouco mais da metade é tratada e 0,28 m³/s são lançadas sem tratamento na água.

A maior parte dos efluentes (8,82 m³/s), portanto, não cai na rede. Aí passa ou por tratamento na própria indústria (6,20 m³/s) ou é transportada para Estação de Tratamento de Esgoto. De acordo com os pesquisadores, é aí que está a maior parte do problema. Somente 0,18 m³/s parecem estar sendo tratados lá. Os 2,44 m³/s restantes vão para os rios. Somando as duas pontas, dá 2,7 m³/s, que viram quase 10 milhões de litros por hora.

Repercussão. José Eduardo Lutti, primeiro promotor de Justiça do Meio Ambiente do Ministério Público de São Paulo, presente ao seminário, disse ficar surpreso com a quantidade despejada ilegalmente na natureza. “Isso mostra uma total falta de planejamento do poder executivo. Dados que a Cetesb passavam informalmente para nós eram de que o problema estava sendo equacionado”, diz.

Ele pondera, no entanto, que como a metodologia usada pela FGV é nova, seriam necessários mais cálculos, inclusive da própria Cetesb, para saber qual é o real tamanho do problema.

Malu Ribeiro, coordenadora da Rede das Águas da SOS Mata Atlântica, afirma que a estimativa corrobora informações que ela tem de campo. “Pelas medidas regulares que fazemos da qualidade da água em 194 rios e córregos de São Paulo, temos notado um aumento dos efluentes, provavelmente porque tem ocorrido um aumento do consumo”, diz.

“Como a cidade está tirando cada vez mais esgoto doméstico, a carga industrial fica mais perceptível. Quando tava tudo contaminado, se vinha uma carga ilegal, ela passava despercebida. Agora está mais fácil de ver”, complementa.

O presidente da Cetesb, Octávio Okano, foi convidado para participar do seminário, mas não compareceu. Procurada depois pela reportagem, a companhia informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que vai apurar as denúncias. E que “casos irregulares que forem devidamente constatados pelos agentes da Cetesb serão objeto das autuações previstas na legislação ambiental”.

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