Uso racional da água no campo depende de capacitação e investimento

Responsável por utilizar 72% da água consumida no Brasil, a agricultura irrigada é apontada muitas vezes como a vilã da sustentabilidade. Mas esse ponto de vista é combatido por pesquisadores como Lineu Rodrigues, especialista em Irrigação e Recursos Hídricos da Embrapa e coordenador da Rede AgroHidro, grupo de pesquisadores que estuda o uso racional da água na agricultura.Rodrigues considera imprescindível que as pessoas compreendam que este é o insumo mais importante da atividade agropecuária. “Sem ela não há produção de alimentos. Em alguns casos, a irrigação permite produzir até quatro vezes mais, com mais segurança”, afirma. Mas o que ele defende, sim, é que os agricultores tenham treinamento para tornar a irrigação mais eficiente, com menos gasto.Doutor em Gestão Ambiental e representante do Ministério Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA),  Demetrios Christofidis concorda que capacitar os produtores é necessário. “Muitos não sabem o quanto de água devem colocar a cada momento do cultivo. Usar a mesma quantidade o tempo todo não adianta.” As principais culturas irrigadas no Brasil são o arroz, a soja, o milho, o feijão e o trigo.O especialista em recursos hídricos da Agência Nacional de Águas (ANA) Thiago Fontenelle diz que a agência promove cursos de capacitação nos principais polos de irrigação do país, mas acredita que deveria haver mais investimento em assistência técnica. “A assistência, tanto para o produtor quanto para a manutenção dos equipamentos, deve melhorar.”Novas áreasO Brasil tem 6 milhões de hectares irrigados, atrás de países como China, Índia, Estados Unidos e Irã. Segundo cálculos do ministério, o total deve chegar a 15 milhões de hectares até 2030.Para Christofidis, no entanto, é necessário melhorar a eficiência das áreas que já produzem, com biotecnologia, equipamentos e cursos de capacitação no campo. E, só depois, pensar em ampliar as áreas irrigadas. “Se dobrássemos a área irrigada, não teríamos que avançar em fronteiras agrícolas. É possível ampliar a produção sem afetar áreas de proteção nem reduzir a biodiversidade.”Secretário executivo da ONG Observatório do Clima, Carlos Rittl, afirma que a agricultura deve preservar as florestas, já que depende delas para a prestação de diversos serviços ambientais. Com uma boa cobertura vegetal do solo, a água da chuva infiltra e recarrega os aquíferos. “A floresta é importante não só para a água, mas também para a polinização, para a manutenção da qualidade do solo e para evitar erosão”, afirma Rittl, que tem doutorado em biologia tropical e recursos naturais.* Paulo Eduardo Palma Beraldo é aluno da Unesp e finalista do 3º Prêmio Tetra Pak de Jornalismo Ambiental

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