Vaqueiros e sua Vaquejada: A falsa macheza do peão brasileiro

É patético o homem, ou mulher, que precisa subjugar um animal indefeso para se sentir vencedor.

Marcia Triunfol

04 Novembro 2016 | 08h42

O que dizer de um povo que acolhe como um de seus patrimônios culturais o ato de perseguir de cima de um cavalo um boi encurralado, para então puxá-lo pelo rabo até ele se esfolar na terra para depois arrancar-lhe o rabo?

Pode chamar do nome que quiser, até de vaquejada, mas o simbolismo do ato é muito claro. É o grande circo da covardia que exibe de forma cruel a (falsa) macheza do peão diante do boi indefeso.

O que o ato quer mostrar a todos que ali estão é que o peão é mais forte que aquele animal (não é), mais valente (com certeza não), mais “macho” (não pode ser), e mais inteligente (sem comentários...).

O público de homens, mulheres e crianças vibra ao ver que o peão venceu mais uma vez uma mal simulada luta pela sobrevivência, e portanto o peão continuará soberano como o rei do pedaço. É patético o homem, ou mulher, que precisa subjugar um animal indefeso para se sentir vencedor.

Mas aí vem a turma do argumento da “tradição centenária”. E tem também o argumento de que o resto do país faz bullying com o nordeste, por isso querem proibir a vaquejada.

Sim, a vaquejada existe há muitos anos, desde quando não sabíamos o que sabemos hoje, desde quando éramos toscos, quando não percebíamos que nós e os animais dividimos um legado precioso chamado vida, desde quando achávamos que seria muito importante nos afirmar diante dos animais, desde quando acreditávamos que seríamos amados e respeitados por nossas demonstrações de força e poder.

Se aceitássemos o argumento da “tradição centenária” como justificativa da manutenção de práticas culturais, estaríamos, literalmente, nos comendo até hoje. Uma sociedade que deseja evoluir precisa revisitar suas práticas culturais. E isso vale para todos, Nordeste incluído!

Apoiar a vaquejada é perpetuar a mentalidade de que o sucesso e o respeito do peão só podem ser conquistados através de demonstrações de força e brutalidade. É aceitar que com o indefeso (porque foi colocado ali nesta condição) é isso que se deve fazer: subjuga-lo. Na vaquejada o indefeso é o boi, em muitas casas do país é a mulher.

A luta pelo fim da vaquejada não é apenas a luta dos protetores pelo bem estar do animal, é a luta pelo fim da mentalidade de que é aceitável subjugar um ser indefeso. Seja ele quem for. Seja ele um boi, um homem, uma mulher, uma criança, um idoso….

#Vaquejada aqui não