Mini-cérebro humano ou camundongo?

A maioria das pesquisas com animais geram resultados que não são confiáveis ou mesmo reproduzíveis por outros grupos de pesquisa.

Marcia Triunfol

01 Novembro 2016 | 14h14

Tempos difíceis esses…. Da ciência brasileira podemos falar: nunca esteve tão pobre.

E mesmo assim, Helena Nader, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência perguntou recentemente a sociedade: “Quem foi que deu a resposta para o vírus Zika? Foi a ciência brasileira”.

De fato, tanto para o Brasil como para o resto do mundo, uma questão inicial importante foi determinar se a infecção por Zika seria a causa do alto número de bebês com microcefalia no país. A ciência brasileira, e mais especificamente o grupo de Stevens Rehen, do Instituto D’Or de Pesquisa e Educação e também do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, mostraram de forma elegante que é de fato o vírus Zika o responsável pelo aumento de microcefalias no Brasil.

O estudo foi publicado na renomada revista americana Science e nele os pesquisadores utilizaram mini-cérebros para mostrar que a infecção com Zika reduz o crescimento celular e gera cérebros de tamanho menor do que o normal. O mini-cérebro faz parte de uma abordagem moderna de se fazer ciência e nada mais é do que mais um dos órgãos humanos, em miniatura, criado no laboratório a partir de células humanas. Oi?

O mini-cérebro, um dentre os tantos mini-orgãos já desenvolvidos, é uma pequena cópia de um cérebro humano. Assim como muitas descobertas da ciência, o mini-cérebro também foi descoberto por acaso. O primeiro mini-cérebro humano foi desenvolvido em novembro de 2011 por Madeleine Lancaster, enquanto trabalhava no Instituto de Biotecnologia Molecular em Viena, na Itália. Madeleine estava trabalhando com células modificadas da pele que tinham habilidade para virarem qualquer outro tipo celular, de qualquer órgão, se fossem dadas as condições ideias de nutrientes, temperatura, espaço, oxigênio, fatores de crescimento, entre outras coisas. Madeleine não esperava que suas células se transformassem em um mini-cérebro humano, mas foi isso que aconteceu.

Existem grandes diferenças entre as fisiologias dos seres humanos e dos animais e por isso o criticismo quanto a usar modelos animais em ciência só tem aumentado. As diferenças existentes dificultam que os resultados obtidos com modelos animais possam ser interpretados à luz de doenças humanas como Alzheimer, para mencionar apenas um exemplo.

No caso das infecções virais, por exemplo, o uso de animais que não se contaminam naturalmente com o vírus pode exigir que o pesquisador tenha que forçar uma barra para que o modelo animal seja infectado, o que então resulta num processo muito diferente daquele que ocorre em humanos sob condições naturais. Como colocado por Patricia Garcez, integrante do grupo de Stevens Rahen, “ eu tenho visto estudos feitos com modelos animais que utilizam concentrações de vírus absurdamente altas e que não são encontradas na natureza.” De fato, em outro estudo brasileiro sobre Zika publicado na renomada revista Nature, a quantidade de vírus utilizada para infectar camundongos com Zika foi absurdamente alta e incompatível com o que ocorre na natureza.

Os resultados do estudo do grupo de Stevens foram tão significativos que logo após sua publicação na revista Science a Organização Mundial de Saúde lançou uma nota onde se dizia convencida de que a relação de causalidade entre o vírus Zika e a ocorrência de microcefalia no país havia sido demonstrada.

A forma como cada animal responde a diferentes compostos ou estímulos varia muito. Por isso, a maioria das pesquisas com animais geram resultados que não são confiáveis ou mesmo reproduzíveis por outros grupos de pesquisa. Com isso, milhões são desperdiçados, muito tempo, energia e vidas são perdidos e continuamos sem solução para muitas das mazelas que sofremos. Diferente do modelo animal, o mini-cérebro humano replica de forma fidedigna o que ocorre no cérebro humano e representa um enorme avanço para a ciência, possibilitando o uso de mini-cérebros para estudar o desenvolvimento do cérebro e as doenças humanas.

Ouvimos constantemente que o uso de animais é essencial para o desenvolvimento da pesquisa biomédica. O estudo desenvolvido pelo grupo de Stevens deixa claro que hoje há alternativas mais interessantes que o uso de animais. Mesmo diante de tantas dificuldades, o grupo de pesquisa se utilizou de talento e inteligência e aplicou uma abordagem moderna de fazer ciência para proporcionar respostas que o mundo todo buscava.

A tecnologia dos mini-orgãos é uma das grandes soluções para a pesquisa biomédica que será desenvolvida nos laboratórios de todo o mundo. E a ciência brasileira pode ter um papel importante na América Latina no que diz respeito ao desenvolvimento e aplicação desta tecnologia para responder perguntas científicas relevantes e solucionar importantes problemas de saúde humana de forma inovadora e eficaz. É  certamente nesta ciência que não utiliza animais que devemos depositar toda nossa energia, tempo, recursos e talento.