Investindo em nossa segurança hídrica

Investindo em nossa segurança hídrica

Como a preservação de mananciais pode garantir água por mais tempo

Guilherme Checco - Pesquisador do IDS

09 de março de 2021 | 16h32

 

O estado de atenção permanente com os extremos climáticos já faz parte da realidade, seja por conta das enchentes que perturbam a vida dos grandes centros urbanos, seja pela seca que impacta múltiplas atividades, desde a agricultura até a capacidade de garantir a oferta de água para as residências. Chamar a atenção para este fato não se trata de postura catastrófica, mas sim de atitude preventiva para a construção de uma nova cultura de cuidado com a água capaz de se adaptar a este cenário de escassez hídrica, com o devido planejamento para evitar situações extremas de criticidade e potencial colapso dos sistemas de abastecimento.

Mais uma vez o noticiário nacional publica manchetes que ilustram a situação das secas, fruto de chuvas aquém da média histórica registrada. Curitiba (PR) e seus 1,9 milhão de habitantes estão enfrentando o verão com um rodízio no abastecimento adotado pela Sanepar, empresa estadual responsável pelo abastecimento. Em São Paulo, o sistema de mananciais responsáveis pelo abastecimento da Região Metropolitana está com cerca de 50% de sua capacidade de armazenamento, segundo informa a Sabesp, prestador estadual dos serviços de saneamento básico. Somente o sistema Cantareira, o maior e responsável pelo abastecimento de mais de 7,5 milhões de pessoas, está com 42% de sua capacidade. Em alguns momentos de dezembro de 2020 o Cantareira ficou em nível de alerta, reduzindo automaticamente o volume de água retirado.

Automaticamente esse tipo de situação aciona na memória da sociedade os momentos que antecederam a crise hídrica que São Paulo enfrentou nos anos de 2015 e 2016. O ditado popular que ganhou notoriedade nacional nos lembra: “A primeira coisa que a chuva leva é a memória da seca”. E, como atualmente a chuva é pouca, é natural que as difíceis lembranças das recentes crises hídricas emerjam.

De toda sorte, tivemos alguns aprendizados, entre eles a urgência de investirmos em uma estratégia de segurança hídrica, que considere os múltiplos aspectos da gestão sustentável da água, que vão desde o uso racional e eficiente, a prioridade em não poluir nossas águas e o devido equilíbrio entre demanda e oferta em termos de quantidade e qualidade.

O enfrentamento do desafio na prática e o conhecimento científico mais refinado nos permitem ser otimistas de que é possível construir um novo paradigma de cultura de cuidado com a água, lastreado no norte que o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável No. 6 nos coloca de garantir a disponibilidade e o manejo sustentável da água e saneamento para todos. Para tanto, um elemento fundamental é colocar no centro as áreas de mananciais, responsáveis pela produção das águas utilizadas para o abastecimento.

Já há disponível conhecimento técnico que nos permite identificar, por exemplo, quais áreas nos mananciais devem ser priorizadas para investimentos em aumento da cobertura florestal, colaborando assim para uma maior segurança hídrica, evitando o carreamento de sedimentos e futuro assoreamento das águas, bem como colaborando para a regularidade da vazão hídrica. Referências inspiradoras nacionais e internacionais demonstram também que é possível viabilizar um processo positivo de desenvolvimento local, gerando renda e viabilizando apoio técnico para atividades como a agricultura sustentável e o turismo ecológico nestas áreas.

Investir na proteção e no desenvolvimento sustentável das áreas de mananciais também já se demonstrou uma decisão racional do ponto de vista econômico. Em Nova York, a empresa de saneamento liderou um processo de investimentos em infraestrutura verde e nas soluções baseadas na natureza que resultou em, no lugar de gastar U$S 6 bilhões em uma nova planta de tratamento capaz de operar uma água mais poluída, investir em U$$ 500 milhões em um programa de serviços ecossistêmicos em seu manancial distante em mais de 200 km da cidade, garantindo assim a qualidade da água e a regularidade na sua vazão.

Os conhecimentos científicos e as experiências práticas nos apontam que há soluções disponíveis para avançar na direção da segurança hídrica, e que o setor de saneamento e a sociedade no geral podem ser parceiros na construção dessa trajetória. Especialmente porque no Brasil, este setor é responsável por cerca de 23% do uso da água. Viabilizar recursos para essa finalidade significa um investimento em nosso futuro, e não um simples custo operacional, que garantirá que nossa sociedade seja capaz de diminuir os riscos de futuras crises hídricas.

Nunca é pouco lembrar: a água é um recurso finito, e não nasce nas nossas torneiras.

 

*Guilherme Checco é Coordenador de Pesquisas do Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), think tank socioambiental, e Mestre em Ciência Ambiental (USP).

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