Clima, Fome e Eleições: quem depende de quem?

Clima, Fome e Eleições: quem depende de quem?

André Lima

10 de junho de 2022 | 15h07

O Governo Federal, com aval do congresso nacional, subsidiará em mais de R$ 45 bi o consumo de combustíveis fósseis para conter aumento de preços às vésperas de eleições.

Nossas autoridades, do executivo e do legislativo, iludidas pela “normalização” do absurdo que reina na nossa sociedade em relação ao tema das mudanças climáticas, estão abduzidas pela força eleitoral e perderam a (se é que tinham alguma) noção de responsabilidade climática.

Vários analistas afirmam que não é certo que vamos de fato segurar o aumento dos combustíveis mesmo com essa irresponsabilidade fiscal, posto que os fatores externos são determinantes para o aumento de preços do petróleo em todo Planeta.

Ainda mais importante é que quem mais consome combustíveis fósseis não são os mais pobres. São os mais ricos, os mesmos que são responsáveis por mais de 50% do aumento das emissões globais de CO2, e que não usam transporte coletivo, nem bicicleta para trabalhar, nem viajam de ônibus ou de trem e que serão os mais beneficiados economicamente com a medida eleitoreira.

Foto: Pixabay

No momento em que mais precisamos de investimentos em quantidade e qualidade em Ciência, Tecnologia e Inovação, para que o Brasil não perca mais um bonde da história a USP, Unicamp, Unesp perderão mais de R$1 bi com os subsídios aos combustíveis, sem falar nas universidades em outros estados.

Enquanto isso o setor mais prejudicado com as mudanças climáticas no Brasil, o responsável pela maior parte das emissões brasileiras de gases de efeito estufa (75%), o agronegócio brasileiro, pressiona por meio de seus representantes políticos no Congresso Nacional pela aprovação em regime de urgência do “Pacote da Destruição”: PLs do Veneno, do Licenciamento Ambiental, Mineração em Terra Indígena, Marco Temporal, mais anistia no Código Florestal, e prêmio para a Grilagem de terras e desmatamento de florestas públicas. Lideranças políticas insistem em ignorar que as chuvas que abastecem mais de 70% da nossa agropecuária em todo Brasil vem em grande medida das nossas florestas e cerrados que seguem sendo derrubadas ilegalmente a largos e crescentes passos.

Na Mata Atlântica o aumento do desmatamento foi de 66% e perdemos mais de 20 mil hectares somente em um ano, dessa vegetação que constitui nossa principal arma para nos proteger do aumento das temperaturas locais, dos desmoronamentos e deslizamentos em morros, causa da perda irreparável e inestimável de mais 130 vidas humanas de brasileiros e brasileiras (adultos e crianças) só nas últimas semanas em Pernambuco. E a conexão disso com a crise climática está mais que comprovada pela melhor ciência disponível.

Depois de sete anos de secas que vem causando perdas irreparáveis a um dos biomas úmidos mais ricos do Planeta, depois de mais de 25% de seu território ter sido literalmente incendiado, a soja, uma das principais comodities de exportação do Brasil, avança sem timidez sobre parte do que resta do Pantanal.

A colheita até agora, no Brasil “Celeiro do Mundo”, são mais de 30 milhões de brasileiros (15% da nossa população) passando fome ou não conseguindo garantir segurança alimentar para sua família.

Tudo isso às vésperas das eleições de 2022!

Será que nós, eleitores responsáveis, ainda não entendemos a conexão entre esses fatos?

Até quando vamos nos fazer de vítimas de políticos ignorantes, sem visão de futuro e atitude no presente?

Não será agora a hora de despertarmos da ilusão de que fazendo mais do mesmo é que sairemos dessa profunda crise em que nos enfiamos?

Senhores e senhoras eleitores e eleitoras, inclusive os mais jovens que votarão pela primeira vez em 2022, o Brasil não resistirá a mais quatro anos de populismo e negligência climática e irresponsabilidade socioambiental.

Se queremos não lamentar pelo que “poderíamos ter sido no futuro caso tivéssemos feito tudo diferente hoje”, lembrem-se de perguntar aos seus candidatos este ano qual a correlação entre subsídios aos combustíveis fósseis, o desemprego estruturante, desmatamento e perda de biodiversidade nos biomas brasileiros, crise hídrica, mortes por deslizamentos nas periferias das grandes cidades e o aumento da fome e da miséria no Brasil.

Geração de emprego e segurança alimentar depende de produção de energia e de alimento, que dependem de água, que depende de chuva, que depende de clima, que depende de florestas, que dependem de políticos responsáveis, que dependem do “nosso voto”!

 

Por André Lima (50), advogado, ex-secretário de meio ambiente do Distrito Federal e consultor sênior de Política e Direito Socioambiental do Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS)

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