Benefícios privados, prejuízos compartilhados: água e eleições

Benefícios privados, prejuízos compartilhados: água e eleições

Guilherme Checco - Pesquisador do IDS

05 Outubro 2018 | 09h08

A alguns dias do primeiro turno nas eleições é natural que cada um de nós pense o que devemos considerar na hora da escolha. Neste artigo o Instituto Democracia e Sustentabilidade propõe uma breve reflexão sobre um tema que para nós é muito caro: a água.

O documentário “Ouro Azul: guerras pela água no mundo” dirigido por Sam Bozzo inicia sua história descrevendo os impactos na saúde de um explorador que passou uma semana sem água durante uma viagem do México para a Califórnia. A “experiência da sede” causou impactos inimagináveis, desde a espessura da saliva até os lábios praticamente desaparecerem. Essa é a mensagem que vai orientar todo o documentário: falar de água, antes de mais nada, é falar de algo vital.

Não se trata, portanto, de falar de um tema a partir da perspectiva dos ambientalistas ou dos chamados ecochatos. Nesse caso, vale a pena se inspirar no termo cunhado pelo marqueteiro de Bill Clinton nas eleições presidenciais dos EUA em 1992, “É a economia, estúpido” (“The economy, stupid”), de forma a reeditá-lo para “É a água, estúpido”. Infelizmente, o que se nota em nosso contexto eleitoral atual é que a questão da segurança hídrica pouco aparece nas propostas dos candidatos e candidatas à presidência, às duas casas do congresso, aos governos dos estados e aos legislativos estaduais.

Claro que outras questões são fundamentais, tais como a economia, o déficit fiscal, a previdência, a saúde e a educação. De todo modo, existe prioridade que seja anterior à própria vida humana?

É interessante notar que a maneira como nós normalmente lidamos com a água é semelhante à nossa lógica eleitoral: o próprio umbigo fala mais alto que as necessidades socialmente compartilhadas. Se a água está saindo da torneira, pouco importa o destino dado ao meu esgoto, contanto que não me incomode e ele seja afastado. Pouco importam as condições ambientais necessárias para que haja água em qualidade e quantidade adequada, contanto que isso não exija alterações nos meus hábitos.

Urna eletrônica – TSE/Creative Commons

A experiência do IDS vem demonstrando que essa mesma lógica se aplica no atual momento eleitoral. O voto é decidido exclusivamente pelos interesses particulares, de modo que o eleitor elege seu candidato caso este se comprometa em fazer determinada obra, ou prometa beneficiar um determinado setor da economia (especialmente se o eleitor trabalhar nesse setor ou tiver investimentos nele). Claro que o interesse próprio é legítimo, mas deveria ser o fiel da balança em nossa escolha? Ou então, deveria ser o único fator a ser considerado na hora da escolha do voto?

Foi essa a mensagem norteadora da participação do IDS na Virada Política 2018, que aconteceu nos últimos dias 29 e 30 de setembro. Este evento, organizado por um coletivo independente, reúne anualmente pessoas de todas as “tribos” para debater ideias.

“Benefícios privados, prejuízos coletivos”. Essa é uma das principais justificativas que explicam a atual situação do Brasil em termos de saneamento básico e qualidade das águas. São 34 milhões de brasileiros sem acesso à água potável, 100 milhões sem sequer ter seu esgoto coletado e 110 mil km de rios poluídos.

A velha máxima ainda é válida: obra embaixo da terra não dá voto. O que acaba não entrando na conta na hora de priorizar  é que a falta de saneamento básico e a poluição das águas impactam em uma série de outras áreas de nossa vida, desde a saúde até a geração de empregos. Um dado alarmante que mereceria ser amplamente divulgado é o fato de que a falta de saneamento impacta no desenvolvimento do cérebro das crianças. As doenças de veiculação hídrica, por exemplo a diarreia, canalizam a energia do corpo para combater a doença, de modo que sobra pouca energia para o desenvolvimento cognitivo. Estamos roubando o futuro de nossas crianças e de nosso país sem ao menos nos darmos conta disso.

O cenário é desafiador. Somos cada vez mais pessoas, vivendo especialmente nas cidades. As mudanças climáticas já são uma realidade e estão impactando drasticamente o ciclo da água, mudando, entre outros fatores, as condições das chuvas. E, usamos muito mal a água. No Brasil, utilizamos água potável para fazer o “número 1 e 2”. O reuso avança muito lentamente. O reaproveitamento de águas de chuvas também. Para dar um único exemplo, em Israel 85% do esgoto tratado é reutilizado na agricultura.

Ainda assim, uma virada é possível!

Para tanto, é necessário uma virada política, escolhendo políticos comprometidos com esse desafio, com capacidade técnica para promover políticas públicas relevantes e estimular soluções inovadoras. Soluções como cisternas, reuso para fins industriais e agrícolas, banheiro seco e soluções baseadas na natureza já são uma realidade em diversas localidades. Esse tipo de iniciativa precisa ganhar escala. Mais do que isso, a questão precisa ser reconhecida como prioridade política.

A segunda dimensão da virada é de ordem comportamental, que independe das nossas escolhas eleitorais. A cultura da abundância precisa sair de cena para que uma nova cultura de cuidado com a água tome espaço na consciência social.

Que os votos nas urnas no próximo dia 7 de outubro, e também no segundo turno, levem em conta a seriedade da agenda da água e que o espírito de nossa sociedade seja do “nós todos juntos”. A armadilha do “nós contra eles” e do interesse privado acima dos benefícios coletivos só atrapalham o desenvolvimento pleno da nossa sociedade.

 

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guilherme@idsbrasil.org