A emergência das juventudes

A emergência das juventudes

Precisamos ouvir as vozes de quem já está lutando por um futuro democrático e sustentável

Equipe IDS

18 de janeiro de 2022 | 14h01

 

Por Eduardo Couto – Assistente de Pesquisas e Projetos do IDS

A Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima de 2021, mais conhecida como COP-26, realizada em novembro, se consolidou como mais uma promessa frustrada de líderes globais em termos de participação da sociedade civil em espaços de tomada de decisão. Há tempos as lideranças jovens, como Greta Thumberg, vêm denunciando o blá-blá-blá dos líderes globais nas questões climáticas, e é cada vez mais difícil não dar razão a ela. Infelizmente, essa mensagem não se resume às negociações internacionais sobre o clima. As juventudes brasileiras e mundiais ainda não são levadas a sério apesar de seu forte e maduro discurso. Isso impacta a qualidade das decisões dos governos, a força da democracia e a esperança por um futuro sustentável, que essa mesma juventude inevitavelmente terá que construir.

Divulgada pela organização do evento como a mais inclusiva entre as COPs, a edição de Glasgow não se mostrou muito acessível sob alguns aspectos: da lista vermelha de países à falta de rampas, passando por dificuldades de acesso para os observadores das negociações. O resultado: para além do efeito direto sobre a menor participação das nações mais pobres, cerca de dois terços das Organizações Não-Governamentais que usualmente enviam representantes às COPs não estiveram no Reino Unido. As consequências: uma Conferência que, nas salas de negociação, reflete as desigualdades e injustiças dos espaços de tomada de decisão mundo afora. Não é surpresa que um dos resultados mais comemorados por aqueles que alcançaram as salas de decisão é a regulamentação do mercado de carbono que, apesar de induzir a possíveis avanços na redução de emissões, se mostra insuficiente para atingir a meta – abaixo de 1,5ºC – de aumento da temperatura global até o final do século, mas gerará muitas oportunidades econômicas para nações e empresas.

Por outro lado, as ruas mostraram a COP-26 de quem está disposto a agir para ver um futuro habitável e sustentável. Greta Thumberg denunciou o festival de greenwashing que acontecia nas esvaziadas salas de negociação; já Txai Suruí, importância liderança indígena brasileira, em discurso contundente na abertura do evento que lhe gerou hostilização por parte do governo brasileiro, trouxe a fala da Terra aos presentes: não temos mais tempo a perder; apenas a partir de discussões sérias e com a presença de povos indígenas na tomada de decisões será possível tomar outro caminho com mudanças corajosas e globais. 

Aliás, a participação do Brasil na COP-26 representa bem a sólida e complicada barreira entre os líderes globais – porta-vozes do blá-blá-blá – e a pujante sociedade civil. Enquanto a delegação do governo federal – a maior no eventoomitia os dados do maior avanço dos últimos 15 anos no desmatamento na Amazônia, fazia acordos – como o Forest Deal e o Compromisso Global do Metano –  cuja execução é no mínimo questionável dada a conduta do atual governo e mantinha seu estande oficial esvaziado, o Brazil Climate Acion Hub (BCH), promovido por organizações da sociedade civil, deu voz a movimentos sociais ambientalistas, ao movimento negro, índigena, de direitos humanos, a cientistas, pesquisadores e parlamentares de oposição; e até mesmo a governadores e prefeitos, em um ambiente cheio, diverso, de fato inclusivo e vivo. Os dois Brasis, como apontou Jamil Chade, demonstram a ruptura entre sociedade e governo também presente em diversos outros países.

Não é novidade que a democracia passa por turbulências pelo planeta, e uma boa parte das razões dessa situação é um elevado desgaste entre o poder público e a sociedade. A (re)emergência de líderes populistas de extrema-direita e de medidas antidemocráticas pavimenta um caminho incerto e complicado, colocando em xeque muitas conquistas das últimas décadas: no Brasil, a reconstrução de uma forte democracia com a nossa Constituição Cidadã, que, apesar das diversas questões mal resolvidas nestes 30 anos, promoveu por meio de diferentes governos a redução da desigualdade de renda, a criminalização de injúrias raciais e homofóbicas, o avanço de direitos civis e sociais e, ainda dentre muitas outras conquistas, a construção de um protagonismo brasileiro na Agenda Global do Clima e da Sustentabilidade, cujo marco é a organização em território nacional da Rio-92.

Nos últimos anos, um combo de retrocessos: a volta do Brasil ao Mapa da Fome da ONU (são 116,8 milhões de brasileiros com algum grau de insegurança alimentar, segundo o Inquérito Nacional da Rede PENSSAN – acesse abaixo), as extensas violações de direitos humanos, a emergência climática e ambiental amplificada pela destruição dolosa de nossos biomas (crescimento de 14% em 2020) e, em mais amplo escopo, a potencialização de crises sociais, econômicas e políticas trazidas pelo mix catastrófico entre um governo de extrema-direita e uma pandemia global nos colocam desafios enormes pela frente. Nesse sentido, o óbvio deve ser dito: o ano de 2022 será emblemático para o país, com eleições gerais se apresentando como um plebiscito para o pacto social escrito há 33 anos. A esperança de uma união a favor da democracia, da sustentabilidade, da ciência e dos direitos humanos deve vencer o medo contra o extremismo, o preconceito, a destruição do meio ambiente e da política de morte.

A necessária reorientação de rota, porém, demanda o protagonismo de quem já está levando adiante, mundo afora, a preocupação com essas diversas questões e que apresentará as respostas indicativas dos rumos da democracia e da sustentabilidade: as juventudes. É imprescindível deixar de marginalizar a juventude brasileira para que não mais tenhamos a abstenção eleitoral recorde dessa faixa etária em 2020 (23,5%, alta de 9% em relação a 2016); é imprescindível trazê-la ao centro do debate, dos centros de tomada de decisão, e não mais reduzi-la a um cantinho da inclusão, em mais uma espécie de greenwashing – apenas pela fachada. O preço de deixar de lado as próximas gerações é voltar à situação que criou o próprio cenário propício ao surgimento de lideranças que hoje estão no poder – um projeto de democracia morna, sem força e sem seu principal ativo: a população.

O interesse existe, apesar do desencantamento com a política. Segundo a pesquisa People’s Climate Vote, realizada pela ONU, 64% da população mundial acredita que as mudanças climáticas são um grande problema e merecem mais atenção dos governantes. Para o público mais jovem, com menos de 18 anos, são 70%. Sob outro prisma, pesquisa realizada no Brasil pelo IPEC, a pedido da Fundação Tide Setubal e da Avaaz demonstra que 59% dos jovens brasileiros não discutem política nas redes sociais pelo medo de serem cancelados. De acordo com a coordenadora da pesquisa, Nana Queiroz, a juventude brasileira tem fome de participar da vida política, mas é diariamente alimentada com um prato de debate podre e polarização agressiva.

O Brasil tem várias Gretas para virar o jogo ao oferecer insumos de qualidade para o debate público, com mensagens maduras, contundentes, e que podem nos ajudar a sair do cenário catastrófico rumo a uma democracia pujante e sustentável: Txai Suruí, Alice Pataxó, Paloma Costa, Marcelo Rocha, e muitos, muitos outros. Foi possível conhecer algumas dessas tão importantes personagens nos dois primeiros eventos da série de debates intergeracionais que o Instituto Democracia e Sustentabilidade – IDS vem promovendo por meio de sua agenda estratégica Formação e Espaços de Ativismo, realizados em outubro e novembro últimos (que podem ser assistidos no canal do Youtube do IDS Brasil) em parceria com o Politize!, o Engajamundo e com o Youth Climate Leaders.

Destaco um dos relatos de Hamangaí Kariri Sapuyá, liderança indígena do povo Pataxó Hã-hã-hãe e articuladora Engajamundo: o pontapé inicial para sua atuação na defesa de seu povo e do meio ambiente foi o encontro com as palavras ativismo e mudança climática, pelas quais pôde perceber os desafios de seu povo e o que poderia fazer para tentar mudar o cenário complicado de seu território. Mas diferentemente dela, para muitos a ideia de ativismo ainda causa arrepios, assim como a ideia da juventude na política com associações à bagunça, ao estardalhaço, ao radicalismo, à falta de realidade e à inutilidade. Espera-se que, conforme o tempo passe, a maturidade traga um suposto senso de realidade no estilo pé no chão, para assim ganhar alguma credencial para habitar as salas de negociação como as da COP-26. Mas pelo histórico, podemos ver que essa transformação supostamente necessária só traz mais blá-blá-blá: mudanças poucas, num ritmo lento e muito aquém daquele que temos para mitigar os danos já causados ao planeta.

Se a espinha dorsal da sustentabilidade e do desenvolvimento sustentável é a ação humana que busca satisfazer as necessidades do agora sem comprometer a capacidade das gerações futuras de fazerem o mesmo, é imprescindível que um diálogo intergeracional sobre o nosso futuro comum seja eficaz e frutífero, trazendo os jovens para o lado de dentro das salas de negociação. É preciso aprofundar e radicalizar a democracia. As emergências – climática, antidemocrática, social, sanitária, e tantas outras – que nos assolam na atualidade e colocam em perigo a existência humana não podem ser maiores do que a emergência da força da juventude para a construção de um futuro democrático e sustentável.

 

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