“Tenho pavor de índio”, a frase que abalou a minha semana de folga na praia
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“Tenho pavor de índio”, a frase que abalou a minha semana de folga na praia

Maria Fernanda Ribeiro

31 de janeiro de 2020 | 10h36

Índios Yawanawa, na aldeia Mutum, do rio Gregório

O final do ano passou faz tempo e já me sinto mais em 2021 do que em 2019, mas uma frase que ouvi durante a minha única semana na praia entre o Natal e o Ano Novo ainda não deixou os meus pensamentos e escrever sobre isso pode ser o divã que preciso. Não que eu esteja substituindo um bom profissional de psicanálise por você, caro leitor, mas o que é a escrita se não um grito que esvazia a alma.

Em um passeio pela praia onde passei minha infância e parte da adolescência e que eu e minha mãe decidimos retornar para colher as lembranças do tempo, encontro uma roda de antigos amigos que eu ainda não tinha revisto e que há anos não recebia notícia alguma. Abraços calorosos surgiram apesar do distanciamento que o passado nos condena e logo após começaram as perguntas sobre a vida. “Sua mãe já me contou que você trabalha na Amazônia, com os índios, como é?”

Pensei em puxar uma cadeira e me aconchegar com a turma toda que se espremia sob os ombrelones, que são nada mais do que guarda-sóis gigantes e que eu não sabia disso até esse final de ano, mas imaginei que era um nome que dava um tom mais refinado à velha e conhecida farofa de praia. Fiquei em pé mesmo.

Foram poucos minutos até que eu ouvisse o comentário que mostraria a minha inabilidade para diálogos que me remetem a um limbo existencial e que abalaria o meu emocional até o momento em que escrevo esse texto. “Tenho pavor de índio”, ecoou uma voz feminina direcionada a mim e que procurei com o olhar para saber de onde vinha e tratava-se de uma total desconhecida para mim, mas não para o grupo. “Jamais teria um trabalho como o seu. Tenho pavor de índio”, repetiu mais uma vez entre um gole e outro de algo que bebia e que não faço ideia do que era, mas talvez um suco visto que estava grávida.

Eu, que ainda não tinha iniciado os meus estudos de comunicação não-violenta e, portanto, desconhecia os artifícios de como manter um diálogo empático e com compaixão mesmo em situações em que parece que tudo está perdido, ainda consegui perguntar por que, mas é bem possível que a minha linguagem corporal e meu sorriso forçado tenham deixado o incômodo que senti evidente.

“Porque eles são todos selvagens e tenho medo deles”, foi a resposta. Uma senhora, por volta dos seus 70 anos, também protegida pelo seu próprio ombrelone, emendou que aquele comentário não fazia sentido e que os índios não eram mais selvagens a ponto de atacar as pessoas, pois eles já estavam integrados à sociedade, inclusive munidos de celular. O diálogo aconteceu bem antes de o presidente soltar a sua última pérola de que os indígenas estavam quase se tornando seres humanos como nós, mas poderia ter acontecido simultaneamente.

Eu tinha tanto a dizer sobre diversidade e respeito, mas acompanhei a conversa por mais alguns minutos e sem emitir opiniões, até pedir licença para deixar o local e retornar ao meu próprio ombrelone, que me protegeria não só do sol, mas também de discussões. Hoje me arrependo de não ter ao menos tentado ter entendido aquele pensamento, pois aquele grupo que se esforçava para ganhar algum bronzeado na viagem de final de ano, obviamente de classe média alta, com seus isopores cheios de cervejas e acepipes refinados, são parte do retrato da sociedade brasileira, que não só apoia o atual governo, como incentiva que os indígenas não tenham mais um centímetro de terra demarcada e que seus territórios sejam explorados pela mineração, pela pecuária e para a construção de hidrelétricas em nome do progresso e do desenvolvimento.

Sociedade que desconhece a questão indígena por pura falta de interesse porque as informações pipocam na mídia todos os dias, seja na imprensa nacional como na internacional. A cegueira é propositada e intencional, só pode, pois basta um pouco de vontade para virar o pescoço um centímetro para o lado para entender, mas talvez seja pedir demais que as pessoas busquem por informações em um país que é terreno tão fértil de fakenews, onde tudo que se planta, dá.

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