O recado dos povos da floresta
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O recado dos povos da floresta

Maria Fernanda Ribeiro

24 de abril de 2019 | 15h05

Jovens, mulheres, pajés, caciques e xamãs mandam o recado ao governo brasileiro: “Vamos seguir resistindo.” Essa é uma das principais mensagens da campanha #PovosDaFloresta, que o Instituto Socioambiental (ISA) lançou no dia 23 de abril em parceria com os indígenas, quilombolas, ribeirinhos e extrativistas. A campanha pede o apoio das pessoas na luta pela proteção do patrimônio ambiental brasileiro e em defesa dos direitos dos povos indígenas e populações tradicionais.

A campanha #PovosDaFloresta é protagonizada por 25 lideranças de nove povos indígenas da Amazônia, comunidades quilombolas do Vale do Ribeira (SP) e ribeirinhas da Terra do Meio, no Pará, e não à toa foi lançada no mesmo dia que começou o Acampamento Terra Livre (ATL) em Brasília. Trata-se de uma grande mobilização que há 15 anos reúne indígenas do país todo na capital federal em defesa dos seus direitos e a qual o presidente Jair Bolsonaro referiu como um “encontrão de índios” que seria pago com o dinheiro do contribuinte. O ATL é muito mais do que um encontrão de índios, é tudo o que a sociedade não-indígena deveria aprender sobre engajamento, união, luta e resistência. Além disso, é custeado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e até vaquinha na internet teve para que eles pudessem chegar até lá e permanecer durante os quatro dias.

Para os povos indígenas o ano de 2019 já começou difícil. Logo no primeiro dia após o ato de posse, Bolsonaro editou a MP 870, cuja medida desmontou a Funai, órgão responsável pela política indigenista do Estado brasileiro, transferindo o mesmo, do Ministério da Justiça para o recém criado Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, comandado pela Ministra Damares Alves. Essa mesma medida entregou para a Secretaria de Assuntos Fundiários do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (Mapa), sob comando da bancada ruralista as atribuições de demarcação de terras indígenas e licenciamento ambiental. Daí seguiu-se uma série de ataques e invasões articuladas contra as terras indígenas, perseguição e expressão de racismo e intolerância relatadas aos montes pelos povos indígenas. “É nesse contexto que acontece o 15° Acampamento Terra Livre, que vai exigir de nós sabedoria, serenidade e muita força espiritual durante os três dias intensos”, diz trecho da programação do ATL.

Que os povos indígenas há centenas de anos resistem pela própria sobrevivência e lutam pelo direito à terra só nega quem se esconde atrás da própria história, mas o cenário nunca foi tão desolador para eles e para a Amazônia. É nessa moldura de uma tela obscura que a campanha do ISA saúda a diversidade dos povos que vivem e protegem as florestas, mostrando que são elas que regula o clima, produzem a chuva para a agricultura e abrigam a maior biodiversidade do planeta, potencial fonte de novos medicamentos e curas.

“Se a floresta, ou a natureza de maneira geral, é nosso passaporte, enquanto País, para algum futuro, os povos que vivem nela são seus verdadeiros guardiões”, diz André Villas-Bôas, secretário-executivo do ISA. “Temos que valorizar a enorme contribuição destas comunidades para o equilíbrio ecológico do planeta”. A campanha é uma resposta da organização e seus parceiros históricos aos retrocessos, desmanches e violações da Constituição, nas políticas socioambientais e na garantia dos direitos humanos que estão em curso no Brasil.

“Nós, povos da floresta, somos uma comunidade global de pessoas e é muito importante estarmos juntos em aliança. Assim ficamos mais fortes para enfrentar os ‘brancos’ que estão nos cercando”, afirma Davi Kopenawa, liderança e grande xamã do povo Yanomami, um dos protagonistas da campanha. “A sociedade não-indígena não nos conhece e essa campanha do ISA vai levar nossa palavra até ela”, completa Davi Kopenawa.

Para conhecer mais sobre a campanha e como contribuir, clique aqui.

Para saber mais sobre o ATL, clique aqui.

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