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Procura-se ideias para adiar o fim do mundo

Maria Fernanda Ribeiro

13 de setembro de 2019 | 09h41

Há três dias terminei o livro Ideias para adiar o fim do mundo, escrito por Ailton Krenak, um dos mais famosos líderes indígenas desse país, e ainda estou impactada. Ando pelas ruas, durmo e acordo e os pensamentos de Krenak me acompanham, como se as palavras me observassem e me vigiassem a cada ato do meu dia.

Trata-se de um livro de bolso, de 72 páginas, que são um compêndio de duas palestras e uma entrevista realizadas em Portugal, entre 2017 e 2019. Em menos de uma hora essa pequena obra prima pode ser lida, isso se você não parar para refletir a cada parágrafo o que é que estamos fazendo com nós mesmos.

Ailton passou a ser (re)conhecido no Brasil pelo discurso histórico na Assembleia Constituinte, em 1987, quando pintou o rosto com jenipapo como forma de protesto para que fosse aprovado uma emenda constitucional. Desde então, não parou mais e Ideias Para Adiar o Fim do Mundo é só um exemplo de atuação desse pensador indígena.

Muita gente já falou e escreveu sobre o livro, mas eu, para variar, demorei para me entregar ao lançamento por motivos nada justificáveis, como falta de tempo, rebeldia, outros livros na fila. Percebi que estava atrasada na leitura da obra que estava dando o que falar quando meu irmão, que não tem nenhuma ligação com a causa indígena, contou que por duas vezes foi até a livraria perto da casa dele para ler Krenak (meu irmão tem evitado comprar novos livros por falta de espaço em casa) e que as reflexões apresentadas por ele eram realmente interessantes.

Mas que pensamentos são esses? São críticas à ideia de humanidade como algo separado da natureza. Krenak, que nasceu e ainda mora na região do vale do rio Doce, o rio assassinado pela tragédia em Mariana (MG) com o rompimento da barragem da Samarco, afirma que é preciso ressignificar a nossa existência e refrear nossa marcha em direção ao abismo. Krenak, o homem que fala de um rio como se ele fosse uma pessoa, que canta para o seu rio porque acredita que ali, embaixo dos escombros que o enterra, há uma veia de água que grita para respirar.

“A ideia de nós humanos nos descolarmos da terra, vivendo numa abstração civilizatória é absurda. Ela suprime a diversidade, nega a pluralidade das formas de vida, de existência e de hábitos. Oferece o mesmo cardápio, o mesmo figurino e, se possível, a mesma língua para todo mundo.”

Em tempos de desmatamento, queimadas, possibilidades de exploração de minério em Terras Indígenas, invasões e uma visão coberta de fumaça de que para progredir é preciso derrubar, destruir, atropelar, Krenak nos faz pensar sobre o mundo que queremos deixar para as futuras gerações.

Para ele, o planeta que conhecemos hoje foi pensando há séculos e a gente aqui na depressão pensando que não era bem isso o que queríamos ter recebido. Pois bem, o que estamos empacotando hoje para entregar aos nossos bisnetos? Ficarão eles felizes quando o embrulho a sua porta bater? Ou estarão como nós, decepcionados com a entrega que nos foi feita?

Em uma sociedade que desde o nascimento é preparada para consumir muito mais do que para ser cidadã, as palavras de Krenak seguem em direção sobre necessidade do despertar, de fazermos ao menos pequenas revoluções, pois a Terra está em iminência de não suportar tamanha demanda, o que não é muita novidade, mas em um Brasil de negacionaistas climáticos reforçar o óbvio parece ser um processo cotidiano.

Reordenamento dos espaços e das relações, de novos entendimentos de como podemos nos relacionar com aquilo que se admite ser a natureza é o que propõe Krenak e adiar o fim do mundo para contar novas histórias é urgente. É uma tragédia que atinge a todos e o colapso que nos aguarda é sombrio como o dia em que São Paulo escureceu, porém vem com cartazes de “eu avisei”.

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Maria Fernanda Ribeiro

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