Os bravos barqueiros da Amazônia
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Os bravos barqueiros da Amazônia

Maria Fernanda Ribeiro

29 Novembro 2016 | 06h00

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O barqueiro Zé Mendes, no rio Tejo: cinco dias me guiando pelas comunidades da Reserva Extrativista Alto Juruá

Eu poderia navegar horas e horas, dias e dias pelos rios da Amazônia sem nunca ter que chegar a destino algum. Até me entristeço quando sei que o local final já se aproxima. São raros os momentos em que eu realmente quero descer do barco, descarregar minhas coisas e prender a rede em alguma árvore. Eu poderia navegar somente até o rio virar outro rio para depois ter que voltar tudo de novo. E assim sucessivamente. O destino sem jornada já não significa mais nada para mim.

 

E não estou falando de barcos confortáveis e aconchegantes em rios de águas abundantes e cristalinas. Esses também. Mas o sentimento é o mesmo até quando estou em canos de alumínio em rios estreitos e rasos onde o sol queima sem piedade e a chuva invade e encharca suas roupas e bagagens poucos segundos depois. O entardecer, a floresta que se adensa, o rio que se alarga, os patos selvagens que cortam o céu e as comunidades que se mostram pelo caminho compensam qualquer coluna que clama por uma poltrona confortável.

 

Conheci alguns rios dos estados do Acre, Rondônia e agora Amazonas, que é onde me encontro enquanto escrevo esse texto após voltar do baixo Rio Negro, e garanto que algumas horas de barco podem equivaler a dias de meditação. Você é capaz de resolver todos os problemas de trabalho, com a mãe, o pai, o namorado, a mulher, o vizinho e o chefe só observando a água correr. Pelos meus cálculos, em seis meses morando na floresta, já foram mais de 150 horas rio acima e rio abaixo. Já os problemas resolvidos, incontáveis.

 

Mas nenhum sentimento de tranquilidade seria possível sem os barqueiros, os bravos pilotos da Amazônia, que navegam por esses rios com olhos de lince e em quem você confia a vida como uma criança aperta a mão da mãe antes de entrar a primeira vez na escola. Viceli, Marcelo, Anderson e Zé Mendes são apenas alguns dos nomes de daqueles que já me guiaram rios acima, floresta afora. Ribeirinhos, caboclos, indígenas. Os filhos da floresta.

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Na canoa indo para a aldeia dos Yawanawa, no rio Gregório, no Acre

Com diárias que variam de R$ 50 a R$ 200, essas almas de coragem passam horas a fio em posição desconfortável, com o ronco do motor a torturar seus tímpanos e conhecem as vias de acesso das águas assim como você já decorou o melhor caminho para voltar para casa do trabalho no horário do trânsito pesado. E eles navegam à noite com lanterninhas de mão como se elas fossem holofotes de campo de futebol. Mas não são. São apenas lanterninhas de mão. Isso quando eles não esquecem o acessório e vão só na experiência de quem mal nasceu e a mãe já jogou na água que é para não correr o risco de se afogar.

 

O primeiro rio que conheci quando cheguei aqui foi o seco, sinuoso, tortuoso e cheio de troncos, rio Gregório. O destino era a aldeia Mutum, dos índios Yawanawa, e o barqueiro era um adolescente indígena de 16 anos. Era o Marcelo, se não me engano. Confiar nele era o mínimo que cabia a mim, uma amadora completa em todos os quesitos que envolviam uma viajante da Amazônia. O rio cheio de troncos causava certa ansiedade, pois era preciso desviar daquelas paus todos o tempo inteirinho, sem descanso. Qualquer vacilo a canoa poderia bater. Ou virar.

 

Logo que iniciamos a jornada, que duraria oito horas aproximadamente, a palheta do motor caiu, se perdeu pelas águas barrentas e precisamos dar uma pausa na viagem e Marcelo, que tinha uma palheta reserva, mas não queria perder aquela, começou a mergulhar no rio à procura da peça que havia se desprendido. Eu duvidei que ele seria capaz de encontrá-la. É claro que a correnteza já tinha levado. Óbvio. Tão óbvio.

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Barqueiro me levando pelo rio Crôa

E eu e os demais passageiros tentávamos desencorajar Marcelo a cada vez que ele voltava à superfície para respirar. Esquece isso, pega logo a reserva, e vamos em frente. Mas Marcelo nos ignorava, como se não estivesse escutando nada do que dizíamos, e retornava ao fundo da água confiante do êxito.

 

Um dos meus primos, que me acompanhava na viagem e que também duvidou que a missão teria um final exitoso, disse que ia torcer para que ele encontrasse a palheta e não só para que pudéssemos continuar a viagem, mas também para que aprendêssemos logo que de Amazônia nada sabíamos.

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Dois dias pelo rio Tarauacá até chegar à aldeia Água Viva, dos índios Kaxinawá

Dez minutos depois Marcelo retorna mais uma vez à superfície, e chegou triunfante e magistral, com a peça na mão como se fosse um troféu. E sem emitir nenhuma palavra e nem nos encarar com ar de desdém, a colocou novamente no lugar de onde ela nunca deveria ter saído e retomamos a viagem. Eu e meu primo nos olhamos. Sorrimos. A gente estava feliz pela lição que Marcelo havia acabado de nos ensinar. Parabenizamos o Marcelo e nos calamos satisfeitos.

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Maria Fernanda Ribeiro

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