O tiro que matou Paulo Guajajara e a certeza de que o genocídio indígena segue seu curso
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O tiro que matou Paulo Guajajara e a certeza de que o genocídio indígena segue seu curso

Maria Fernanda Ribeiro

04 de novembro de 2019 | 08h27

Paulo Paulino Guajajara, 26 anos, morto em uma emboscada dentro da TI Arariboia (foto: divulgação Apib)

Acordar com a notícia de que um indígena foi assassinado em uma emboscada é motivo suficiente para que o dia seja de reflexões perturbadoras. Pensamentos que navegam entre a incredulidade no ser humano até o que de fato fazemos para combater situações como essa, que vai além de esbravejar nas redes sociais. O assassinato de Paulo Paulino Guajajara, 26 anos, foi um soco no estômago de muita gente, pois junto com a tristeza veio a certeza de que o genocídio indígena segue o seu curso.

Paulino foi morto brutalmente com um tiro no rosto durante uma emboscada de madeireiros ilegais, no início da tarde do dia 1 de novembro, dentro da Terra Indígena Araribóia, no estado do Maranhão. Cinco homens armados teriam cercado e disparado contra os indígenas. A TI foi homologada pelo governo brasileiro em 1999 e, portanto, é crime invadir o local. Paulino integrava o Guardiões da Floresta, grupo formado por agentes florestais indígenas que desde 2012 atua para combater a entrada de invasores dentro da área demarcada, que abriga também índios isolados.

Ataques e invasões a territórios indígenas pelo Brasil não é exatamente uma novidade, mas eles se intensificaram desde a eleição do presidente Jair Bolsonaro e sua política (anti) indigenista que inclui o desmonte da Funai, a não demarcação de territórios, o empenho para liberar e legalizar o garimpo e a mineração em terras indígenas e a ocupação da Amazônia a qualquer custo. O governo do Maranhão afirmou que vai criar uma força-tarefa com o objetivo de proteger os indígenas do Estado em áreas sob jurisdição federal. Do governo federal, uma nota do juiz Sérgio Moro em rede social afirmando que esforços não serão poupados.

Para uma região que sempre viveu sob constante ameaça, as palavras do presidente não são apenas bravatas e soam como incentivo, pois se antes havia ao menos receio das consequências dos crime, agora é quase certo de que a impunidade prevalecerá.

Um relatório recente do Cimi (Conselho Missionário Indígena do Brasil) mostrou um aumento dramático da violência contra comunidades nativas e invasões de territórios indígenas. Durante os primeiros nove meses de posse de Bolsonaro, houve 160 casos relatados de invasões de terras, o dobro dos números registrados no ano passado.

De acordo com informações do Instituto Socioambiental (ISA), na Terra Indígena Araribóia a floresta está sob grave ameaça e não é de hoje. Em seu entorno não sobrou nada em pé. Dados oficiais do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que o Maranhão já desmatou 46% de sua cobertura florestal. Nos seis municípios no entorno da TI, esse número é ainda maior: 52,5%. E é por isso que os madeireiros precisam entrar ilegalmente na Terra Indígena para roubar madeira, com o intuito de abastecer as serrarias da região e obter matéria prima para as estacas das fazendas desta área do estado.

O documentário curta-metragem “Ka’a zar Ukyze Wà – Os Donos da Floresta em Perigo”, lançado este ano, já retratava a grave ameaça que os isolados da Terra Indígena Araribóia enfrentam diante de invasões de madeireiros e caçadores. Dirigido por Flay Guajajara, Erisvan Guajajara e Edivan Guajajara, que compõem o coletivo Mídia Índia, o filme apresenta a dramática situação dos índios isolados Awá Guajá, que dependem intrinsecamente da mata para sobreviver — da caça, da coleta, da água. O filme mostra quão trágico seria o encontro entre madeireiros e isolados. A velha história da tragédia anunciada. O filme pode ser assistido aqui: https://youtu.be/yol-QPrVi3A

Por falta de aviso é que não foi. Quão conivente a sociedade brasileira será com o genocídio indígena é o que ditará agora o rumo da nossa história. Que o barulho do tiro que matou Paulino ecoe em nossos ouvidos e perturbe nossos dias a ponto de não aguentarmos mais e o sufoco seja transformado em ação.

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Eu na Floresta

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