Meu amigo índio
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Meu amigo índio

Maria Fernanda Ribeiro

11 de março de 2019 | 09h00

Keya Yawa, em foto do perfil do Facebook: um presente não é simplesmente um adereço

Ter um amigo índio é daqueles presentes inesperados que a vida te dá sem que tenha pedido por isso. Você tem um problema e ele te aconselha com falas sobre as árvores, os pássaros, os peixes, a criação do Universo, os seres encantados. Conversam sem pressa e sabem ouvir. E quando digo sem pressa, é sem nenhuma. É sem a ansiedade peculiar do mundo moderno para que aquilo termine logo. Você pode falar durante horas sentada à beira de uma fogueira, e se for necessário aguardar até que aquela chama vire brasa, ele assim o fará sem demonstrar tédio ou irritação.

Ele não te ouve já pensando na resposta que vai dar, simplesmente está ali e espera que você conclua o pensamento para só então proferir as palavras. E quando não se está acostumada a ter um bom ouvinte assim, até se pode pensar que do outro lado não há ninguém, pois pode não haver indícios algum de que ele esteja prestando atenção, como um murmúrio ou um acendo de cabeça que seja.

Mas quando você termina sua exposição e após alguns segundos de silêncio cortante em que aprendi ser o tempo utilizado para que seja maturado tudo o que o outro disse, o seu amigo índio vai dizer o que precisa ser dito. E não são palavradas retiradas do dicionário, dos livros acadêmicos ou dos divãs. São histórias vindas dos ancestrais, dos seres da floresta, dos pajés. Pode vir em forma de canto, de mito ou de discurso e, independente do método, te fará refletir e, até mesmo, chorar.

O seu amigo índio também é capaz de ficar ao seu lado durante horas sem que nenhum dos dois sinta a necessidade de diálogo, o que não significa falta de assunto, mas sim apenas que a sua companhia é o suficiente para contemplar aquele momento de céu estrelado. Não há vazio nesse silêncio e, portanto, não há constrangimento. Tudo está repleto.

Receber um presente do seu amigo índio geralmente tem um motivo e vem carregado de significados não ditos. Lembro agora do meu amigo Keya, da etnia Yawanawa, no estado do Acre, e um dos primeiros amigos que fiz pela Amazônia. Ele cuidou de mim durante os rituais que participei na aldeia dele e passamos cinco dias juntos. Ele, um silêncio completo. Eu, falando sem parar.

No momento de deixar a Terra Indígena, Keya não se despediu de mim. Eu esperava que ele fosse até a canoa, me abraçar, dizer quanto nossos dias tinham sido legais e que nos veríamos em breve. Mas ele não fez nada disso. Simplesmente sumiu. Enquanto isso, eu o aguardava no porto, sentada na canoa e pedindo para que esperassem mais um pouco, quem sabe ele ainda apareceria. Ele não viria, me alertaram, pois índios não gostavam muito de despedidas porque era como se nunca mais o reencontro fosse possível. Lamentei, mas compreendi. Eu tinha muito a apreender e aquilo era só o começo. Parti carregando no pescoço o colar feito de tucumã e jarina que Keya havia me dado na noite anterior.

Rodei pela Amazônia com o adereço grudado em mim durante meses até reencontrar Keya. Tinha sido meu primeiro presente desde o início da jornada pela floresta e não tive coragem de simplesmente deixá-lo guardado na mochila. Eu estava novamente na Terra Indígena em que ele morava para realizar um trabalho, quando o vi deixando a canoa e subindo o barranco. Nos abraçamos. Eu continua efusiva, mas já mais contida. Ele ainda silencioso, manso, como se flutuasse ao invés de caminhar. Apontei a ele o colar, sem nenhuma expectativa de qual seria a reação.

– Você ainda usa o presente que te dei.

– Sim, nunca tirei.

– E sentiu a energia dele durante suas viagens?

Sim, respondi. Mas era mentira. A verdade é que nunca tinha me atentado a isso e aquela pergunta chegou como um eco das profundezas da ignorância que carrego sobre pessoas, objetos e valores. Não era só um colar para que eu me enfeitasse. Era um presente onde intencionalmente foram colocadas boas vibrações, com desejos sinceros de proteção para que os caminhos se abrissem durante minha expedição.

Keya morreu semana passada e soube da sua partida pelas redes sociais. Jovem, belo, gentil e amoroso, flutuou em silêncio ao retornar para sua verdadeira morada. Eu, que aguardava por um novo e inesperado encontro, terei agora que rever meus planos. Enquanto isso, reflito sobre tudo o que aprendi até aqui e relembro com ternura todo o afeto que recebi e recebo de todos os meus amigos e amigas indígenas. Torço para que todos vocês, assim como eu, tenha um – pelo menos um – amigo índio para te mostrar como a diversidade deve não ser apenas preservada, como nutrida.

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