Índios Panará denunciam negligência em atendimento a crianças no MT
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Índios Panará denunciam negligência em atendimento a crianças no MT

Maria Fernanda Ribeiro

22 de fevereiro de 2019 | 06h00

Líderes Panará protestam contra atendimento infantil no hospital local (crédito: Asyra Panara)

“Não sabemos se você tem filhos e netos como nós, mas caso você os tenha, esperamos que eles não recebam o atendimento que nossos filhos e netos recebem no hospital que o senhor está dirigindo.”

Assim começa um documento enviado pelos índios da etnia Panará ao diretor do Hospital Regional de Colíder (MT), a 600 km ao norte de Cuiabá, em que denunciam negligência no atendimento de crianças da aldeia.

O caso mais recente é o de um bebê de 6 meses que, apesar de ter sido encaminhado para o hospital com um pedido de urgência devido a uma pneumonia, só foi atendido depois nove horas e após ter sofrido uma crise de falta de ar, de acordo com os indígenas.

Na denúncia, que também foi enviada ao Ministério Público do MT, os Panará também relataram o caso de mais de dez crianças que não receberam o tratamento adequado no hospital, um bebê que morreu em dezembro do ano passado.

Segundo os Panará, há mais de dez casos de negligência (crédito Asyra Panara)

Segundo os indígenas, ele foi encaminhado da Casai (Casa de Saúde Indígena) para o hospital diversas vezes. “Ele era enviado em vão. Recebia alta apenas para ser novamente internado no dia seguinte. Vocês não sentem vergonha? Sên morreu, até hoje não sabemos o porquê. Ele foi enviado com suspeita de pneumonia em outubro, para morrer dois meses depois, após entrar e sair em vão inúmeras vezes desse hospital”, afirmam eles, no documento, onde acrescentam: “Que essa seja a última criança, Panará ou não Panará, indígena ou não indígena, a ser tratada com este descaso.”

O Ministério Público Estadual do Mato Grosso confirmou que recebeu o documento e informou que já oficiou o Hospital Regional de Colíder, que tem até o fim da próxima semana para se manifestar sobre os casos, inclusive sobre a denúncia de falta de pediatras.

Indígenas oficializam a denúncia no Ministério Público (crédito: Asyra Panara)

Já a Secretaria de Estado da Saúde (SES-MT) informou que já tomou “as medidas para a abertura de um Processo Administrativo Interno como forma de apurar os fatos e, possivelmente, responsabilizar qualquer profissional e prática de negligência”. A SES, no entanto, não quis dar detalhes sobre esse processo, afirmando apenas “estar empenhada reabertura da UTI Neonatal da unidade hospitalar de Colíder, desativada desde fevereiro de 2015.”

 

Quem são os Panará

Os Panará, também conhecidos como índios gigantes — havia o mito de que eram muito altos, mas o porte médio deles não passa de 1,70 metro — habitavam a Bacia do rio Peixoto de Azevedo, região que ia desde o município de Colider, no Mato Grosso, até o rio Iriri, no Pará. Eles são uma parte do retrato do que o “milagre brasileiro” do progresso na época da ditadura causou aos povos indígenas. A construção da BR-163, na década de 70, cortaria não só os estados de Mato Grosso e Pará ligando Cuiabá a Santarém, como também a terra onde moravam os indígenas, levando doenças e morte.

Os Panará são os últimos descendentes dos Cayapó do Sul, um numeroso grupo que habitava a região de Minas Gerais e havia sido considerado extinto. Nos anos de 1970, eles ocupavam dez aldeias e tinham uma população estimada entre 300 e 600 indivíduos. Quando foram transferidos para o Parque Indígena do Xingu, em 1975, eram 79. Os dados constam no livro Panará, a Volta dos Índios Gigantes, produzido pelo ISA, com ensaio do fotógrafo Pedro Martinelli e texto dos jornalistas Ricardo Arnt, Lúcio Flávio Pinto e Raimundo Pinto. O retorno teve início em 1995 e ainda seriam necessários mais três anos para que eles abandonassem de vez o Xingu para inaugurar a aldeia Nãsepotiti, com 178 pessoas. Atualmente, os Panará somam mais de 600 pessoas em cinco aldeias.

(Colaboração da minha amiga e jornalista Mariana Della Barba)

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