Financiamento coletivo leva aula de informática para os Yanomami
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Financiamento coletivo leva aula de informática para os Yanomami

Maria Fernanda Ribeiro

23 Julho 2018 | 10h19

Em maio de 2017 eu estive com o povo Yanomami pela primeira vez. Estava há nove meses a perambular pela floresta Amazônica quando fui convidada para conhecer esse povo que habita o rio Marauiá, no município de Santa Isabel do Rio Negro, no Amazonas. Da capital Manaus até lá são dois dias de barco pelas sensuais águas do rio Negro com o sol a se por no horizonte enquanto você decide se deixa a sua rede e a brisa que chegou para apreciá-lo ou não.

Fiquei no Xapono (como se denomina a casa plurifamiliar em forma de cone ou de cone truncado) Bicho-Açu durante dez dias. Era um curso de formação que acontecia lá em que a única visitante que não possuía função a desempenhar era eu. Tinha o professor, os alunos, os moradores e essa jornalista que vos escreve. Como não sei caçar, minhas habilidades para a pesca deixam a desejar, tampouco aprendi a despelar uma paca e só de olhar o facão com que descascam a macaxeira eu já imagino o ferimento que causaria em mim mesma, me comportei como uma observadora nata, mas não sem me incomodar com isso.

Foi durante essa visita, entre um papo na rede e um banho de rio, que eles me disseram que iriam ganhar alguns computadores, mas não sabiam como usá-los e se eu não poderia voltar antes do final do ano para ministrar algumas aulas. Queriam aprender a escrever um documento, um ofício, elaborar orçamento, planejar suas atividades. Tudo com o objetivo de fortalecerem a própria cultura, se comunicarem com as autoridades e protegerem suas terras. Claro que sim, foi a minha resposta, era a minha chance de me redimir pelos dias de ócio em terras onde ninguém fica parado.

Em novembro do mesmo ano lá estava, mas dessa vez como professora. Minha mãe que exerceu esse lindo ofício até aposentar-se me brindou com a mais bela orientação antes que eu atasse novamente a minha rede naquele barco: “Minha filha, ser professora é ficar eternizada na alma das pessoas para sempre. Portanto, faça um bom trabalho que eles nunca esquecerão de você.”

Durante duas semanas, não tivemos nenhum dia de folga, apesar de eu ter proposto. “A gente não quer folga, não, professora, queremos aprender”, diziam. A carga horária ficou cada dia mais intensa e também por iniciativa deles. Eu marcava às oito da manhã para começarmos, mas às sete eles já estavam na porta da sala de aula perguntando se poderiam iniciar mais cedo, pois queriam treinar. Painéis solares ligados, energia estabelecida e lá íamos nós preparar documentos, criar tabelas, formatar, aprender as fontes, copiar, colar. Um curso básico para quem o contato com a informática tinha acabado de chegar.

E quando o curso chegou ao fim, a pergunta era “quando é que eles teriam uma segunda etapa”, pois sem mais aulas poderiam esquecer o que já tinham aprendido e ainda nem tinham conhecido todos os recursos. Prometi, então, que voltaria com mais tempo e levaria mais um professor comigo para que déssemos conta do recado. Mas, viajar para a Amazônia custa caro e, para isso, lançamos uma campanha de financiamento coletivo para arrecadar a verba necessária.

Além da logística dos professores (só a passagem de barco custa, por pessoa, cerca de R$ 400 cada trecho), também precisamos de dinheiro para a ida dos alunos que chegam de barco de outros xaponos. O litro do combustível pela floresta custa em torno de R$ 7. Também precisamos comprar material para o curso, hospedagem nas cidades de apoio e contratar um pescador e uma cozinheira para que alguém cuide da nossa alimentação, pois estaremos o dia todo em aula.

Mas todo esse orçamento, junto com o cronograma das atividades, está explicadinho no link da nossa campanha que está disponível na plataforma do Catarse (http://catarse.me/yanomami). Os aportes começam a partir de R$ 20 e as recompensas para os apoiadores variam de acordo com a colaboração. Tem desde livro com temática indígena, a passeio pelos igarapés do paraíso de Alter do Chão (PA), consultoria de mochilão pela Amazônia, link para filme, fotografias impressas, pôster, rolês de stand up paddle em Manaus até palestras em escolas.

Entra lá, dá uma espiada e ajude os Yanomami a terem aula de informática. E compartilhem, compartilhem muito para que a nossa rede do nem possa crescer mais e sempre. Dá uma olhada no nosso vídeo também, que lá eu conto um pouco mais sobre minha história com a Amazônia e também com os Yanomami. E se você quer saber mais sobre o que é esse tal de financiamento coletivo ou crowdfunding, clica aqui e aqui.

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Ao me despedir dos Yanomami depois daqueles intensos dias em que passamos juntos em que eu provavelmente aprendi mais com eles do que eles comigo, nossos olhos estavam úmidos. Entrei no barco e acenei com a promessa de que retornaria logo. Em algum momento daquele percurso pelo rio olhei para o céu e me dei conta do verde que me rondava junto com as pessoas que ali habitavam. Meu coração cresceu e parecia que ele era tudo que havia em mim. Lembrei do recado da minha mãe e entendi de como ao fazer pelos outros fazemos muito mais para nós mesmos. Que belo ofício esse em que eu me meti.

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Se tiverem alguma dúvida sobre a nossa campanha, estou por aqui:

Email: eunafloresta@gmail.com

Facebook: Eu na Floresta

Instagram: eunafloresta