Chico Mendes, Raoni e um governo que menospreza nomes importantes da nossa história
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Chico Mendes, Raoni e um governo que menospreza nomes importantes da nossa história

Maria Fernanda Ribeiro

01 de outubro de 2019 | 13h40

Algumas atitudes, ações e comentários do atual governo, seja pelo presidente ou por membros do seu time, são realmente difíceis de engolir, de abstrair, de deixar passar, de achar que não era bem isso. Os cães ladram, a caravana passa e as palavras continuam a ecoar. O caso do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, quando indagado em fevereiro deste ano pelos jornalistas do programa Roda Vida sobre o maior líder seringueiro deste país e respondeu “Que importância tem Chico Mendes neste momento?”, por exemplo, ainda perturba os pensamentos de muita gente. O comentário já poderia ser considerado desastroso se tivesse sido proferido por qualquer autoridade, mas o efeito foi potencializado por se tratar da pessoa nomeada para um cargo que deveria exatamente lutar por preservar tudo aquilo que Chico Mendes defendeu.

Como relembrar é viver, importante deixar grifado que a ignorância revestida de indiferença foi proferida antes mesmo de as queimadas na Amazônia ganharem os céus de São Paulo transformando o dia em noite e as cinzas da ação ligada a um governo que tem como lema destruir ao invés de preservar, gerar reações até mesmo no agronegócio, setor que invariavelmente era considerado o vilão na destruição da floresta e agora integra a lista daqueles que defendem que ela em pé é melhor do que derrubada.

Ricardo Salles menosprezou um dos maiores ambientalistas do Brasil, um cidadão brasileiro assassinado a tiros na cidade de Xapuri, no Acre, em dezembro de 1988. Morto porque atuava pela defesa da floresta. Nada de novo no fronte no país que já ocupou o primeiro lugar no ranking de lugares onde mais são assassinados ativistas no mundo.

Cacique Raoni Kayapó durante coletiva de imprensa em Brasília após discurso do presidente na ONU

Agora, o discurso do presidente Jair Bolsonaro na ONU, na semana passada, continua sendo tema das rodas de conversa mundo afora. E nem vamos entrar no mérito – nesse texto – de ele ter levado a indígena Ysani Kalapalo para compor a comitiva presidencial, num movimento alegórico e contraditório de tentar dizer ao mundo que os povos indígenas estão de acordo com sua política (anti) indigenista, deixando claro que de índio o presidente nada ou pouco entende. Se tivesse alguma noção saberia como funciona a escolha de um representante entre os povos indígenas. Antes de qualquer coisa é preciso escuta.

O discurso do presidente na ONU, além das fantasiosas elucubrações sobre o comunismo, o socialismo e o foro de São Paulo, foi contra tudo o que já se tinha visto até hoje ao usar tal espaço para atacar a atuação do cacique Raoni Kayapó, de 88 anos, reconhecido internacionalmente há décadas  por ser um dos maiores defensores da floresta, com a bravata de que “o monopólio do senhor Raoni acabou.” Mais uma vez um cidadão brasileiro que mereceria o mínimo de respeito e reconhecimento é tratado sem nenhum. Raoni concorre ao Nobel da Paz e na bolsa de apostas londrina aparece em terceiro lugar entre os favoritos.

O escritor russo Tolstoi, durante a redação da segunda edição do seu livro sobre a criação do calendário da sabedoria, em 1904, escreveu que estava cada vez mais atônito ante a ignorância cultural e moral da sociedade. “Toda nossa educação deveria ser orientada para o acúmulo da herança cultural de nossos ancestrais, os melhores pensadores do mundo”, escreveu. Aqui no Brasil, caro Tolstoi, também estamos cada vez mais atônitos. Tudo vai mal.

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