A solidariedade que vem do Norte
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A solidariedade que vem do Norte

Maria Fernanda Ribeiro

03 Novembro 2016 | 06h10

Crianças chegam de barco e sobem o barranco para irem à escola

Crianças chegam de barco de comunidades vizinhas e sobem o barranco para irem à escola: quando o rio sobe, a ladeira diminui

O barranco para chegar até a casa mais próxima era íngreme e o sol do meio dia tornava a subida ainda mais penosa. Desci da canoa à procura de água, preferencialmente gelada, o que não é tarefa fácil quando estamos em comunidades distantes na Amazônia onde, se há energia, é via gerador e não dura mais do que duas horas, o suficiente apenas para preparar o jantar e assistir à uma novelinha. Uma senhora de idade, de corpo roliço e de semblante tranquilo, descansava esparramada em uma cadeira de fios de nylon verdes trançados na varanda da casa de madeira com telhado de zinco. O calor era de assombrar.

 

Ela parecia cochilar, mas abriu os olhos quando me aproximei. Sorri. Viajante?, ela perguntou. Respondi que sim e contei de onde chegava. Ainda sentada e sem se mexer muito – culpa do calor, que paralisa – ela perguntou se eu já tinha almoçado. Não, eu ainda não tinha comido nada desde o café da manhã regado a mingau de arroz e café preto com bastante açúcar com bolachas de água e sal. Quer que eu prepare um prato de comida para você? Quero sim, respondi, mas não sem antes hesitar. Não era a minha intenção trazer mais afazeres àquela senhora que já deveria ter trabalhado demais nessa vida. Mas eu tinha fome e não poderia desperdiçar a chance de comer. A próxima parada poderia demorar demais.

 

Sobe e entra, minha filha, vou preparar um almoço para você. Subi. Entrei. E deitei na rede que ficava naquela enorme cozinha onde uma mesa para umas dez pessoas mostrava que ali muitas bocas poderiam se alimentar de uma só vez. E lá foi ela fritar um peixe e ovos e preparar uma salada com tomate e alface colhidos naquela momento da própria horta. E me serviu água gelada. Era Verão na Amazônia, quando as chuvas cessam e os rios secam, e eu estava há cinco dias rodando pelos rios do Acre para conhecer como as comunidades que viviam da seringa haviam se reinventado após o fim do Ciclo da Borracha. A viagem já estava quase por terminar e esse foi, sem dúvida, o melhor almoço que tive. Pelos ingredientes e pela solidariedade. Aquela senhora, de fala mansa e de som quase inaudível, não tinha sequer perguntado o meu nome.

 

Mas essa não foi a primeira vez e nem a única em que me emocionei com a solidariedade dos nortistas desde que comecei a minha jornada Amazônia adentro há quatro meses. Eu, que carrego no comportamento atitudes de quem vive nos grandes centros urbanos, de querer resolver tudo sozinha para não dar trabalho para ninguém, posso até ofender ao recusar uma ajuda, uma carona, um prato de comida ou uma cama para deitar. Ou ser tachada de ingrata, que foi o que aconteceu quando eu disse certa vez que poderia chamar um táxi e que não era necessária a carona.

 

Não é raridade por aqui alguém ceder o próprio quarto para que você possa se sentir à vontade. Enquanto isso, a pessoa desalojada se junta e se aperta em outro cômodo com os filhos, os irmãos ou outros parentes. E você lá, no bem bom, sentindo que está atrapalhando toda a rotina familiar. Mas ai de você se não aceitar. Podem pensar que não gostou das instalações e que, por ser “da cidade grande”, aquele local não está de acordo com os seus costumes.

Índias Paiter Suruí em busca de alimentos na mata

Índias Paiter Suruí voltam após passarem algumas horas dentro da mata à procura do coquinho para retirar o gongo

Durante a minha estadia na comunidade quilombola Forte Príncipe da Beira, em Rondônia, a última em que estive, dormi confortavelmente no quarto cor-de-rosa de uma garotinha de 12 anos, a Duda, enquanto ela se deslocou para o quarto onde fica o irmão mais novo. “Ele não gosta mesmo de dormir sozinho”, ela disse quando questionei se ela não queria mesmo ficar no cantinho dela. Ao ir embora, todos disseram que ainda era cedo e que eu deveria ficar mais um dia. Respondi que já estava na hora de devolver o quarto e agradeci à Duda pela gentileza sem tamanho. Com lágrimas nos olhos, ela respondeu que aquilo não era nada.

 

Por aqui, todos também se preocupam com a sua alimentação e quando você se dá conta já está tudo pronto e você nem viu. Nem ajudou. Nem fez nada. Quando estava na companhia dos índios Paiter Suruí, também em Rondônia, comentei que eu sentia vontade de ajudar mais nos afazeres domésticos e que não me sentia bem em ficar só olhando enquanto eles preparavam tudo. Um deles me respondeu que era para eu ficar tranquila, que eles sabiam que a Amazônia ainda era um lugar novo para mim e me disse que se um dia ele ou outro índio fosse para São Paulo também não saberia como fazer algumas coisas, como preparar os alimentos, ou se locomover pela cidade. E lançou-me a seguinte pergunta: Se estivéssemos na sua casa, você não ia fazer o mesmo pela gente? Antes de vir para cá talvez eu até hesitasse na resposta, mas agora sem pestanejar eu respondi que sim, eu faria. Claro que faria.

 

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