EU, VOCÊ E A NATUREZA
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

EU, VOCÊ E A NATUREZA

Dener Giovanini

01 Dezembro 2011 | 18h10

O Blog estréia hoje uma nova seção: Reflexões Convidadas.

Nesse espaço, publicaremos textos escritos com exclusividade para o Blog. Serão convidadas pessoas que podem dar uma grande contribuição ao pensamento ambiental brasileiro, através da produção de artigos destinados à reflexão sobre os principais acontecimentos ambientais e também sobre a forma como nos relacionamos com o meio ambiente.

É com grande alegria que inauguro essa nova seção com um texto do meu querido amigo Geraldinho Vieira. Geraldinho, que também assina como Bhaskar, é um dos maiores jornalistas desse país. Foi fundador da Agência Nacional dos Direitos da Infância (ANDI)  e diretor de Comunicação da Fundação AVINA. Geraldinho é membro do Conselho Curador do Prémio Iberoamericano de Periodismo e professor da FNPI – Fundación Para un Nuevo Periodismo Iberoamericano (entidade com sede na Colômbia e presidida pelo Prémio Nobel de Literatura Gabriel García Márquez).

 

Eu, você e a natureza

Devam Bhaskar (*)

O que chamamos “doença” ocorre quando algo em nosso corpo se desalinha e passa a causar o mal funcionamento também de um outro órgão – e assim por diante levando a enfermidades de maior ou menor impacto. O organismo perde a unidade (organicidade), fragmenta-se, entra em conflito interno.

Ocorre a mesma coisa com o organismo que chamamos Planeta Terra: a devastação de uma floresta de topo de montanha, por exemplo, vai chegar nas primeiras páginas dos jornais e na telinha da sua tevê na forma de deslizamento de terra, soterramento de casas, mortes, dramas familiares. Os desastres naturais não são, em sua maioria, tão “naturais” assim: quase sempre são consequência da perda de unidade do ecosistema provocada pela ação humana. Por isso, assusta-se o mundo com o modelo de desenvolvimento chinês. Por isso, o mundo acompanha com ansiedade o que será do Código Florestal Brasileiro.

Desta forma, a crise ambiental que está na agenda de cada cidadão e governante em qualquer canto do planeta nos está trazendo muita clareza sobre o real significado de “unidade”.

A idéia de que “somos todos Um” ou de que “a Terra é nossa casa comum” é uma idéia bonita, mas tem sido apenas uma idéia ao longo da história humana.  Na verdade, o processo civilizatório tem sido a história não da unidade entre os homens e dos homens com a natureza, mas uma história de guerras, dominações, intolerância, opressão. Uma história de separação entre homens e mulheres, raças, culturas, crenças, nações.

O sentimento de “separação” tem sido uma produção da mente humana. A mente é um instrumento de medição. O que ela sabe fazer é dividir, separar, analisar, julgar. É uma ferramenta que se afia na pedra dura da dualidade (bom e ruim, feio e bonito, gosto e não gosto…). Quando  o Ser Humano sabe usá-la para os fins onde cabem a análise e o julgamento (o mundo das ciências, por exemplo), desfruta de bons proveitos. Mas quando o Ser Humano deixa de comportar-se como o senhor para tornar-se o servo deste mecanismo, colhe sofrimentos.

Em torno da questão “separação” versus “unidade” é que basicamente se dá a jornada da espiritualidade ou da religiosidade.

O sofrimento é, na concepção dos “ buscadores espirituais”, aquilo que a mente faz dos problemas. Em outras palavras: há uma circunstância que se apresenta como um problema e se em torno dele você se identifica com o processo mental de produção de pensamentos que fazem análise/julgamento, certamente haverá sofrimento. Quando você se pega pensando “logo comigo, que injustiça”, “puxa, não deveria ser assim, deveria ser assado”… você criou sofrimento em torno do que era apenas um problema. Por que ? Porque você criou histórias em torno dos fatos, construindo um véu de imaginação/ilusão que encobre a vida como ela é.

Os indianos chamam de “maya” o produto desta interferência da mente, a ilusão que substitui a realidade e lança os humanos à dor emocional e ao vazio existencial.

Para o “buscador espiritual”, o êxtase da jornada ocorre quando desidentifica-se da ferramenta “mente” e volta para casa, re-conectando o Ser Original ou a Consciência Plena, não-dual, assentada na Unidade: aqui residem  bem-aventurança, quietude, silêncio, alegria e amor incondicionais. Aqui o Ser mais que reconhece, encarna, o que era apenas uma idéia: a Unidade.

O Ser Realizado é Um consigo mesmo (não fragmentado, não conflitado). Liberto da prisão que é a identificação com o processo mental, torna-se Um com a natureza, é um com o Universo, é Um com Deus. E sendo Um com a natureza, não a destrói.

Assim, oxalá a crise ambiental nos faça ver a miséria a que nos conduz a falsa sensação de separação entres os homens, deles para com a natureza, entre as nações…

Que todos os santos nos guiem para que os caminhos de realização espiritual nos tragam de volta à Unidade com todas as espécies.

_______________________________________________________________________

(*) Devam Bhaskar é jornalista (também assina como Geraldinho Vieira) e consultor na área da comunicação para a transformação social. Desde 1982 é discípulo de Osho (a quem entrevistou algumas vezes e no ashram do qual viveu por dois anos). Coordena retiros de meditação e crescimento pessoal  como professor  formado pela Oneness University (fundada na Índia por Sri Amma e Sri Bhagavan, também seus mestres) .

Mais conteúdo sobre:

ArtigosReflexões