Caça de animais silvestres: parcialidade, isenção e omissão
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Caça de animais silvestres: parcialidade, isenção e omissão

Dener Giovanini

02 Julho 2018 | 16h53

Nunca tive a satisfação de encontrar um jornalista imparcial. Creio, de verdade, que eles não existem. O jornalista, como qualquer ser humano, tem opinião, tem lado e tem seus próprios conceitos do mundo que o cerca. A imparcialidade jornalística termina no momento em que o profissional da notícia pensa e escolhe as palavras para narrar um fato. E em qualquer escolha que fazemos, damos um passo que nos afasta da imparcialidade e nos aproxima da nossa consciência individual. E, claro, também nos faz bailar entre o céu e o inferno.

Já a isenção sim, existe. Mas não é fácil alcançá-la. Exige muito talento e muito autoconhecimento para construí-la. A principal diferença entre a parcialidade e a isenção é que a primeira independe da nossa razão. Somos o que somos. Já a segunda significa conseguir se livrar, ou pelo menos se afastar, das paixões.

Talvez Rita Lee cantaria que parcialidade é paixão e que sexo é isenção.

Isso posto, sinto-me no dever de revelar a minha parcialidade sobre o tema caça de animais silvestres: sou contra a caça em todas as suas variantes. Por maior que seja o meu esforço imaginativo, eu não consigo me enxergar matando um animal. Acho que nem para comer num hipotético estado de necessidade. Por esporte menos ainda. Isso é inimaginável para mim. E antes que alguém me acuse de ser hipócrita por comer carne, eu faço o mea culpa: sim, de certa maneira, talvez seja hipocrisia minha não concordar em matar um animal, mas não ver problema em comê-lo. Hipocrisias, quem não as tem?

Admitida minha parcialidade sobre a caça, tenho por dever jornalístico aguçar ainda mais o meu compromisso com a isenção. E ser isento é, acima de tudo, saber ouvir quem pensa diferente. Mas ouvir de verdade, sem preconceitos e sem medo de ser “contaminado” pela opinião alheia. A isenção também demanda muita coragem para permitir o nosso confronto interno, uma coisa que comumente denominamos reflexão.

Mesmo sendo contra a caça devo admitir que ela é uma realidade em nosso país. E que em muitos casos até se faz necessária, como no caso de subsistência ou como um instrumento de manejo para a conservação da biodiversidade. Em algumas situações, diria que a caça é o único recurso factível que dispomos para resolver os problemas que nós mesmos, seres humanos, criamos. É claro que aqui tem mais hipocrisia, pois quem vai levar os tiros nunca poderá opinar sobre o que iremos decidir. (Ok, admito que não fui muito isento nessa última frase).

A motivação para escrever esse artigo surgiu após o estado de São Paulo proibir a caça em seu território na última semana. E também porque, nos próximos dias, o tema será debatido na Câmara Federal, em função do Projeto de Lei 6268 do deputado federal Valdir Colatto.

Aliás, o nobre parlamentar desperdiçou uma grande oportunidade para tratar desse tema com a profundidade que o assunto requer. A começar pela pretensão de intitular o seu projeto como uma Política Nacional de Fauna e, na justificativa, resumir o mesmo a um apanhado de ideias simplistas para a defesa da caça no Brasil, em especial à caça do javali. Além de ser inconsistente tecnicamente, o projeto do deputado Colatto é imprestável como instrumento de política pública por ser superficial, genérico e contraditório no que se propõe.

Claro que o problema do javali europeu – entre muitas outras espécies exóticas e silvestres que estão colocando em risco a biodiversidade nacional – precisa de uma urgente solução. Tecnicamente não vejo outra saída, que não a caça, como instrumento de controle dessa espécie. Mas por outro lado também se faz necessário questionar: como essa espécie se espalhou tão rapidamente no Brasil? De que forma ela saiu do Sul do País, enfrentou os alagados, a Mata Atlântica, o Pantanal, o Cerrado e chegou até a Amazônia, no estado do Pará? E já que entramos nos questionamentos, vamos adiante: quem pode nos garantir que uma vez resolvido o problema do javali europeu não “surgirão” outras “pragas”, que requeiram novamente a ação das espingardas? Quem fará o controle e, principalmente, quem pagará a conta? Ou melhor, temos recursos para isso?

E é aqui que entra a terceira palavra do título desse artigo, que compõe a tríade junto com a parcialidade e a isenção: a omissão.

As vezes somos omissos e nem nos damos conta. Em nosso mundo 4G, onde diálogos e teses são construídos em poucos caracteres, tendemos – diante de um mar de achismos – a guerrear muito mais para impor a nossa convicção do que realmente encontrar soluções. Quase sempre nos damos por satisfeitos ao ver ser atendida a nossa vontade e quase nunca refletimos se, de fato, ela é o caminho mais apropriado. Talvez devêssemos nos questionar mais. Equilibrar mais a nossa parcialidade com a nossa isenção.

Tomo aqui, como exemplo, a recente proibição da caça no estado de São Paulo. Muitos comemoraram a sanção da Lei. Muitos sentiram-se felizes por que “cumpriram o seu dever e a justiça foi feita”.  Mas e na prática? O que muda de verdade com essa proibição? A resposta é simples: nada. Os javalis continuarão causando estragos, a biodiversidade continuará ameaçada e o Estado continuará parado frente ao desequilíbrio ambiental e a ação dos caçadores ilegais. De fato, nada foi resolvido. Nenhuma solução foi apresentada. Nada mudou.

Ou melhor, algo mudou e talvez tenha mudado para muito pior.

Uma vez que o estado de São Paulo se viu apto juridicamente a proibir a caça em seu território, qualquer outro estado também poderá alegar equivalência jurídica para autorizar a caça. O exercício do pacto federativo garante isso. E caso isso ocorra, estaremos diante de uma absurda situação: os Biomas passarão a ser fatiados geograficamente e receberão tratamentos distintos e até contraditórios. Não importará mais a um animal as suas interações biológicas e sim, de que lado da cerca ele está.

Precisamos deixar de lado a ilusão das soluções simplistas, pois quando buscamos respostas para os problemas ambientais, sempre estaremos navegando em um oceano de complexidades. Nenhuma saída mágica será encontrada através de tuitadas ou posts no Facebook. Nenhuma solução viável surgirá sem a fundamental participação da academia, dos pesquisadores. E muito menos a solução surgirá de arroubos de paixão que pra nada servem além de satisfazer egos sedentos de likes.

O PL 6268 do Deputado Valdir Colatto é imprestável no que se propõe. (Foto: arquivo pessoal do parlamentar/Facebook)

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