Um palavrão para a Vale

Um palavrão para a Vale

Empresas só podem atuar com licença social. A sociedade deveria manter a licença de quem se arrisca a matar para produzir seu lucro?

Caco de Paula

23 Novembro 2015 | 16h16

 

A lama de rejeitos de minério que vazou da barragem da Samarco - cujos donos são a Vale a anglo-australiana BHP Billiton - em Mariana (MG) já chegou ao mar, neste domingo (22), após passar pelo trecho do Rio Doce no distrito de Regência, em Linhares, no Norte do Espírito Santo, segundo o Serviço Geológico do Brasil. FOTO GABRIELA BILO / ESTADAO

A lama de rejeitos de minério que vazou da barragem da Samarco – cujos donos são a Vale a anglo-australiana BHP Billiton – em Mariana (MG) já chegou ao mar, neste domingo (22), após passar pelo trecho do Rio Doce no distrito de Regência, em Linhares, no Norte do Espírito Santo, segundo o Serviço Geológico do Brasil. FOTO GABRIELA BILO / ESTADAO

 

Murilo Ferreira, presidente da Vale. (REUTERS)

Murilo Ferreira, presidente da Vale. (REUTERS)

É surpreendente que o doutor Murilo Ferreira, presidente da Vale, não esteja vindo a público diariamente para pedir desculpas pelo enorme estrago que sua empresa trouxe a pessoas, comunidades e à vida em geral, por centenas de quilômetros rio abaixo até o mar. O rompimento da barragem de rejeitos em Mariana produziu um dos maiores desastres ambientais do planeta. É bem verdade que não há nenhuma lei ou regra escrita que o obrigue a agir dessa forma. Assim como não é uma imposição legal, mas sim moral, que leva executivos japoneses à auto-humilhação pública quando cometem um grande erro. Não se sugere aqui que alguém deva praticar harakiri por ter causado o desastre. Mas agir como se toda essa destruição fosse algo aceitável, “do jogo”, como se costuma dizer, é uma hipocrisia. Surpreende que alguém, como o doutor Ferreira, que teve o cuidado e o interesse de se reunir com o papa Francisco, quando ele esteve no Rio de Janeiro, não esteja, diariamente, assumindo publicamente sua culpa e detalhando exatamente o que, quando e como fará para minimizar esse estrago todo. O papa Francisco, como se sabe, é um raro líder religioso genuinamente interessado em questões socio-ambientais, que sabe do que se trata e acolhe o assunto com seu gênio comunicativo (“poluir é pecado”). É autor de uma tocante encíclica sobre ambiente, a magnífica Laudato Si. Seria de se esperar que alguém que esteve conversando com este papa fosse um pouco mais reverente à vida e à natureza, ainda que, simultaneamente exerça o papel de maior executivo de uma das maiores mineradoras do mundo. Ou talvez justamente por isso. Mas não. Ferreira quer fazer parecer que não é com ele, que não é com a Vale. Logo a Vale, que já teve em seu nome o Rio Doce que agora destruiu.

“Quero minha vida de volta” é uma frase que bem poderia ser o slogan de grupos de vítimas e comunidades junto à barragem e ao longo das centenas de quilômetros por onde escorreu a lama tóxica que foi destruindo a vida ao longo do caminho. A frase foi dita por Tony Hayward, então presidente da British Petroleum, responsável pelo gigantesco vazamento de óleo Golfo do México em 2011. Hayward cometeu uma enorme gafe ao dizê-la, é óbvio, já que os incômodos que passou a ter como presidente da empresa, por maiores que fossem, jamais seriam comparáveis com tudo que atingiu — sejam as pessoas mortas, sejam as formas de vida vegetal e animal que destruiu pelo caminho. Tanto no caso da BP como no da Vale, a gênese do desastre não está na fatalidade, no inevitável ou nos desígnios celestes. E muito menos pode ser honestamente chamada de “natural”. Atividades econômicas que impõem riscos a pessoas, comunidades e ao ambiente, devem incluir nos seus orçamentos os recursos necessários para evitar esses riscos. Simples assim. E isso seria o mínimo a esperar de uma empresa no século 21, principalmente de uma corporação tão grande e poderosa como a Vale. Há uma conversa que se quer espalhar como lavagem cerebral, segundo a qual mineração é mesmo uma atividade suja e que esse tipo de coisa é “do jogo”. Inadmissível. Se é “do jogo”, o modelo de negócio da empresa depende de colocar em risco vidas humanas e o meio ambiente. Se não é “do jogo”, o desastre poderia e deveria ter sido evitado. Pois não foi um acidente natural. Uma empresa só atua porque tem uma licença da sociedade para isso. E não se deveria manter a licença de quem se arrisca a matar para produzir o seu lucro.

É possível que muitas pessoas, nestes dias, tenham pensado em vários palavrões para somar ao nome Vale — e também à Samarco e à BHP Bilinton, parceiras nessa destruição. Aqui vai um palavrão, no sentido de palavra grande, de seis sílabas: ex-ter-na-li-da-de. É uma espécie de efeito colateral adverso da economia, como é hoje, mas não por muito tempo, a emissão de carbono, por exemplo. Externalidade é o nome que se dá aos ingredientes que não entram na conta econômica das empresas. Algo que está além da planilha de custos. Como parece ter sido o caso aqui, com as vidas humanas, o direito de acesso à água e as diversas formas de vida ao longo de centenas de quilômetros de rio, até o mar. Para a conta econômica, tudo isso era externo e alheio. Numa atividade que vive de revirar e devorar as entranhas do planeta, não é um absurdo considerar que o próprio planeta lhe é externo e alheio? Se os tratados de economia e engenharia não dão conta disso, que se leia nas palavras do papa Francisco e em sua encíclica. Não é sustentável uma economia que se coloca acima da sociedade e da vida. A vida é mais. A lama já chegou ao mar, mas ainda está em tempo de a Vale fazer seu mea culpa.
Alguns links sobre o desastre a partir de Mariana

Lama muda cor do mar na foz do rio Doce

Lama deve superar 9 km de costa; cadeia do Rio Doce está ameaçada

Catástrofe ainda não terminou, diz ministra

 

E, ainda a encíclica LAUDATO SI, em português.