Monges do Mianmar

Carol Da Riva

21 Março 2013 | 04h34

Sessão da Tarde, almoço, jogo de peteleco e rituais com os noviços birmaneses

O Mianmar ficou fechado por décadas para o turismo por conta de uma ditadura malvada que custou a vida de milhares de pessoas.

Uma de suas maiores vítimas foi Aung Suu Kyi, a Nobel da Paz.

Chamada carinhosamente por aqui de The Lady, foi obrigada a passar quase três décadas em prisão domiciliar. Outros foram os monges budistas, massacrados na chamada Revolução Açafrão, em 2007, na cidade de Mandalay.

Em 1 de abril de 2011, o país promoveu a primeira eleição democrática válida em 40 anos, elegendo Suu Kyi para um posto no parlamento. Estávamos lá nos dias que precederam o pleito e pudemos notar a alegria do povo nas ruas e dos milhares de monges.

Quase 90% da população de 40 milhões de habitantes é praticante do budismo. E por mérito e tradição, ao menos uma vez na vida, entre os 10 e 20 anos, colocam seus filhos para o monastério.

Todos os anos cerca de 500 mil jovens participam do Shinpyu, o ritual de passagem que celebra a cerimônia dos noviços.

Por semanas, meses ou anos, eles farão parte da sangha (comunidade de monges) de algum dos 50 mil monastérios espalhados por todo o país, emprestando uma paz especial e um  colorido a mais ao Mianmar.

Com Tiago e Luisa, conversamos e brincamos com eles várias vezes. Vou listar aqui os momentos e as passagens mais bacanas:

Em Nyaungshwe fica o mais fotografado mosteiro do Inle Lake, o tricentenário Shwe Yaunghwe Kyaung.

Os pequenos noviços sempre dão o ar da graça nas suas janelas ovais de madeira.

No mosteiro, fomos convidados a participar de um almoço vegetariano, regado a sopa de macarrão, vegetais e frutas. Logo após comer, os noviços ganharam um tempo para eles.

Alguns ficaram jogando peteleco, uma espécie de sinuca de dedo e convidaram o Tiago para brincar com eles. A Luisa adorou assistir

O que eu gostei de ver  é que ganhando ou perdendo, eles sempre davam risada, se importando mais em se divertir do que competir.

Uma outra turma, desencanada do peteleco, preferiu ficar numa salinha, assistindo a um filme de Samurai, ao estilo Bruce Lee.

Quando a tarde chegou os monges foram tomar banho, lavar as túnicas escarlates e depois voltaram as orações, preenchendo os altares com flores e incensos à Buda.

Em Amarapura, uma das antigas capitais do reino, próxima a Mandalay, fica a ponte U-Brein, com quase dois quilômetros de extensão toda erguida em madeira em cima de um grande lago. Por unir um templo sagrado a um mosteiro onde vivem cerca de dois mil monges, a ponte é um eterno ir e vir dos fiéis.

Cenário ainda mais bonito ao pôr-do-sol.

Em Mingun, cidade histórica à beira do rio Irrawady  – o mais importante do país, que o atravessa de norte à sul -, os pequenos monges gostam de brincar pelas escadarias do Templo Branco.

A estopa representa o Mont Meru, a montanha do centro do universo.

Em Mandalay, enfeitados como pequenos Sidarta Gautama, vimos as crianças participarem do ritual de limpeza nos templos para virar noviço. No dia seguinte, de cabeça raspada, os meninos receberão o robe escarlate; as meninas, o rosa.

Some-se um copo, uma tigela, uma gilete e um guarda-sol e você terá todos os pertences de um monge.

Já em Bagan, a cidade perdida nas selvas, com dois mil templos erguidos entre os séculos 9 e 12, pudemos ver a devoção de monges mais velhos, jejuando e entoando mantras em templos vazios.

Ficamos neste templo mais de duas horas, e este monge permaneceu rezando durante todo esse tempo

Num destes templos, contemplei um dos momentos mais bonitos da viagem. Junto à imagem de um Buda deitado de quase dez metros, uma monja cega de 90 anos passava a mão nos relevos da estátua, enquanto a sua guia descrevia as nuances. Ela era uma monja japonesa e me disse que sempre sonhou em visitar o Mianmar e agora que o país abriu, realizava um sonho. “Pena que perdi a visão” ela disse. Mas depois, apontando o coração sussurrou e riu. “Ainda posso sentir. E é lindo”.

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