O avanço dos biomateriais

Rodrigo Martins

10 Dezembro 2009 | 20h20

O polo industrial de Camaçari, na Bahia, caminha para se tornar também um polo de inovação com foco em sustentabilidade. De lá estão saindo pesquisas no campo de biocompósitos (novos materiais de base vegetal) e biorrefinarias, um novo conceito em refinaria, baseado no uso de matérias primas verdes e a transformação de resíduos em matérias primas e combustíveis. Em 2010, o polo ganhará o primeiro Centro Tecnológico de Biocompósitos da América Latina.

As pesquisas mais adiantadas estão sendo conduzidas pela Cetrel, empresa controlada pela Braskem que presta serviços de tratamento de efluentes e engenharia ambiental para as companhias do polo. Com experiência em gestão de resíduos industriais, a empresa iniciou, de três anos para cá, os estudos para transformar boa parte desses materiais em novos insumos para a indústria. “A ideia central é que os resíduos de uma atividade produtiva se convertam no insumo de outras”, diz Dênio Cidreira, diretor de negócios e inovação da Cetrel.

Entre as frentes de inovação, estão os biocompósitos feitos de bagaço de cana-de-açúcar, um resíduo abundante em praticamente todo o País. “O bagaço da cana, combinado com polietileno e polipropileno pós consumo e cinzas inertes de processos de incineração, pode ser transformado em diversos novos produtos para produção em escala industrial”, diz Cidreira.

No início de 2010, explica, os primeiros produtos resultantes dessa combinação devem começar a ser fabricados. Serão painéis para aquecimento solar, banheiros químicos e madeira plástica, cuja aplicação será na construção civil, como substituta do PVC e da madeira in natura.

As parcerias para a fabricação desses produtos estão sendo definidas. No caso dos painéis para energia solar, a indústria será a Alpina, de São Paulo, e, para fabricação dos banheiros químicos, a Triflex, empresa que faz parte do grupo industrial Sasil. “Com esses parceiros, conseguimos o pulo do gato em termos de inovação sustentável. As placas serão produzidas com bagaço de cana e o polietileno ‘verde’ fabricado pela Braskem, também de cana-de-açúcar. O balanço de carbono será positivo”, diz Cidreira, explicando que os novos produtos fabricados com biocompósitos têm capacidade de retirar mais CO2 da atmosfera do que emitir, ao contrário dos produtos de base petroquímica.
As pesquisas com biocompósitos, que também incluem outros resíduos, como casca de coco e sisal, serão apresentadas esta semana na COP15, a conferência sobre o clima em Copenhague.

“Biorrefinaria”
Os estudos sobre biocompósitos abrem uma nova oportunidade de negócios para as empresas de engenharia ambiental. No caso da Cetrel, que deve fechar 2009 com um faturamento de R$ 110 milhões, a meta é dobrar o faturamento até 2012, com os produtos como foco em inovação e sustentabilidade.

Em paralelo com os biocompósitos, outra tendência que a companhia está apostando suas fichas é no conceito de biorrefinaria, que começa a ganhar corpo na Europa, onde empresas e centros de pesquisa ligados a universidades pesquisam destinos para resíduos agrícolas, como de milho, beterraba, gramíneas e restos de madeira. “O conceito de uma biorrefinaria é semelhante ao de uma refinaria de petróleo, de onde saem vários produtos, como nafta, combustíveis e gás. Na biorrefinaria, podemos ter biocombustível, biopolímeros, biogás”, explica Susana Domingues, gerente de inovação tecnológica da Cetrel.

O interesse na criação de biorrefinarias levou a Comissão Europeia, braço executivo da União Europeia, a estimular a criação de ‘clusters’ de empresas agroindustriais, para que esses resíduos sirvam de matéria prima para biorrefinarias com zero emissão de carbono. O projeto, chamado de The Sustainable Carbon Negative Biorefinery of the Future (algo como A Refinaria Sustentável do Futuro com Emissão Zero de Carbono), inclui as universidades de Ghent, na Bélgica, de Manchester, na Inglaterra, e Toulouse, na França, além de um pool de quatro empresas europeias, mais a brasileira Cetrel.


Biomateriais produzidos com base em bagaço de cana. Foto: Leo Azevedo/AE