Destruição da Amazônia na prateleira do supermercado

Rodrigo Martins

16 Outubro 2008 | 18h37

Floresta no Pará transformada em pasto. Foto de Beto Barata/AE

Há um pouco de destruição da floresta amazônica em cada prateleira do supermercado. E nós, consumidores, ainda dispomos de poucos meios para saber o quanto estamos contribuindo para a devastação do nosso bioma mais importante.

A carne, soja e madeira que consumimos por aqui estão na raiz do desmatamento da Amazônia. O que já era dito por ambientalistas que há tempos atuam na região foi comprovado com um estudo divulgado esta semana, durante o seminário “Conexões Sustentáveis: São Paulo – Amazônia”. O levantamento é fruto de um extenso trabalho de reportagem das ONGs Repórter Brasil e Papel Social Comunicação.

A equipe acompanhou essas cadeias produtivas, para mostrar que a destruição da floresta favorece empresas intermediárias, que compram de produtores em situação irregular, e depois fabricam ou processam mercadorias consumidas pelos moradores de São Paulo e de outros grandes centros consumidores do País.

“Na ponta da cadeia produtiva, diversos atores se beneficiam. Madeireiras, frigoríficos e agroindústrias estão diretamente ligadas ao problema, pois compram de fornecedores que estão na linha de frente do desmatamento. Posteriormente, distribuem produtos industrializados para uma ampla rede de compradores”, diz um trecho do documento, disponível para download no site do Movimento Nossa São Paulo.

Pecados da carne

O caso da carne é emblemático. O Brasil hoje tem o maior rebanho bovino do mundo – o número de cabeças, estimado em 250 milhões, supera até a população brasileira. Sim, tem mais boi que gente.

Entre 2003 e 2006 o rebanho bovino cresceu 10 milhões, sendo que 96% desse crescimento ocorreu na Amazônia Legal. Nesta região, os abatedouros que portavam o Serviço de Inspeção Federal (SIF) no ano de 2004 eram 27. Já em 2007 o número saltou para 87 . O grande incentivo é o preço da terra: cada hectare custa R$ 250, segundo informações do Greenpeace.

Uma pechicha: é só botar a mata abaixo e colocar gado lá. Tem quem compre. Nós.

Nunca é demais lembrar que a ocupação da área amazônica foi fartamente estimulada pelo governo na década de 1970, com subsídios para a pecuária e derrubada da floresta para fins agrícolas. Levas de migrantes do sul e sudeste do País foram incentivados a ir para o norte para “desbravar” a região. Mesmo hoje o governo dá pistas de que ainda não assimilou bem o conceito do desenvolvimento sustentável para a Amazônia.

Ainda sobre a carne, não é de hoje que vem sendo dados alertas de que o aumento no seu consumo é um forte ingrediente para o aquecimento global. O próprio Rajendra Pachauri, Nobel da Paz e presidente do Painel da ONU para as Mudanças Climáticas (IPCC) recomendou que, para o bem do planeta, as pessoas comam menos carne. Isso porque, para se produzir um quilo de proteína animal, são necessários vários outros de proteína vegetal – soja, milho. E haja terra para plantar grãos para alimentar gado para alimentar humanos… Nessa toada, não há floresta que resista. E vale lembrar que a Amazônia regula o clima e o regime de chuvas de todo o País…

Pactos

De toda forma, o alerta dado pelas ONGs uniu grandes empresas – que também precisam salvaguardar sua imagem – na assinatura de um pacto para vigiar suas cadeias produtivas e só comprar de fornecedores que estejam em conformidade com a lei. As três maiores redes varejistas – Pão de Açúcar, Wal-Mart e Carrefour assinaram. Os maiores frigoríficos também, incluindo os gigantes JBS Friboi e Marfrig. Como o papel aceita tudo, o cumprimento dos pactos será monitorado por um conjunto de ONGs e também pelo Ministério do Meio Ambiente.