Crise financeira, empregos e sustentabilidade

Rodrigo Martins

01 Outubro 2008 | 18h53

Muito tem sido falado e escrito sobre a crise financeira americana, cujos efeitos se espalham pelo mundo em cascata. Poucos conseguem prever os reais impactos no longo prazo. E quando o assunto é sustentabilidade, pouquíssimas previsões ainda conseguem ser traçadas.

Algumas lideranças européias já estão mandando o recado de que, com a desaceleração da economia, vai ficar muito difícil manter as metas de redução de gases de efeito estufa – a União Européia estabeleceu um plano de reduzir as emissões de carbono em 20% até 2020. A justificativa é manter de líderes como Angela Merkel, da Alemanha, e Nicolas Sarkozy, da França, é que não se pode sacrificar os empregos, já combalidos pela crise, em nome das mudanças climáticas.

Por outro lado, na semana passada saiu um interessante relatório elaborado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) em parceria com as Nações Unidas sobre o futuro dos empregos ‘verdes’ – ligados a energias renováveis e tecnologias ambientalmente inovadoras. Os números são expressivos: o documento estima que até 2030 serão criados até 20 milhões de novos empregos nessas áreas. Doze milhões deles serão criados só nas indústrias de bioenergia – campo em que nosso etanol de cana se destaca.

O motor da criação desses empregos seria o crescimento do mercado para os produtos verdes no mundo todo: a expectativa é que ele dobre até 2020. Hoje essa indústria já move US$ 2,74 bilhões anualmente. O relatório alerta, no entanto, que muitos desses empregos correm o risco de ser “de baixa remuneração, perigosos e difíceis” – nossos cortadores de cana que o digam – e clama medidas para que as empresas e os governos assegurem o trabalho decente, que realmente reduza a pobreza e traga benefícios ao meio ambiente.

E ainda sobre a crise, é interessante notar que o pacote de resgate dos bancos americanos, recusado pelo congresso, de US$ 700 bilhões (o custo efetivo da “ajuda” pode chegar a US$ 1,5 trilhão) é quase dez vezes mais do que o necessário para, segundo a ONU, combater a pobreza extrema na África. Na semana passada, o secretário geral da ONU, Ban Ki Moon, disse que US$ 72 bilhões/ano ajudariam o continente a sair da pobreza até 2015…

Pistas
A crise financeira dá, enfim, uma pista clara da insustentabilidade do atual modelo econômico, que pode abrir caminho para um capitalismo mais regulado e uma nova visão econômica. Incluem-se a proposta para um novo cálculo do PIB, que leve em conta as externalidades da atividade produtiva -seus impactos para as pessoas e o ambiente – e não só o fluxo das riquezas.

A economista americana Hazel Henderson, que há pelo menos 20 anos defende uma nova métrica para o PIB, escreveu ácido artigo, entitulado “Go Home, Chicago Boys!“, a respeito dos efeitos da crise no cassino financeiro global. Veja um trecho:

“A regulação no interesse público é hoje reconhecida como urgente pelo secretário do Tesouro de Bush, Henry Paulson. Ele agora censura os excessos de Wall Street – transferir riscos sociais, custos e destruição ambiental para os contribuintes e as gerações futuras – apesar de ter sido presidente da Goldman Sachs antes de integrar o governo.”