Agronegócio, sustentável ou não?

Rodrigo Martins

07 Outubro 2009 | 00h35

O Brasil não pode se comprometer com uma taxa zero de desmatamento. A declaração, feita nesta terça-feira pelo presidente Lula, durante a Cúpula Brasil-União Europeia, em Estocolmo, deu munição para que a bancada do governo no Congresso e os ruralistas tentassem votar os Projetos de Lei 1876/99 e 5367/09, que tentam amainar vários itens da legislação ambiental brasileira. A ação foi barrada, mas causou grande comoção entre o movimento ambientalista. As principais ONGs divulgaram nota de repúdio (leia mais abaixo).

O tema ganha relevância ainda maior à medida que se aproxima a Cúpula do Clima, em Copenhague, em dezembro, onde os países devem definir um novo acordo global para enfrentar o aquecimento global. E, embora o governo brasileiro tenha dado sinais de que o País pretende liderar uma posição favorável a metas de redução da poluição para os emergentes, a declaração de Lula traz dúvidas sobre um real comprometimento.

O setor privado, especialmente ligado ao agronegócio, também chegou a sinalizar que estaria disposto a colaborar com o governo nas negociações do clima. As entidades representantes da cana-de-açúcar, do papel e celulose e do óleo de soja, entre outras, chegaram a elaborar um documento, a Aliança Brasileira pelo Clima, com sugestões para que o Itamaraty leve na bagagem rumo à Copenhague. Estariam então fazendo greenwashing (maquiagem verde)? Posando de bons moços para a mídia enquanto nos bastidores articulam mais e mais brechas para expandir as suas plantações para além do limite do aceitável?

É justo ressaltar que há vários estudos que mostram que é possível dobrar a produção de alimentos e bioenergia no País sem desmatar mais, apenas fazendo um melhor aproveitamento das terras, especialmente das pastagens subaproveitadas (um boi por hectare está bom?). Acho que todos queremos saber de que lado, afinal, o agronegócio brasileiro está.

Veja abaixo a íntegra da nota assinada pelas ONGs.

Nota das Ongs contra revogação da legislação ambiental brasileira

As organizações abaixo assinadas alertam a sociedade brasileira para a gravidade da proposta da bancada ruralista no Congresso Nacional (PLs 1876/99 e 5367/09) que tramita em comissão especial formada por maioria de parlamentares ligados ao agronegócio.

A proposta revoga ou modifica as principais Leis ambientais brasileiras, como o Código Florestal brasileiro, a Lei de Política Nacional de Meio Ambiente, a Lei de Crimes e Infrações contra o Meio Ambiente e a Lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação. Os principais instrumentos de gestão ambiental em vigor como a criação de unidades de conservação, as reservas florestais legais, as áreas de preservação permanente, o licenciamento ambiental, o Conselho Nacional de Meio Ambiente poderão ser revogados ou enfraquecidos para atender exclusivamente por encomenda setorial dos ruralistas.

uma das mais importantes reuniões internacionais de todos os tempos (Conferência do Clima em Copenhagen em dezembro próximo) que tratará de mecanismos e compromissos com a redução de emissões de gases de efeito estufa a bancada ruralista, com a conivência do governo federal, insiste em colocar em pauta e em ritmo acelerado propostas que põem em sério risco as principais leis brasileiras, em especial a que regulamenta o controle do desmatamento em todos os Biomas brasileiros. Ressalte-se que o desmatamento é responsável por mais de 50% das emissões brasileiras.

As organizações abaixo assinadas pedem ao Presidente da República e ao Presidente da Câmara dos Deputados o empenho necessário para que os Projetos de Lei aqui referidos (PL 1876/99 e 5.367/09) sejam rejeitados, ou que, no mínimo, sejam objeto de amplo debate nacional e tramitem ordinariamente nas comissões temáticas pertinentes viabilizando assim a participação ativa e informada de todos os setores interessados no desenvolvimento sustentável no Brasil.

As principais leis ambientais brasileiras a Lei da Mata Atlântica, a Lei de Gestão de Florestas Públicas, a Lei de Crimes e Infrações contra o Meio Ambiente, a Lei do Sistema Nacional de Meio Ambiente, Lei de Gerenciamento de Recursos Hídricos, Lei de Informações Ambientais e Lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação foram objeto de amplo debate no Congresso Nacional sendo inadmissível que este governo permita modificações de leis tão importantes para o desenvolvimento nacional sustentável sem um amplo e aberto debate nacional.

Brasilia, 06 de outubro de 2009

Associação Preserve a Amazônia
Apremavi
Amigos do Futuro
Conservação Internacional
IPAM
Fundação SOS Mata Atlântica
Gambá – Grupo Ambientalista da Bahia
Greenpeace
Grupo de Trabalho Amazônico
Rede de Ongs da Mata Atlântica
SOS Pantanal
ISA – Instituto Socioambiental
Instituto de Pesquisas Ecológicas
WSPA – Sociedade Mundial de Proteção Animal
WWF