A sonhada ponte entre economia e ecologia

Rodrigo Martins

14 Outubro 2009 | 00h18

Ela é mulher. Ela é cientista política. Ela passou boa parte de sua vida estudando as relações entre populações, os ecossistemas e seu equilíbrio ecológico. Ela é Prêmio Nobel de Economia.

Elinor Ostrom era até então um nome pouco conhecido nas bandas de cá. Mas ela, economista que não é – e talvez por isso – fez em seus estudos a tão necessária ponte entre a economia que gera riqueza para os povos e os recursos naturais que permitem que as engrenagens dessa economia funcionem.

Elinor investigou porque há povos e situações que se adaptam aos seus limites de exploração e conseguem se sustentar enquanto outros simplesmente predam seu patrimônio natural – os chamados bens comuns (solos, água, ar, florestas, estoques pesqueiros, etc).

Uma de suas pesquisas mostrou que pescadores de lagostas no Maine, nos EUA, conseguem se organizar para regular, sem intervenção do governo ou de empresas, a pesca do crustáceo. Com isso,conseguem evitar a superexploração desses recursos, o que representaria o fim de uma atividade econômica importante para a região.

Os estudos de Elinor são importantes para os estudiosos da sustentabilidade, pois desafiam o conceito de “Tragédia dos Comuns”, segundo o qual o meio ambiente é penalizado porque os indivíduos levam em conta apenas seus interesses próprios, sem se preocupar com os efeitos sobre as outras pessoas e as próximas gerações. Tanto que, ao receber o Prêmio, Elinor afirmou que seus estudos podem ser bastante úteis nos tempos atuais, em que a economia busca novos caminhos para enfrentar temas complexos como o aquecimento global.

Escolha emblemática
O fato de a Academia de Ciências Sueca eleger uma acadêmica com o perfil de Elinor representa um avanço muito importante. Primeiro, reconhece que a economia não é feita apenas das interações mercado-governo. Há outros agentes importantes no processo, entre eles o próprio meio ambiente, que abastece a economia de matérias primas e outros serviços e sempre foi considerado uma externalidade, algo alheio ao sistema econômico. O desmonte desse paradigma é emblemático e muito atual. Tanto que há um amplo movimento no sentido de incluir as variáveis sociais e ambientais na contabilidade das nações, como mostramos no especial “PIB verde“.

Elinor Ostrom parece fazer a academia acordar para a intrínseca relação entre economia e ecologia e representa a ponte que estávamos esperando ser feita. Parabéns Elinor, e que venham mais premiados como ela.