10 lições de sustentabilidade com a greve dos caminhoneiros

10 lições de sustentabilidade com a greve dos caminhoneiros

Crise com a greve trouxe incertezas e apreensão, mas também aprendizados importantes

André Palhano

01 Junho 2018 | 12h06

(FOTO: FELIPE RAU/ESTADÃO)

 

O Brasil ficou literalmente paralisado nos últimos dias com a greve dos caminhoneiros e sabe-se lá a que ponto chegaríamos se essa greve durasse, por exemplo, mais uma semana. Foram momentos de incerteza, com o desabastecimento batendo na porta do brasileiro, governantes completamente perdidos e as aglomerações de consumidores em postos e supermercados despertando memórias nada agradáveis dos tempos em que a economia brasileira era uma verdadeira bagunça (acreditem, uma bagunça muito maior que a atual).  Mas toda crise também traz seus aprendizados e com essa não foi diferente. Abaixo, uma seleção de 10 lições de sustentabilidade com a greve dos caminhoneiros.

 

1) Dependemos excessivamente de uma modalidade de transporte

É chover no molhado: desde as primeiras aulas de história ou geografia aprendemos que o Brasil fez uma opção histórica pelo transporte rodoviário – tanto de cargas quanto de passageiros – em detrimento do ferroviário (que já teve seus dias de fama e hoje está sucateado) e do hidroviário (que nunca chegou sequer perto de seu potencial). Bons exemplos de gestão mostram que apostar todas as fichas numa única modalidade nunca é uma boa opção. Nos últimos dias, sentimos na pele o resultado dessa aposta equivocada.

 

2) Precisamos usar fontes alternativas de energia

Acabou a gasolina? Imagine o que aconteceria se você tivesse um carro elétrico e pudesse o reabastecer no conforto de sua própria garagem? Melhor ainda: que essa eletricidade fosse gerada por um sistema moderno de energia solar ou eólica instalado em cima de seu telhado ou compartilhado no condomínio? Aplique isso ao transporte público, aos serviços emergenciais: quantos ficariam parados durante a greve? Num mundo que caminha para a geração limpa de energia não dá para depender tanto de fontes fósseis como o petróleo, que ainda por cima é um dos principais vilões das mudanças climáticas. Álcool e o bioetanol são boas alternativas? Sim, pois são renováveis, mas também dependem de transporte para chegar até o consumidor final.

 

3) Podemos usar menos o carro

Mais de uma pessoa me procurou nessa semana para contar que deixar o carro na garagem foi uma ótima experiência. Usaram mais (alguns pela primeira vez em anos) o transporte público ou a bicicleta, os aplicativos de carros compartilhados, caminharam mais, observaram o bairro em que moram, ficaram encantados ao descobrir que o carro nem sempre é a melhor opção para ir de um ponto a outro da cidade, inclusive em termos financeiros. Não estou falando aqui do carro como um vilão, tampouco que o transporte público é uma maravilha, mas que as vezes precisamos de uma chacoalhada como essa da greve para nos revelar o quanto pode ser prazeroso e saudável, sim, deixar o carro em casa.

 

4) Compartilhar é inteligente

Você já ouviu falar de economia compartilhada? O impacto da greve dos caminhoneiros no abastecimento de combustíveis gerou uma espécie de Semana da Carona em nível nacional, com mães se revezando para levar os filhos nas escolas, colegas de trabalho indo e voltando juntos para o mesmo bairro, comerciantes compartilhando entre si o transporte de entregas e encomendas. E descobrimos, maravilhados, o quanto isso pode ser agradável – no meu caso, soubemos somente agora que quatro diferentes colegas de escola do meu filho moram num raio de 200 metros de distância (irem juntos para a escola foi uma diversão!). Isso vale para carros, mas também para um monte de outros bens e produtos que podemos usar de maneira compartilhada, diminuindo o excesso de consumo e reforçando laços comunitários.

 

5) Menos carros, mais mobilidade urbana

As ruas e avenidas nas principais capitais brasileiras, quase sempre congestionadas nos horários de pico, ficaram uma beleza durante a greve dos caminhoneiros. Nas estradas, a saída para o feriado nunca foi tão tranquila. Claro que foi uma situação atípica, mas também uma prova inconteste de que dependermos menos do transporte rodoviário (menos caminhões nas ruas), usarmos de maneira consciente o carro particular (menos carros nas ruas) e compartilharmos caronas (carros ocupados com mais pessoas) são maneiras inteligentes –  e incrivelmente eficazes – de solucionarmos parte do gravíssimo problema de mobilidade urbana nas grandes cidades, que afeta milhões de pessoas diariamente e causa enormes prejuízos econômicos e de saúde para a população.

 

6) O futuro da alimentação é distribuído

Um quilo de batata pular de 1 real para 17 reais em apenas uma semana foi uma mostra de que a oferta de alimentos para a população tem uma dependência umbilical do transporte, uma vez que os grandes centros de produção (área rural) são geralmente distantes dos grandes centros de consumo (área urbana). Esse não foi, no entanto, um problema para o bolso ou para a barriga de quem cultiva seu próprio alimento, seja em casa, no condomínio, no trabalho ou nas hortas comunitárias que se espalham por todo o Brasil. Mais do que uma boa causa, a agricultura urbana é uma tendência mundial, justamente por aproximar a oferta e demanda dos alimentos e reduzir a necessidade e os custos com transporte. E de quebra ainda resolve parte do problema do lixo orgânico nas cidades, que em vez de enterrado pode ser compostado e utilizado como adubo dessa mesma produção.

 

7) Trabalhar em casa pode ser produtivo

A tecnologia e a conectividade avançaram muito nos últimos anos, mas ainda são poucas as empresas e organizações que notaram que o trabalho remoto pode ser uma solução inteligente para todo mundo. Algumas pistas: quanto tempo e dinheiro gastamos nos deslocamentos diários indo ao trabalho? Quanto estresse passamos nesses deslocamentos nos grandes centros urbanos? Os horários de pico no trânsito têm alguma relação com os horários de trabalho? É claro que não dá para imaginar um médico fazendo uma cirurgia complexa de um celular ou um bombeiro apagando um incêndio sentado no próprio sofá de casa (pelo menos não hoje em dia), mas muita gente trabalhou de casa pela primeira vez nesses dias de greve e a percepção de empregadores e funcionários é de que não houve nenhum grande problema em função disso. Diria até o contrário: pessoas mais felizes e dispostas, vivendo numa cidade mais tranquila, tendem a ser pessoas mais produtivas.

 

8) Podemos usar as redes em nosso favor

Para quem acha que redes sociais e aplicativos de mensagem só servem para espalhar besteira ou notícia falsa, a greve dos caminhoneiros foi um belo exemplo de cidadania. Claro que teve muito meme (alguns geniais), muita fake news, mas redes e aplicativos também foram o principal meio de comunicação para que as pessoas soubessem de fato o que estava acontecendo (o jornalismo tradicional ficou bem perdido nessa estória) nas estradas, postos de combustível, supermercados e manifestações. Também foi fundamental para apontar gente abusando dos preços na escassez, mostrar que o governo falava uma coisa e a realidade era outra, entre tantas outras coisas. Usar essas novas tecnologias a nosso favor pode ser um ganho e tanto quando falamos de vida em sociedade.

 

9) Gestores deveriam pensar em cidades resilientes

Com cerca de 85% da população vivendo em centros urbanos, a greve nos mostrou que as cidades brasileiras não estão preparadas para situações de emergência como a que vivemos recentemente. Os governos, com raras exceções, não tem planos ou estratégias para mudar esse quadro, por exemplo investindo em alternativas ao transporte rodoviário, reduzindo a dependência do petróleo, estimulando o uso consciente do automóvel particular ou incentivando a agricultura urbana (sim, um apanhado das lições acima). E olha que não estamos falando apenas da necessidade de estarmos melhor preparados para lidar com esse tipo de situação emergencial, mas também de como essas estratégias podem melhorar a própria qualidade de vida nas cidades, vide o exemplo da qualidade do ar em São Paulo na última semana.

 

10) Aprendemos mais com a dor do que com o amor

É uma constatação que não se limita ao Brasil, mas que é especialmente notável entre nós, brasileiros: em termos de mudança de atitude e comportamento, aprendemos mais com situações agudas de crise do que com informação e consciência. Foi assim, por exemplo, com a crise hídrica que assolou São Paulo e vários outros estados. Foi assim com a crise de abastecimento gerada pela greve dos caminhoneiros. Óbvio que muita gente vai voltar a agir como fazia antes da greve, assim como já vemos tantas pessoas desperdiçando água mesmo com um período seco se avizinhando em vários estados. Mas é hora de pensar: aprender com a dor é sempre mais doloroso – e ineficaz – do que aprender com conhecimento, ciência e consciência.