Sul do Amazonas, Acre e Rondônia em chamas

Sul do Amazonas, Acre e Rondônia em chamas

Equipe do Greenpeace flagra a floresta pegando fogo mesmo no final da temporada de queimadas; arco do desmatamento avança por novas áreas ainda protegidas, em especial unidades de conservação e terras indígenas

Giovana Girardi

23 Outubro 2018 | 16h00

Ao final da temporada de fogo na Amazônia, o Greenpeace flagrou queimadas na região entre os Estados do Amazonas, Acre e Rondônia. Crédito: Daniel Beltrá / Greenpeace

A temporada de fogo na Amazônia já deveria estar no fim, mas a floresta continua pegando fogo. É o que alerta a ONG Greenpeace, que fez um sobrevoo no início deste mês na região do sul do Amazonas, do Acre e de Rondônia e registrou diversos focos ativos e áreas que recentemente viraram cinzas.

Foram identificados trechos ainda pegando fogo tanto no entorno, mas também dentro de áreas protegidas. A Terra Indígena Sissaíma, do povo Mura, em Careiro da Várzea (AM), por exemplo, estava queimando quando foi feito o sobrevoo.

Os ambientalistas também observaram rastros de queimadas no sul do Estado, em torno da Terra Indígena Tenharim Marmelos, próximo de Humaitá, na Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes, no Acre, e em diversas outras áreas próximas a Rio Branco. Em Rondônia, foram vistas marcas de fogo na terra indígena do povo Karipuna.

Registro de focos ativos ou de áreas já queimadas foi feito no início de outubro. Crédito: Daniel Beltrá / Greenpeace

De acordo com Danicley de Aguiar, campaigner do Greenpeace na Amazônia, o fogo chama a atenção tanto por estar ocorrendo já ao final da temporada de queimadas – quando em geral se veem poucos focos –, quanto pela região onde eles foram detectados. “O arco do desmatamento está se movendo para novas áreas, cada vez mais para o sul do Amazonas”, comenta o ambientalista.

É um processo de conversão de florestas que já estavam degradadas, define. Ou seja, de limpeza da vegetação nativa, que já tinha sido afetada antes, para a colocação, provavelmente, de pasto.

Em 2018, apesar da tendência geral de queda no número de focos de calor na Amazônia Legal, estados críticos em desmatamento registraram mais fogo. Crédito: Daniel Beltrá / Greenpeace

Há um temor de que se trata de um movimento já provocado pelas eleições e por declarações do candidato Jair Bolsonaro (PSL), que prometeu acabar com o que chama da “indústria da multa” do Ibama, fazer uma fusão do Ministério do Meio Ambiente com o da Agricultura e sair do Acordo de Paris. Um de seus principais aliados, o general Oswaldo Ferreira, também se mostrou saudosista à época em que não tinha “Ibama para encher o saco” de quem derrubasse árvore.

Dados do Instituto de Pesquisas Espaciais apontam para uma alta de 36% no desmatamento entre junho e setembro deste ano, na comparação com o ano anterior.

O ministro do Meio Ambiente, Edson Duarte, também vem fazendo alertas nesse sentido. Ele reconhece que a floresta está queimando além do esperado e que as taxas recentes tiveram uma alta.

“Já estamos percebendo uma movimentação diferente de aumento de pressão sobre a floresta neste período eleitoral. A Amazônia é muito sensível. A pressão avança quando há sinais de mudança no horizonte. E ao falar em indústria da multa, o debate pode incentivar a impunidade”, disse ao Estado na semana passada.

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