Quando você escuta o som do aquecimento global, é melhor prestar atenção no que ele diz

"A Espiral da Morte" é um livro imprescindível para entender por que o aquecimento global não é um problema só do urso polar, mas de todos nós

Giovana Girardi

28 Março 2016 | 18h56

Convite do lançamento do livro, nesta terça, 29, em São Paulo

Convite do lançamento do livro, nesta terça, 29, em São Paulo

Talvez em nenhum outro lugar do mundo o aquecimento global se faça mais evidente do que no Ártico. Lá é possível até mesmo ouvi-lo em ação – “um murmúrio constante” que lembra o “ronco de um gerador a diesel” e, que, de repente, se eleva a um estrondo. “O som vem do gelo se mexendo. O som vem do gelo se esfacelando e tombando sobre a água. O som vem do gelo derretendo.”

É com essa imagem poderosa que o jornalista Claudio Angelo começa seu Espiral da Morte, livro que traça um dos mais completos panoramas, do ponto de vista científico, econômico e social, sobre o tamanho da encrenca que a humanidade criou para si mesma ao lançar na atmosfera trilhões de toneladas de gás carbônico na atmosfera desde a Revolução Industrial.

Claudio transformou em livro um trabalho de reportagem sem descanso que começou em 2001 e incluiu cinco viagens polares, entrevistas feitas com quase cem pessoas – de cientistas a políticos, de ambientalistas a esquimós que caçam e comem ursos polares –, sobrevôo com avião da Nasa, expedição a bordo do navio do Greenpeace no polo norte, viagens com navio da Marinha brasileira na Antártida e até um jogo de futebol em pleno mar congelado no Ártico.

Trabalho esse de apuração que, se não houvesse um deadline da editora e o timing do Acordo de Paris, fechado na Conferência do Clima da ONU no final do ano passado e que em teoria coloca o mundo no rumo de evitar que a catástrofe climática seja pior, talvez estivesse sendo feito até agora, tamanha a quantidade de novos estudos que saem o tempo todo trazendo mais detalhes e esclarecimentos sobre como o planeta esta reagindo à mudança do clima.

O foco é no que está acontecendo nos extremos do planeta, mas cujos impactos atingem todo o mundo, inclusive o Brasil. O aquecimento na Groenlândia, que tem visto suas geleiras se dissolverem, e no mar congelado do Ártico, cada vez menor e mais fino, e os efeitos disso tudo nas correntes marítima foram relacionados, por exemplo, à onda de calor mais severa da história da Rússia, em 2010 (que refletiu no PIB do Brasil), e à grave seca que atingiu o Meio Oeste nos Estados Unidos, em 2012, assim como ondas de frio desmedidas na América do Norte – sim, porque como Claudio deixa bem claro, alterar a delicada e complicada maquinaria climática do planeta significa muito calor, mas às vezez muito frio também.

Tudo está conectado. Para o sul, os danos das mudanças climáticas na Antártida, que tem experimentado uma redução do seu manto de gelo, também já foram relacionados a reflexos no clima do Brasil, como a seca intensa que atingiu o Rio Grande do Sul em 2004 que chegou a quebrar a safra de soja e trigo nos municípios do noroeste do Estado. “A agricultura do Sul e Sudeste depende de um clima benigno, controlado diretamente por massas de ar frio formadas no oceano austral”, escreve, para mais para frente lembrar do que disse papa Francisco: “Tudo está conectado”, como o pontífice defendeu em sua encíclica ambiental no ano passado.

Apesar do tema árduo, a prosa de Claudio é bem (ou mal, de vez em quando) humorada e balanceia com elegância o conteúdo científico com histórias pessoais dos cientistas, dos exploradores pioneiros que se aventuraram pelo Ártico e pela Antártida no passado e das pessoas que vivem nos polos. Essa abordagem dá uma boa noção de quão complexa é a história das mudanças climáticas.

Na Groenlândia, por exemplo, conta o jornalista, o governo local, apesar de vir testemunhando em primeira mão as mudanças do clima, não tem achado o aquecimento global de todo ruim, já que está aumentado a minúscula área agriculturável do território, as oportunidades de pesca e aberto uma possibilidade mais macabra – de exploração de gás natural e petróleo no Ártico. A atividade, como bem se sabe, é uma das propulsoras das emissões de gases de efeito estufa que estão justamente aquecendo o planeta e derretendo o gelo ali.

Dá um arrepio na nuca quando o autor transcreve uma declaração da primeira-ministra da Groenlândia, Aleqa Hammond: “É errado afirmar que a mudança climática só resultou em coisas ruins. Eu devo dizer que o novo clima pode ser benéfico para os groelandeses.” A verdade é que nem para eles, como o episódio do ataque do urso polar demonstra.

A obra de quase 500 páginas, porém, não é exatamente fácil de transpor, e não é por causa do tamanho. Simplesmente porque o tema é doloroso. Mesmo para quem está mais do que familiarizado com ele, é tenso ver a forma como o livro vai desfiando as evidências do degelo e de outras alterações climáticas que podem vir a elevar o nível do mar em um total de metros incompatível com a ocupação das faixas litorâneas em todo o planeta. Mas persista, porque é uma leitura imprescindível para qualquer ser humano que pense um tiquinho no amanhã. E também para aqueles que ainda não entenderam que o problema já está aqui, batendo nas nossas portas.

Livro: A Espiral da Morte – como a humanidade alterou a máquina do clima
Autor: Claudio Angelo
Editora: Companhia das Letras
Preço: R$ 59,90
Tamanho: 496 páginas