Quando o terrorismo e a luta pelo clima se chocam

Quando o terrorismo e a luta pelo clima se chocam

Pode até ser que combater as mudanças climáticas não reduza em nenhum milímetro os riscos do terrorismo no mundo. Mas deixar que o mundo fique mais quente e com o clima instável pode ser combustível para a ocorrência cada vez maior desses conflitos

Giovana Girardi

18 Novembro 2015 | 20h07

 

paris

Quando vi as primeiras notícias do ataque terrorista a Paris na última sexta-feira, que matou 129 pessoas e deixou centenas de feridos e milhões de pessoas assustadas e com medo, não pude evitar: meu primeiro pensamento foi sobre como isso afetaria a Conferência do Clima da ONU, marcada para começar, naquela mesma Paris, somente pouco mais de duas semanas após o atentado.

Não que eu não estivesse profundamente abalada e chocada pelo alcance do terror, pelo drama humano, pelo desespero e a tristeza. Mas não vou me meter a palpitar sobre o que não é a minha praia. Mas clima é. E os eventos da última sexta se chocaram diretamente com ele.

Meu primeiro pensamento foi que a conferência poderia ser cancelada, visto que está prevista, para a sua abertura, no dia 30, a presença de mais de 120 chefes de Estado – Obama, Dilma, Merkel, Putin, e os presidentes de China e Índia incluídos.

E depois me dei conta que nada passaria mais um atestado de derrota do que cancelar a cúpula, então ela muito provavelmente seria mantida. E de fato isso aconteceu. Pelo menos até o momento. Mas muito do que dá cor, graça e, acima de tudo, humanidade para o problema das mudanças climáticas pode ser cancelado.

Nesta quinta-feira o governo francês informou que, por questões de segurança devido aos trágicos eventos de sexta, não vai autorizar as marchas que estavam previstas para tomar as ruas de Paris no dia 29 de novembro, antes de a conferência começar, e 12 de dezembro, quando ela estará acabando.

ONGs ambientalistas que estavam organizando os eventos estavam esperando reunir pelo menos 200 mil pessoas pra fazer pressão para que os governantes adotassem medidas ousadas de corte de emissão dos gases de efeito estufa.

Os grupos agora estão buscando alternativas para se manifestar. “Convocamos as pessoas em todo o mundo a se juntar e marchar por nós em solidariedade, para expressar nossas demandas e ecoar nossas vozes”, disse Alix Mazounie, da RAC France, em comunicado distribuído pela Coalização Clima 21, que organizava os eventos.

Marchas em mais de duas mil cidades em 150 países estão marcadas para o dia 29, sendo que as maiores devem acontecer em Londres, Berlim e São Paulo estão mantidas. A marcha em São Paulo sai da avenida Paulista às 14h e vai até o Parque do Ibirapuera.

Alguém pode argumentar que não faz sentido lamentar por duas marchas ou por um eventual cancelamento da conferência diante dos acontecimentos e dos riscos. Afinal, o que é o aquecimento global diante do terrorismo?

A questão não é o clima, nem é o “ambiente” – como muita gente acha que é o compartimento onde se encaixa essa discussão. Mudanças climáticas são sobre economia, moradia, segurança hídrica, segurança alimentar. São sobre saúde e migração. Sobre milhões de pessoas sendo deslocadas de suas casas.

Combatê-las significa permitir que o planeta seja um lugar melhor. Pode até ser que isso não reduza em nenhum milímetro os riscos do terrorismo no mundo. Mas deixar que o mundo fique mais quente e com o clima instável pode ser combustível para a ocorrência cada vez maior desses conflitos.