Presidente do ICMBio proíbe manifestações de servidores por aniversário do órgão

Presidente do ICMBio proíbe manifestações de servidores por aniversário do órgão

É a segunda vez, em duas semanas, que o coronel Homero de Giorge Cerqueira não autoriza assembleia de servidores e manifestações no órgão, o que vem sendo intepretado como intimidação

Giovana Girardi

28 de agosto de 2019 | 16h42

O presidente do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Homero de Giorge Cerqueira, proibiu nesta quarta-feira, 28, a realização de um manifesto por parte dos servidores nas comemorações dos 12 anos do órgão.

Cerca de 100 servidores haviam ocupado o pátio da instituição para marcar a data. Junto com a comemoração, havia sido convocada uma assembleia das associações de servidores ambientais (Asibama-DF e Ascema Nacional) para discutir a crise ambiental atual e também denúncias que vêm sendo feitas de perseguição, retaliação e de outras tentativas anteriores de proibição de assembleia.

Ato em comemoração aos 12 anos do ICMBio foi proibido por presidente do órgão. Crédito: Asibama/DF

Conforme o Estado apurou, às 9h os servidores começaram a tomar a palavra, alguns declamaram versos, foi cantado o hino nacional e “parabéns” para o instituto. Às 9h20, Cerqueira enviou um ofício às associações de servidores e na sequência um outro, para os diretores do órgão, dizendo que atos previstos na sede não estavam autorizados, “visto que não foi solicitada a autorização prévia”.

No documento, ao qual o Estado teve acesso, o presidente do órgão disse também que tomou a decisão levando em conta a “situação presente na Amazônia Legal e os impactos na biodiversidade nacional” e que “neste momento todos os esforços da força de trabalho devem estar voltados para a Amazônia Legal”.

Cerqueira ainda afirmou, no ofício, que as comemorações seriam “substituídas pelo emprego da força de trabalho na Operação Verde Brasil, direcionado a proteger o bioma amazônico”.

Em um vídeo que está circulando nas redes, o presidente aparece no Ministério da Defesa convocando para essa operação, na qual ele diz que serão intensificadas as fiscalizações ambientais. “Vamos comemorar o aniversário do ICMBio, dia 28 de agosto, trabalhando, trabalhando e trabalhando”, disse. Ele pede que funcionários se voluntariem para ajudar.

Servidores ouvidos pelo Estado disseram não saber exatamente o que é a operação. “Recebemos um email com o convite, mas nada mais”, disse um servidor, que pediu para não ser identificado.

“Quando organizamos o evento, pensamos em algo para levantar a moral e estima dos servidores uma vez que, diante do constante assédio, muitos servidores estão se sentindo ameaçados e amedrontados no exercício das suas funções”, complementou.

Durante o evento, os diretores da Asibama disseram que, “embora as chamas estejam consumindo a floresta dificultando qualquer comemoração”, a celebração tinha o objetivo de chamar a atenção para os problemas como “cortes orçamentários, redução das operações de fiscalização, retaliações e remoções à revelia, exonerações sem motivo claro, impedimento de realizarem suas assembleias e até de darem entrevistas a jornalistas, algo inédito nos órgãos ambientais”.

“Todo ano as direções do ICMBio e do Ibama pedem o apoio financeiro da Asibama-DF para o bolo e eventualmente alguma decoração nas datas dos aniversários das instituições. Como não foi agendada nenhuma comemoração oficial e a direção já remarcou duas vezes a audiência com as entidades, solicitadas por nós, fomos marcar posição do nosso direito de reunião. Sempre estivemos abertos ao diálogo, mas parece que eles não querem”, disse um representante da entidade.

Este é o segundo episódio do tipo em duas semanas. Em meados do mês, uma outra assembleia das associações de servidores havia sido convocada no órgão e um pouco antes de o evento começar, um funcionário foi chamado por Cerqueira, que disse que o ato não poderia ocorrer. Este funcionário, então, pediu que a decisão fosse feita por escrito, o que não ocorreu, de modo que a assembleia foi mantida.

Sem poder usar o auditório, como costumava ocorrer antigamente, os servidores foram para o pátio do ICMBio, onde relatam terem sido fotografados. “Entendo que está acontecendo uma tentativa de intimidação mesmo. Nós nunca tivemos de pedir permissão para fazer assembleia, nos organizar”, comentou na ocasião Beth Uema, da Ascema Nacional.

Procurado pelo Estado, Cerqueira disse estar no Pará, em Itaituba, com três outros diretores em  campo. “Os servidores não pedem autorização. Estamos no momento de trabalhar. Somente isso”, afirmou. Questionado sobre as acusações de intimidação, respondeu: “São alguns que não querem trabalhar.”

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