Perto de bater novo recorde, 2016 pode ter aumento de temperatura de 1,2°C

Perto de bater novo recorde, 2016 pode ter aumento de temperatura de 1,2°C

Comparação se dá com valores médios de temperatura do planeta antes da Revolução Industrial; nesse ritmo de aquecimento global, limite de 1,5°C estabelecido pelo Acordo de Paris para o final do século fica próximo de ser batido. Anúncio ocorre em meio à tentativa de Trump de tirar os EUA do acordo

Giovana Girardi

14 Novembro 2016 | 10h18

(Atualizado às 13h12)

MARRAKESH – Os dados ainda são parciais, mas o aumento de temperatura observado de janeiro a setembro coloca o ano de 2016 perto de quebrar o terceiro recorde consecutivo como ano mais quente do registro histórico e aponta que o planeta pode estar já 1,2°C mais quente que o período pré-Revolução Industrial.

Pesquisadores ligados à OMM mostram gráfico com aumento da temperatura desde 1880. Elevação se tornou mais pronunciada a partir de 2000. Crédito: Claudio Angelo / Observatório do Clima

Pesquisadores ligados à OMM mostram gráfico com aumento da temperatura desde 1880. Elevação se tornou mais pronunciada a partir de 2000. Crédito: Claudio Angelo / Observatório do Clima

O alerta foi divulgado na manhã desta segunda-feira (14) pela Organização Meteorológica Mundial, durante a 22.ª Conferência do Clima, que ocorre até o final da semana em Marrakesh (Marrocos). Segundo a OMM, apenas de janeiro a setembro a temperatura média do planeta já foi 0,88°C maior que a média observada no período de 1961 a 1990, usado como base de referência.

Com base nesses valores, a não ser que outubro (que já parece ter sido igualmente quente), novembro e dezembro se mostrem anormalmente frios, o que é considerado pouco provável, os cientistas estimam que o ano atingirá a marca de 1,2°C mais quente do que o planeta experimentava antes de as emissões de gases estufa começassem a subir muito, ficando muito perto da meta de aquecer somente 1,5°C até o final do século. Este é o objetivo almejado pelo Acordo de Paris, fechado no ano passado e que entrou em vigor no último dia 4.

Segundo os pesquisadores, se não houver atitudes drásticas de redução de emissões de gases de efeito estufa, muito além das já prometidas, esta meta pode ser perdida rapidamente.

Estados Unidos. O dado é divulgado menos de uma semana depois de Donald Trump ser eleito como presidente dos Estados Unidos, o que tem levantado temores entre os negociadores da Conferência do Clima sobre o risco que ele traz para o Acordo de Paris e as metas de contenção do aumento de temperatura.

Assumido negacionista das mudanças climáticas, ele declarou durante a campanha que cancelaria o acordo, fechado por 196 países no passado e já ratificado por 109 deles, EUA incluído. Na semana que passou, muitos negociadores dentro da COP tentaram contemporizar, acreditando que o Trump presidente pode agir de modo diferente do Trump candidato. Mas no final de semana, a agência de notícias Reuters divulgou informações de um membro do comitê de transição de Trump, que falou em condições de anonimato, que o futuro presidente estuda como fazer isso da forma mais rápida possível.

Depois de eleito, Trump também sinalizou que colocaria um outro conhecido negacionista das mudanças climáticas, Myron Ebell, para fazer a transição na Agência de Proteção Ambiental (EPA), órgão que hoje está por trás do controle americano de emissões.

O país é hoje o segundo maior emissor de gases de efeito estufa do mundo. De acordo com outro estudo divulgado também nesta segunda, o “Global Carbon Budget” (orçamento global de carbono), os EUA respondem por 15% das emissões mundiais provenientes de queima de combustíveis fósseis e processos industriais (sem contar mudança da terra, como desmatamento).

E têm tido uma queda de emissões nos últimos anos. Só no ano passado 2015, a queda foi de 2,5%, segundo o relatório, principalmente porque o gás natural ficou mais competitivo. Apesar de ser um combustível fóssil – ou seja, também emite dióxido de carbono (CO?), o principal gás de efeito estufa –, ele é menos poluente que o carvão.

Em campanha, Trump disse que voltaria a incentivar justamente o carvão. Isso poderia por a perder a meta do país assumida junto ao Acordo de Paris, de reduzir de 26% a 28% as emissões de gases de efeito estuda até 2025, na comparação com valores de 2005.

Algumas pessoas têm tentado manter o otimismo de que os benefícios econômicos da transição para uma energia mais limpa, e a competição com a China, que está liderando hoje esse processo, podem falar mais alto para Trump.

“Apesar do que está acontecendo nos Estados Unidos agora, sou um pouco mais otimista do que muitos. O que está fazendo as emissões caírem nos EUA é primeiramente o declínio no uso de carvão, porque o gás natural está mais barato, mais competitivo. Muitos estados republicanos também têm dado um forte apoio a energia solar, eólica, e espero que muito disso continue”, disse Glen Peters, pesquisador do Centro Internacional de Pesquisa em Clima e Ambiente de Oslo e co-autor do Global Carbon Budget, quando questionado sobre o que pode acontecer com os limites de emissões se os EUA pularem mesmo fora do acordo.

“Eu acho que vai ser muito difícil para Trump fazer algo para tornar o carvão de repente mais competitivo. Isso nos deixa um pouco otimista. E lembrando que os Estados Unidos respondem hoje por 15% das emissões mundiais. O resto do mundo, por 85%. Então, acho que o resto do mundo pode fazer muito mais mesmo se os Estados Unidos ficarem um pouco mais lentos nesse período”, complementou.

Extremos. O aumento de temperatura em 2016 ainda foi favorecido pelo forte El Niño que atingiu o planeta mais fortemente no ano passado, mas continuou nos primeiros meses deste ano, contribuindo com o pico de calor. De acordo com os cientistas, porém, não foi apenas o fenômeno o responsável pelo aquecimento. “O calor extra fornecido pelo poderoso El Niño desapareceu, mas o calor do aquecimento global continua”, disse Petteri Taalas, secretário-geral da OMM.

A curva de crescimento da temperatura se tornou mais visível a partir dos anos 2000. Nesse ritmo, dos 17 anos mais quentes do registro histórico, 16 terão ocorrido neste século (1998 foi o outro ano). No jargão científico, há 95% de chance de o recorde ser batido.

De acordo com o levantamento, em algumas parte do Ártico russo, a temperatura esteve de 6°C a 7°C acima da média. Em outras partes do país e também no Alasca e no Canadá, a temperatura ficou pelo menos 3°C acima da média. “Nós costumamos medir os recordes de temperaturas em frações de graus, então isso é diferente”, afirmou Taalas.

Ele lembra que essas elevações vêm acompanhadas de eventos extremos. “Ondas de calor e inundações estão se tornando mais regulares. O aumento do nível do mar elevou a exposição a tempestades associadas a ciclones tropicais”, complementou.

* A repórter viajou para Marrakesh a convite do Instituto Clima e Sociedade

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