Pelas ruas de Nova York, uma frase ecoa como marteladas: ‘Não temos um planeta B’

Pelas ruas de Nova York, uma frase ecoa como marteladas: ‘Não temos um planeta B’

Cerca de 250 mil pessoas, entre crianças, adolescentes, adultos e idosos, pediram ação já contra as mudanças climáticas e deram um recado: 'não vamos parar até que os governantes se mobilizem para conter o aquecimento global'

Giovana Girardi

20 de setembro de 2019 | 20h57

NOVA YORK – “Porque parece que você precisa se lembrar de como gelo derretendo se parece.” A frase enigmática em um cartaz puxou meu olhar para cima. Um bloco de gelo, pendurado numa estaca, acima do cartaz, derretia no calor de quase 30ºC que fez em Nova York, nesta sexta-feira, 20. É quase outono.

O protesto solitário do italiano radicado nos Estados Unidos Lorenzo Fonda, de 40 anos, se somou ao de cerca de 250 mil pessoas – segundo estimativa dos organizadores – que se manifestaram pelas ruas da cidade para pedir ações urgentes de governantes contra as mudanças climáticas.

Lorenzo Fonda e sua ironia sobre o planeta derretendo. Crédito: Giovana Girardi / Estadão

A marcha e greve pelo clima que ocorreram em várias partes do mundo, atraindo, estima-se, cerca de 4 milhões de pessoas, em 150 países, aumenta a pressão sobre Cúpula do Clima da ONU, convocada pelo secretário-geral da organização, António Guterres, para esta segunda-feira, 23. Ele clamou aos chefes de governo, empresários e lideranças a terem mais ambição em suas políticas e ações para combater o aquecimento global.

Cálculos feitos por vários cientistas já mostraram que as metas estabelecidas pelos países junto ao Acordo de Paris de redução das emissões dos gases de efeito estufa ainda mantêm a Terra em uma trajetória de aquecimento de 3ºC até o final do século. É preciso, portanto, ter ações muito mais impactantes para evitar isso.

Os atos desta sexta foram o ápice de um movimento que começou em agosto do ano passado com a adolescente sueca Greta Thunberg, então com 15 anos, que, indignada com o que aprendia sobre mudanças climáticas, resolveu ela mesma tomar uma ação.

Passou, então, a fazer greve escolar todas as sextas-feiras para ir à frente do Congresso em Estocolmo pedir para que os líderes do país tomassem medidas concretas para evitar que o planeta sofra consequências ainda piores do que as que já estão ocorrendo. O protesto silencioso dela logo se transformou em um movimento mundial e bem barulhente – as chamadas “Fridays for Future”.

“Estou faltando às minhas aulas para ensinar a vocês uma lição”, afirma estudante. Crédito: Giovana Girardi / Estadão

“Por que estudar por um futuro que está sendo tirado de nós? Um futuro que está sendo roubado para que alguns lucrem”, disse ela nesta sexta, em um palanque montado no Battery Park, no sul da ilha de Manhattan, para onde todos os manifestantes se dirigiram após marcharem pelo centro da cidade.

“Alguns nos dizem que deveríamos estudar para nos tornarmos cientistas do clima, políticos, mas até lá será tarde demais, não podemos esperar”, afirmou, levantando o público que por mais de cinco horas se manifestou de modo animado, pacífico, mas com mensagens firmes.

As palavras de ordem eram principalmente: “Não há um planeta B”, “Nossa casa está queimando” e “Justiça climática já”, em referência ao fato de que são os mais pobres quem mais já sofrem e vão continuar sofrendo com um mundo em transformação.

“Não há um planeta B”. Crédito: Giovana Girardi / Estadão

“As pessoas que têm poder em todo o mundo são iguais em promessas vazias, em mentiras, em inação. Nesta segunda eles estarão aqui, e os olhos do mundo estarão neles”, disse Greta.

“A gente não tomou as ruas, não sacrificou nossa educação para fazer selfies com políticos que dizem que nos admiram. O que queremos é um futuro seguro. Estamos aqui para acordá-los”, continuou a ativista. “Somos uma onda de mudanças”, disse.

O trio de amigos Anna, Helena e Jack, todos de 18 anos, fazia pose em um poste com seus cartazes. “Nossos políticos não fazem nada, então cabe a nós fazermos”, diz Helena. “Eu estou literalmente aterrorizada com o que pode acontecer com o planeta. Como as pessoas conseguem viver calmamente como se tudo não fosse mudar em poucos anos”, afirma Anna.

Diversos jovens e adultos subiram ao palco antes de Greta, inclusive a jovem indígena brasileira Artemisa Xakriabá, de Minas, de 19 anos, que desde o começo da semana está nos Estados Unidos junto com quatro outros indígenas brasileiros da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) para chamar a atenção para as ameaças que eles estão sentindo com o governo Bolsonaro. “Não existe diferença entre uma jovem indígena como eu e uma jovem sueca como a Greta. Nosso futuro está conectado pelas mesmas ameaças da crise climática”, declarou.

Bolsonaro e as queimadas na Amazônia foram lembrados na manifestação. Crédito: Giovana Girardi / Estadão

Foco na Amazônia

Ela lembrou algo que todo mundo ali no público parecia estar por dentro: as queimadas na Amazônia. “A Amazônia se agoniza em fogo ano após anos pela irresponsabilidade do governo e suas políticas destrutivas que intensificam o desmatamento e secas, não só na Amazônia, mas nos outros cinco biomas brasileiros. Isso se reflete nas mudanças do clima e faz o fogo ficar mais forte”, disse a jovem liderança indígena. “Estamos aqui para lutar pela mãe terra, essa é a mãe de todas as lutas.”

Lá estavam jovens, crianças, mas também muitos adultos que faltaram ao trabalho, idosos que saíram das suas casas para se juntar à moçada e pedir a mesma coisa: “Salvem o planeta”.

Como colocou Greta, desta vez não eram só os estudantes faltando ¡a escola que foram lutar. “Porque isso é uma emergência. Nossa casa está pegando fogo. Não só as casas dos jovens. Todos vivemos aqui. Estamos unidos atrás da ciência para fazer com que a crise não piore.”

“Nossa casa está pegando fogo”, lembra um manifestante

Uma turma de cerca de 40 jovens entre 12 e 14 anos da George Jackson Academy era acompanhada por dois professores que entoavam: “Say it louder!” (Falem alto). E os meninos respondiam: “Solar Power!” (Energia solar). Os amigos Ethan e Johnny explicaram, modestos: “A gente está aqui para parar as mudanças climáticas”.

Enquanto todos gritavam, um bebezinho de apenas dez meses engatinhava sobre os cartazes que já tinham ficado no chão. Brincava sobre as letras que diziam não haver espaço no Congresso para negacionistas das mudanças climáticas e que a humanidade está enfrentando o risco da extinção. “Protesto por ele, porque talvez quando ele já possa protestar por si mesmo seja tarde demais”, explicou o professor Peter Wright, pai do pequeno Ellis.

* A repórter viajou a convite da organização No Peace Without Justice.

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