Pecuária verde aumenta PIB, mas ainda rende pouco para produtor

Pecuária verde aumenta PIB, mas ainda rende pouco para produtor

Estudo da FGV avalia quanto custa cumprir metas de recuperar 15 milhões de hectares de pastagens e fazer integração com florestas; só a primeira ação ainda é inviável economicamente, mas melhora quando a segunda é incluída; ganhos ambientais, no entanto, são consideráveis, o que demanda novas formas de financiamento

Giovana Girardi

02 Junho 2016 | 15h53

Rio de Janeiro – A premissa é simples: recuperar pastagens degradadas é bom para o ambiente – uma vez que permite reutilizar um solo que de outro modo seria abandonado, o que incentivaria o desmatamento de novas áreas – e é bom para o produtor, já que um pasto revitalizado pode abrigar uma quantidade maior de gado, aumentando os ganhos. Essa é a ideia que está por trás de uma das metas com as quais o Brasil se comprometeu junto ao acordo do clima de Paris: recuperar 15 milhões de hectares de pastagens até 2030.

gado

Um estudo recém-lançado pelo Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (GVCes) mostra, porém, que isso pode não ser tão simples de ser cumprido porque a conta para o produtor de gado de corte, considerando modelos atuais de negócio, pode não ser economicamente viável.

Apesar de ter potencial para levar a um aumento do PIB do País de 2,7% em 2030 – R$ 145 bilhões a mais na comparação com o PIB de 2015, o retorno para o produtor, dependendo das circunstâncias, pode ser negativo, o que inibiria as ações. O que sugere que o governo vai precisar pensar em novos modelos de financiamento para cumprir suas metas, melhorando a execução de seu maior instrumento para isso, o programa Agricultura de Baixo Carbono, que prevê financiamento para projetos que visem reduzir as emissões do campo, como a recuperação de pastagens.

A pesquisadora Annelise Vendramini, coordenadora do programa de finanças sustentáveis do GVCes e uma das líderes do estudo, explica que este é um estudo preliminar, uma primeira tentativa de responder quanto custaria cumprir a meta. Análises de fluxo de caixa considerando expectativas altas de taxa de retorno por ano (10%) e abate do boi não muito gordo (15 arrobas) – em geral, o modelo médio adotado no Brasil – mostraram que a atividade não é muito vantajosa.

Isso melhora, diz ela, se for considerada uma taxa de atratividade menor (6%) e o abate de animais num peso mais alto (18,5 arrobas). Para as contas foram consideradas tanto a meta de Paris quanto uma meta anterior, do Plano ABC, de 2010, que estabeleceu a recuperação de outros 15 milhões de hectares de pastagem degradada até 2020. Calcula-se que até agora menos de 2 milhões foram realizados.

A situação de viabilidade financeira melhora ainda mais, avaliou o estudo, se depois de recuperada a pastagem, o produtor adotar também um sistema que integre a pecuária com florestas – plantio de árvores que possam ser manejadas para o comércio de madeira. Aí o que era só retorno negativo passa a ser positivo, chegando a 9%.

“É um primeiro exercício de colocar essas questões todas na conta. São cenários que precisam ser aperfeiçoados e regionalizados. Se todo mundo tivesse fazendo dessa maneira não teria rentabilidade para o produtor. Mas sabemos que tem gente que tem feito e alcançado lucro e gente que não tem”, afirma a pesquisadora.

O estudo, encomendado ao GVCes pela Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, foi lançado na manhã desta quinta-feira, 2, no Rio de Janeiro.

Um é pouco, dois é bom… Atualmente estima-se que metade das pastagens do Brasil (que ocupam cerca de 180 milhões de hectares) está em processo de degradação ou já completamente degradada. E que a em média são campos com baixa produtividade, menos de uma cabeça por hectare, segundo o último censo agropecuário, de 2006. Para recuperar o pasto, é preciso investir no solo, em forragem, mas com mais grama verde, é possível ter mais gado. Por outro lado, o gado emite gás metano no seu processo de fermentação, o que piora o efeito estufa. Então para ser viável para o clima – objetivo primário da meta –, o ideal é intensificar a produção para duas cabeças por hectare.

Se tudo for cumprido, seria possível aumentar o número de cabeças de gado no Brasil de pouco mais de 51 milhões para quase cem milhões. “Pelos nossos cálculos, com a intensificação, seria possível evitar a desmatamento de 45 milhões de hectares para abertura de novas terras, que seriam usados para essas cabeças de gado a mais se não houvesse a recuperação de pastagem. E ainda haveria uma emissão evitada de 1 bilhão de toneladas de carbono equivalente até 2030”, explica a pesquisadora.

“Tem custo, mas traz retorno? Esse estudo mostra que tem ganho efetivo para a sociedade. É uma modelagem simplificada, parte do princípio de como é o mercado hoje. Para ter essa pecuária de baixo carbono temos de trabalhar para mostrar que existe um valor agregado nisso e buscar mercados que valorizem isso”, diz Annelise.

Apesar de os resultados econômicos desse estudo inicial para o produtor parecerem ruins, especialistas que trabalham com projetos de recuperação de pastagem e de integração pecuária-floresta defendem que no campo a situação já está mudando. “Num estudo como esse, os números são puxados para baixo porque a área degradada com baixa produtividade é muito grande. Mas está começando a ocorrer uma transição na cadeia produtiva da carne”, afirma Mauricio Voivodic, gerente de projetos do Imaflora.

“Antes o frigorífico comprava a carne que passava na frente dele, sem se preocupar com origem, se vinha de área desmatada ou não. Hoje nos maiores já existe compromisso com desmatamento zero na cadeia e sem trabalho escravo. Há preocupação com a qualidade e socioambiental. Não vai levar muito tempo para o fator produtividade também entrar na conta e isso vai valorizar quem faz”, diz.

A repórter viajou ao Rio a convite da Coalizão Brasil.

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