‘Não se trai uma promessa de esperança’, diz presidente francês a Trump

‘Não se trai uma promessa de esperança’, diz presidente francês a Trump

Em discurso sobre a importância do Acordo de Paris para o combate às mudanças climáticas, François Hollande fez o mais contundente apelo para que o presidente eleito dos EUA honre com os compromissos assumidos pelo país e com a responsabilidade para evitar o aquecimento global

Giovana Girardi

15 Novembro 2016 | 15h57

MARRAKESH – O presidente francês, François Hollande, fez nesta terça-feira (15), o mais contundente discurso na Conferência do Clima da ONU em Marrakesh chamando o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, à responsabilidade de honrar o compromisso que o país assumiu ao assinar e ratificar o Acordo de Paris. “Não se trai uma promessa de esperança”, decretou.

François Hollande durante emotivo discurso na COP22

François Hollande durante emotivo discurso na COP22

Hollande esteve à frente das negociações que conduziram ao histórico acordo de combate às mudanças climáticas há pouco menos de um ano na capital francesa e ressaltou o que ele significa.

“O acordo é irreversível de fato e de direito”, disse. “Governos, empresas, organizações não governamentais estão tomando iniciativas, lançando projetos, buscando soluções concretas para lutar contra as mudanças climáticas. Nós estamos nos movendo decididamente para um novo modelo de crescimento com baixo carbono. É irreversível em nossas mentes.”

O presidente lembrou que o problema se faz cada vez mais visível e citou os riscos que traz para a humanidade como um todo. “A emergência climática não parou em 12 de dezembro do ano passado (data em que o acordo foi fechado) em Paris. Os últimos meses foram os mais quentes da história moderna e a conexão foi estabelecida entre o aquecimento antropogênico e desastres naturais”, disse.

“Ninguém desconhece o fato de que se não fizermos nada, o aumento do nível do mar vai inundar cidades e costas, incluindo as mais populosas do mundo. Seria um desastre para as gerações futuras e um perigo para a a paz. Milhões de pessoas seriam deslocadas. Já temos visto conflitos por acesso água e recursos. Na África, milhões de pessoas teriam de migrar na esperança de encontrar em outro lugar os recursos que eles não têm mais onde estão. Então agir pelo clima significa assegurar a estabilidade global e a segurança.”

Depois de exemplificar a situação, pediu “consistência e perseverança” dos países, abrindo o caminho para falar do papel que o presidente Barack Obama teve para se obter o acordo e da ameaça feita por Trump de abandono-lo. “O Acordo de Paris é um trabalho de todo o mundo. Pertence a todo mundo. Depende de todo mundo. É do interesse de todo mundo”, disse.

“Os EUA – a maior economia do mundo, o segundo maior emissor de gases de efeito estufa – devem respeitar os compromissos que foram assumidos”, ressaltou. “Não é apenas o dever deles, mas é também do interesse deles e do interesse da população americana afetada pelas mudanças climáticas, porque nenhum país pode ser blindado contra as mudanças climáticas. Também é do interesse de empresas americanas, que investiram na transição ambiental, e de cidades e estados que também se mobilizaram.”

E lembrou que “o que convenceu muitos países a entrarem no acordo foi saber que os países mais desenvolvidos iriam se comprometer e cumpririam suas promessas”.

Até então, as manifestações a respeito do que pode acontecer com o acordo se os EUA de fato saírem estavam bem ao gosto diplomático que impera nessas negociações. Todo mundo contemporizando, esperando que o bom senso e o pragmatismo prevaleçam, que os benefícios econômicos falem mais alto. Hollande foi o primeiro a apelar para as emoções, impondo um constrangimento a Trump.

“Uma promessa de esperança não pode ser traída, ela tem de ser cumprida. Aqui em Marrakesh nós somos os guardiões da letra e do espírito do Acordo de Paris e nós devemos nos lembrar o que nos une. Independentemente de nossas diferenças, religiões, convicções, situações, de nossos diferentes níveis de desenvolvimento. O que nos une é o que temos em comum. E isso é bem simples. É o nosso planeta.”

* A repórter viajou a Marrakesh a convite do Instituto Clima e Sociedade