‘Não existe antiamericanismo da ciência brasileira’, reage ex-diretor do Inpe a Salles

‘Não existe antiamericanismo da ciência brasileira’, reage ex-diretor do Inpe a Salles

Ricardo Galvão, exonerado após série de ataques do governo aos dados de desmatamento, reage a declarações do ministro do Meio Ambiente, que voltou a acusar o Inpe de ter divulgado informações de desmatamento à imprensa antes de passá-las ao governo

Giovana Girardi

24 de agosto de 2019 | 17h20

O ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) Ricardo Galvão rebateu as declarações do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, sobre a divulgação de dados de desmatamento e sobre a necessidade de um novo sistema de monitoramento para a Amazônia.

Ele disse que não é verdade que o Inpe tenha divulgado dados para a imprensa antes de o Ibama ter conhecimento sobre eles, como afirmou o ministro, em entrevista ao Estado, sobre as informações do Deter. Este é o sistema do Inpe que aponta em tempo real desmatamentos que estão ocorrendo, o que serve para orientar a fiscalização.

Ricardo Galvão foi exonerado do cargo após duas semanas de embate do governo contra os dados de desmatamento do Inpe. Crédito: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Foram os números do Deter que apareceram em reportagens a partir do final de julho e que indicam que o desmatamento na Amazônia pode ter subido entre agosto do ano passado e julho deste ano, na comparação com os 12 meses anteriores. Os alertas do Deter indicam uma alta de 49,45% no período.

“O Deter existe para municiar o Ibama com informações para fiscalização, mas quem estava recebendo as informações de desmatamento antes do próprio Ibama eram alguns órgãos de imprensa. Como é que um órgão de imprensa pode receber informações antes do próprio órgão federal a que o sistema se destina?”, disse Salles.

“Isso nunca houve e eu falei explicitamente para ele, falei publicamente. O Ibama tem acesso direto ao nosso banco de dados. Nós não precisamos passar para eles verem porque ele podem ver diretamente. E nunca passamos nada para a imprensa antes de fazermos a publicação no nosso banco de dados”, afirmou Galvão ao Estado. “Como a imprensa poderia ter acesso antes? Ele tem provas do que está falando?”

O pesquisador também questionou as declarações de Salles de que o dado do Deter não se “presta a mensuração de desmatamento”. Segundo Galvão, de fato não é muito acurado fazer comparação de dados de um mês com os dados do mesmo mês do ano anterior, informação esta que está clara no site do Inpe. Mas ele diz que o ministro teve um entendimento equivocado.

“Eu expliquei para ele. Não é que não se presta a medir os dados do desmatamento, é claro que se presta, mas não com a precisão de 95% do Prodes. É verdade que as áreas medidas pelo Deter são aproximadas, mas com uma média de quatro meses de dados já se aproxima muito do que o Prodes acaba mostrando. Eu mostrei pessoalmente isso para ele. É claro que o Deter se presta sim a fazer alerta e a mostrar aproximadamente a área que está sendo desmatada”, afirma Galvão.

Segundo o pesquisador, o consolidado anual de alertas do Deter tem uma correlação de 82% com o Prodes. E, em geral, o Prodes mostra uma área de perda maior do que a vista pelo Deter, justamente porque este sistema, por ser mais rápido, também não enxerga tão bem.

Galvão comentou ainda as declarações feitas por Salles sobre a contratação de um novo sistema de monitoramento. “Vocês deram no Estadão outro dia uma entrevista com o Gilberto Câmara, que é agora independente (ex-diretor do Inpe, hoje dirige o secretariado do Grupo de Observações da Terra – GEO, ligado à ONU), e ele disse que o Inpe tem o melhor sistema para fazer esse tipo de alerta de desmatamento. Porque não basta ter acesso a imagens. Existe todo um processo do Inpe para classificar essas imagens e para isso é preciso ter um sistema de análises”, afirma o engenheiro.

“Para ter alerta de desmatamento, não é necessário ter imagem com resolução de 3 metros. Mas se ele quer ter acesso a esse tipo de imagem, por que não encomendou ao Inpe? Gastaria muito menos recurso, usando a ciência nacional, que já tem a experiência de analisar esses dados. Com R$ 5 milhões ele só vai comprar imagem, não o sistema”, complementa. Segundo ele, o gasto para criar esse sistema será maior.

Não é a primeira vez que Galvão faz esse tipo de comentário e Salles também se referiu a isso na entrevista deste sábado. “Esse antiamericanismo da ciência brasileira é uma coisa retrógrada e improdutiva, porque em vez de nós termos o que há de melhor, independentemente da nacionalidade, acabamos ficando com um sistema brasileiro que não é o que há de melhor no mundo”, disse o ministro.

Galvão também reagiu: “Isso me incomoda muitíssimo e quero protestar fortemente. Não existe antiamericanismo meu nem da ciência brasileira. Fiz doutorado no MIT, estamos sempre em contato com pesquisadores americanos. Um dos maiores projetos do Inpe é com a Nasa. O que nos preocupa é passar para empresas privadas o que o governo poderia fazer com seus próprios recursos. Não existe esse sistema pronto no exterior. Ele está comprando imagens, não sistema. Se ele desse esses recursos para o Inpe, teria tudo pronto até o final do ano”.

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